Michele Aracaty retrata desigualdades do país

Acaba de ser lançado o livro ‘Riqueza, desigualdade e pobreza no Brasil: aspectos socioeconômicos das regiões brasileiras’, composto por cinco trabalhos oriundos de pesquisas desenvolvidas através do PIBIC da Universidade Federal do Amazonas (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica). As pesquisas foram desenvolvidas por acadêmicas do curso de graduação em Ciências Econômicas da Ufam, sob a orientação da Profa. Dra. Michele Lins Aracaty e Silva, professora do curso de Ciências Econômicas, que deu esta entrevista ao Jornal do Commercio.

Michele Aracaty reuniu trabalhos oriundos de pesquisas desenvolvidas através do PIBIC da Ufam

Jornal do Commercio: O conteúdo do livro ‘Riqueza, desigualdade e pobreza no Brasil: aspectos socioeconômicos das regiões brasileiras’ é bem abrangente. Na sua opinião, tirando a fome, qual dos problemas apresentados deve ser tratado com mais urgência pelas autoridades competentes?

Michele Aracaty: Diria que a vulnerabilidade socioeconômica deve ser a prioridade. Vulnerabilidade socioeconômica entende-se por extrema pobreza, ausência de abastecimento de água potável, insuficiência ou inexistência do sistema de esgotamento sanitário, ausência de coleta de lixo, renda per capita inferior a meio salário mínimo, elevado índice de mortalidade infantil, número expressivo de crianças e adolescentes que não frequentam a escola, elevado número de mulheres jovens com filhos, elevado percentual de mulheres responsáveis pela renda familiar e chefes de família, elevada taxa de analfabetismo, número significativo de adultos que não trabalham e nem estudam, e dependem quase que integralmente de auxílio de programas de transferência de renda para sobreviver.

JC: O Brasil é atualmente um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Por que tanta gente ainda passa fome no país?

MA: O Brasil ocupa a terceira posição, atrás da China e Estados Unidos. De acordo com dados da FAO/ONU (2020), o Brasil alimentou 1 bilhão de pessoas no mundo com a sua produção de alimentos, mas o que é exportado para mais de 180 países em todo o mundo geralmente não faz parte da alimentação do brasileiro que, segundo dados do IBGE, é oriunda da agricultura familiar, 70%. São alimentos produzidos em pequenos espaços de terras, geralmente com 1 e 2 hectares, por pessoas da mesma família que costumam produzir para consumo próprio e vender o excedente. A solução seria incentivar mais o pequeno agricultor e a agricultura familiar, já que é daí que vem a alimentação de 70% dos brasileiros, e na outra ponta, melhorar as condições de aquisição de alimentos por parte das famílias mais vulneráveis.

JC: Pela ordem, quais as regiões são mais afetadas pela fome no Brasil?

MA: De acordo com os últimos levantamentos, respectivamente as regiões Nordeste, Sudeste e Norte são as regiões mais afetadas pela fome no Brasil, sendo que não temos dados referentes à população em situação de rua. Somente São Paulo faz o censo da população em situação de rua. E ainda persiste a fome em regiões rurais, sim. Temos um percentual de fome maior no campo do que na zona urbana das cidades. Segundo a FAO/ONU mais de dez milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar grave, incluindo crianças. A erradicação da fome no país passa pelo investimento na educação. Educação é o início de toda a cadeia.

JC: No Amazonas se passa fome? Onde especificamente?

MA: Segundo o IBGE (2020), referentes ao período de 2017-2018, seis em cada dez domicílios do Amazonas foram apontados em algum grau de insegurança alimentar. Em termos comparativos, a insegurança alimentar em nível nacional atingia 36,7% e no Amazonas chegou a 65,5% no período analisado (2017-2018). Seguindo a lógica das estatísticas oficiais, as zonas rurais são os locais onde se tem maiores percentuais de população que passa fome.

JC: Mas a situação tem melhorado em relação ao livro ‘Geografia da fome’, de 1946, referência para este livro?

MA: Infelizmente não, apesar do aumento da oferta de alimento no Brasil e no mundo a fome faz parte do cotidiano de muitas famílias na África, Ásia e na América Latina. Em relação à América Latina, o Brasil aparece como o país com maiores índices de desigualdade e concentração de renda, segundo dados do SOFI (2019).

JC: De que forma o livro ‘Riqueza, desigualdade e pobreza no Brasil’ pode ser importante para os futuros prefeitos e o governador do Amazonas?

MA: Este livro, bem como os demais trabalhos que já foram publicados e os que serão lançados futuramente, apresentam como base de análise os indicadores socioeconômicos do IBGE, IPEA e ONU e são de conhecimento público. Não estamos inventando a roda. O que eu e meus alunos fizemos foi uma contextualização e análise dos dados já disponibilizados e através de ampla divulgação em diversos meios de comunicação procuramos mostrar a real situação de vulnerabilidade socioeconômica que é cotidianamente sentida por parte da população. Além disso, estamos formando futuros economistas e eles devem ter conhecimento da situação socioeconômica do país, da região e do estado em que vivem para que no futuro possam contribuir para mudar esta situação. A participação dos gestores públicos deveria ser de, com base nestes diagnósticos e análise dos indicadores, fomentar políticas públicas com o objetivo de reduzir a vulnerabilidade socioeconômica através de projetos de inclusão e com a participação da sociedade que será beneficiada. Cabe também à população, de forma imprescindível, essa cobrança aos gestores públicos por ela eleitos.

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