‘Meu sucessor terá a faca e o queijo na mão’, diz Arthur Neto

Em entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto falou sobre a trajetória na vida pública no fechamento de um ciclo de oito anos no comando municipal. Arthur detalhou seu futuro político. Fez críticas às ações do governo federal, da polarização ideológica no Brasil, entre outros assuntos. Arthur fez ainda um balanço do mandato. Ponderou sobre o que espera de Manaus para os próximos anos e como viu 2020 marcado pela pandemia da Covid-19. Para completar, o experiente político traçou um panorama sobre a sucessão municipal. Acompanhe:

Jornal do Commercio: Prefeito, após quatro décadas atuando na vida pública, o senhor anunciou em recente entrevista, que deverá se aposentar. Missão concluída? Arthur Neto sai da política, mas, a política saiu do Arthur Neto?

Arthur Neto: Eu sou de uma família de políticos, respiro política desde que nasci, minha mãe era sobrinha de um vereador, líder da UDN, e trouxe com ela essa herança política. Já meu pai, estadista extremamente generoso, líder ferrenho contra a ditadura, contra o fascismo e o nazismo. Ou seja, a política já era fundamental em minha história desde muito jovem, que ouvia as histórias de meus pais contando sobre as perseguições políticas e suas lutas ideológicas. Não tenho como ficar de fora da política. 

JC: O senhor foi deputado federal, prefeito de Manaus, ministro e senador. Por qual dos cargos, o senhor ganhou mais apego?

Arthur: Todos os meus cargos foram a favor do povo de Manaus, o qual me considero parente, somos irmãos. Sempre defendi a Amazônia, a Zona Franca de Manaus, seja no parlamento ou ocupando cargo no Executivo. Considero que Manaus, o Amazonas e a Amazônia são o meu principal apego, algo pelo que sempre lutarei, seja onde estiver. 

JC: O senhor é prefeito reeleito. Na sua avaliação, o seu melhor desempenho foi no primeiro ou está sendo agora, nesse segundo mandato? Pode fazer um balanço e síntese da sua atuação?

Arthur: Eu fiz o melhor que pude por Manaus, sempre. Minha atual gestão é vitoriosa. Manaus é, hoje, a cidade mais “ajustada” fiscalmente, é hexacampeã em responsabilidade previdenciária, apresenta um nível de cumprimento de compromissos de campanha, que se aproxima dos 100%.

Somos a capital federal que todas as respostas atingem 100% de transparência, segundo os órgãos fiscalizadores, em relação às compras relacionadas aos investimentos nesse período de pandemia, mesmo com pouquíssima ajuda do governo federal, e ainda conseguindo realizar investimentos próprios.

Não tenho dúvida de que Manaus se destaca no cenário nacional, por ser uma capital tão expressiva, simbólica. E ainda, no exterior, somos vistos como capital da Amazônia, mesmo alguns sem saber a diferença de Amazônia e Amazonas. Outros, mesmo sabendo, ainda dizem que Manaus se qualifica como a capital da Amazônia, apesar de que no cenário nacional existe um “etno-paulistismo” e discursos sobre Amazônia e Nordeste normalmente são superficiais.

JC: Vamos falar de futuro. Reforma Tributária em debate. Quais os perigos que rondam a Polo Industrial de Manaus (PIM), na sua avaliação?

Arthur: Se essa reforma Tributária for realizada sem respeitar as iniciativas da Zona Franca de Manaus será muito negativa, temos que ter uma bancada muito atenta, que certamente vai prestar atenção nisso. O grande problema é que a maior parte do Brasil trata a Zona Franca como se fosse exploradora, por merecer algum incentivo fiscal, logo ela em um Estado que paga muito mais impostos federais do que recebe a título de investimentos. 

São números preconceituosos que se esquecem de que a indústria automobilística floresce à base de incentivos fiscais, e não discutem o mérito disso. Confundem com renúncias fiscais fúteis, desnecessárias, e que eu sou a favor de limitá-las ou extirpá-las. A Zona Franca de Manaus produz bem mais empregos do que quaisquer outras formas. E mais, mantém cerca de 96% da nossa floresta Amazônica preservada. O que o Brasil precisa é entender, de uma vez por todas, que a Amazônia é a última fronteira possível de desenvolvimento deste país.

JC: O senhor é um crítico da condução do presidente Jair Bolsonaro como presidente. Na sua opinião,  onde ele acerta e onde erra? Com essa condução da política ambiental por parte do Governo Federal, que riscos corre o Estado do Amazonas?

Arthur: O Amazonas corre muitos riscos, porque não temos controle sobre o meio ambiente, o Brasil não tem política ambiental. Considero um insulto ao país o presidente manter um parasita como o ministro Ricardo Salles à frente de uma pasta tão relevante, até para a soberania e autonomia nacional, como o meio ambiente.

Essas pessoas atrasadas imaginam que a soberania nacional se garante com as armas, apesar de sermos um país pacífico e desarmado. Temos que entender que o que sempre garantirá a soberania nacional é o meio ambiente, a boa governança sobre a Amazônia.

As políticas de meio ambiente orientam o que fazemos em cultura, turismo e desenvolvimento. Eu não acredito em economia que dê certo sem a preocupação ambiental estar bem resguardada.

JC: Qual sua avaliação desse ano para o país, marcado pela pandemia da Covid-19?

Arthur: Vivemos uma tragédia, principalmente porque quem deveria governar e liderar o país, não faz isso. Há uma confusão na gestão da pasta que deveria cuidar da saúde. Dois ministros em pouco tempo se demitiram, por isso não tiveram tanto tempo para atender a situação. Já atualmente quem está lá, o ministro Eduardo Pazuello, é uma boa pessoa, mas que trabalha fazendo as vontades do presidente Bolsonaro.

As pessoas não aceitam o isolamento social e, mesmo sem ter dinheiro ou algo para fazer, continuam saindo. Essas acabam dificultando a vida de quem de fato tem que sair para trabalhar, e não pode trabalhar de home-office, assim como eu, e só sair em questão de necessidade.

Importante salientar ainda que o Governo Federal, em determinado momento, se lembrou do Amazonas, no período de pandemia, e disponibilizou para o Governo do Estado uma verba que ajudou muito e fez com que houvesse uma queda no número de casos e óbitos de coronavírus. Entretanto, importante lembrar que esse momento ainda não acabou, apesar dos tolos dizerem que já, mas esse é apenas um reflexo da subestimação dos dados, o que dificulta o enfrentamento real da doença, afinal isso é apenas a necessidade de ficar no “azul” perante o país e o mundo, cor correspondente a uma situação favorável.

JC:  O Brasil vive um momento altamente polarizado. Nossa jovem democracia passa por seu mais duro teste, com a presença de uma extrema direita agressiva. O que o senhor espera dessas próximas eleições?

Arthur: Um dos objetivos das eleições é aprimorar o sistema democrático, afinal, atualmente o sistema político está fraco, e a democracia precisa ser fortalecida de verdade. Apesar de toda essa polarização e conflitos que marcaram o país nos últimos anos, não acredito que o Brasil corre o risco de ruptura democrática, afinal, ainda existe a maioria a favor do sistema.

JC:  Não vamos falar de quem, mas, de como… Como deverá ser o próximo prefeito de Manaus? Quais os desafios a enfrentar e como agir? Como vê Manaus nos próximos anos?

Arthur: Eu gostaria de ver uma sucessão com alguém que continue esse nosso bom trabalho de ajuste fiscal, previdenciário, que não jogue dinheiro fora, continue gerando empregos de forma responsável, respeite Manaus e não ceda aos bancos que sempre estão querendo emprestar dinheiro, mas que não é possível aceitarmos tudo.

Manaus hoje não sofre com problemas econômicos. O meu sucessor pegará uma cidade ajustada fiscalmente e pronta para crescer ainda mais. Infelizmente, quando eu assumi a Prefeitura, há sete anos, a situação era totalmente diferente. A pessoa que me suceder na gestão do município terá a faca e o queijo na mão para fazer a cidade crescer muito mais nos próximos anos. Por isso, destacamos que é importante os eleitores analisarem bem em quem vão votar, se é uma pessoa experiente, com capacidade de gestão, para não destruir em poucos meses o que levamos anos para ajustar.

Reportagem de Chris Reis

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