Mergulhar nos igarapés de Manaus no final do século 19 era um hábito, enquanto a água fria curava ressaca e incentivava o corpo a continuar a batalha diária.
O Igarapé do Franco, na Zona Oeste, recebia seus mergulhadores cativos, que ensinavam aos filhos como mergulhar nas águas límpidas daquele curso de água; foi assim até o final da década de 50 do século 20 – mergulhos e banhos em muitos igarapés da cidade de Manaus. Porém, para mergulhar com desenvoltura, havia de ser nascido na região amazônica, porque era preciso compreender a magia de deixar-se submergir sem os medos comuns àqueles que nasceram em outras paragens.
Há outras singularidades ou especificidades, como gostam os acadêmicos, conhecidas daqueles que nasceram no Amazonas antes da década de 60 do século passado; esses conhecem muito bem a frase: ‘– Sabu saltou daqui’. Sabu era um ator indiano-mirim de filmes de aventuras exóticas, que visitou Manaus acompanhado da atriz Bibi Ferreira para divulgar o filme ‘O fim do rio’, dirigido por Derek Twist. Segundo Aurélio Michiles, Sabu, “ao ver a ponte, vindo do aeroporto de Ponta Pelada, fez questão de saltar lá do alto, mergulhando espetacularmente nas águas do Igarapé. Até hoje ninguém soube responder satisfatoriamente a essa polêmica: afinal, o Sabu saltou da segunda ou da terceira ponte?”.
Ao final da primeira década do século 21, mergulhar em igarapés na cidade de Manaus não mais reconforta e muito menos representa atividade a ser ensinada aos mais jovens. A imersão total da capital amazonense no processo de mundialização tem deslocado os seus movimentos de mergulhos para saltos e pulos. Sobre igarapés e grandes rios constroem-se pontes, representantes de saltos para o futuro, queima de etapas rumo ao desenvolvimento metropolitano; as pessoas distanciam-se dos cursos de água compulsoriamente, mesmo quando processos de revitalização obtêm sucesso na promoção da qualidade de vida dos habitantes de margens de igarapés antes repletas de lixo. Áreas atualmente urbanizadas e corretamente habitadas contribuem para melhor qualidade de vida aos que não possuem outra opção de moradia.
Longe dos cursos de água, a população de Manaus aprende a conviver com a construção de infraestrutura para a melhoria do trânsito na cidade. Não há mais necessidade de mergulhadores, pois a era atual pertence às passagens de nível e aos viadutos. Furada de norte a sul e de sudeste a noroeste, a cidade de Manaus cresce e se agiganta verticalmente depois de ter se espraiado para o leste, como se o crescimento horizontal fosse a lei maior da ocupação urbana. A mudança é radical. Manaus aprende a crescer para cima; elevam-se as estradas através dos viadutos, elevam-se as moradias com a construção de torres de concreto, vidro e muita tecnologia da informação para facilitar a vida de moradores e visitantes.
A cidade de Manaus prepara-se para ter trânsito mais veloz e uma natureza mais adequada à contemplação do que ao contato físico; uma cidade assim atrairá talentos humanos altamente qualificados em busca de renda e melhor qualidade de vida. A manutenção dessas características representará mais atividades econômicas na área de serviços e exigência de maiores competências e habilidades para ocupar vagas de trabalhos existentes.
Assumindo a atual fase de transformação da face da cidade através das obras de infraestrutura em andamento, como uma fase de transição rumo à mundialização, urge potencializar o principal ativo da sociedade, as pessoas, preparando-as adequadamente para a cidade de Manaus que se revelará após a limpeza da poeira e da lama necessárias ao crescimento das estradas e dos viadutos. Essa preparação deveria ser concretizada através da execução de programas e projetos para capacitação profissional daqueles que ainda se encontram fora do mercado de trabalho; outra vertente dessa preparação seria o aumento do nível de escolaridade daqueles que necessitam. Tudo isso representa investimentos, cujo resultado será a elevação do capital humano local.
Se a construção de viadutos, estradas e pontes que transformarão a cidade não conta com a participação de talentos humanos locais, significa que a relação de pertencimento com a Manaus do Futuro não se efetivará entre os que nasceram no Amazonas, pois a maioria desses não trabalha nessas obras. Portanto, agora, saltos e pulos inteligentes e criativos geram renda e integram cidadãos à cidade de Manaus do século 21. Mergulhar, só de vez em quando.

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