12 de abril de 2021

Menos devedores na ativa em Manaus

Apesar dos impactos econômicos da crise do Covid, o percentual de famílias de Manaus endividadas e inadimplentes em cheques, cartões de crédito e carnês de loja, entre outros, sofreu novo refluxo entre maio e junho. O mesmo ocorreu no caso dos inadimplentes, mas a faixa de consumidores que admitem que não poder mais pagar as contas voltou a subir – especialmente entre os mais pobres. A cidade teve um desempenho melhor do que o da média brasileira, embora novamente com números comparativamente mais altos.  

A conclusão vem dos números locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). O levantamento levou em conta a quantidade de famílias com dívidas contraídas com cheques pré-datados, cartões de crédito, carnês de lojas, empréstimo pessoal, compra de imóvel e prestações de carro e de seguros. 

Na sondagem, 81,7% das famílias manauenses ouvidas (513.579) se dizem endividadas, patamar inferior ao de maio de 2020 (83,4% e 523.167), mas ainda acima do registrado há 12 meses (75,9% e 470.354). Foi o segundo menor número desde janeiro deste ano (80% e 499.674), quando o indicador sofreu repique e voltou a subir. Em âmbito nacional, o indicador chegou a 67,1% – o maior número da série histórica iniciada em janeiro de 2010 –, com incrementos de 0,6 ponto percentual na variação mensal e de 3,1 na anual.

O índice de inadimplência na capital (21,4% e 134.423 famílias) voltou a encolher pelo terceiro mês seguido, após o repique de março, ficando bem abaixo o número de maio de 2020 (22,3% e 140 mil) e muito aquém de junho de 2019 (37,8% e 234.121). Apenas 3,2% disseram que devem poder quitar a dívida totalmente e 33,8%, parcialmente. A proporção de brasileiros nessa situação chegou a 25,4% e foi a maior desde dezembro de 2017, com expansões nas bases mensal (+0,3 p.p.) e anual (+1,8 p.p.).

A fatia correspondente às famílias que declararam não ter condições de quitar suas dívidas em atraso, por outro lado, subiu pelo terceiro mês consecutivo em Manaus e chegou a 13,5% (84.721) – contra os 12,5% (78.436) de maio. Mas, o percentual seguiu muito abaixo do registro de um ano atrás (18,6 e 115,374). No país, o índice chegou a 11,6% – patamar mais alto desde novembro de 2012 – tendo avançado nas comparações mensal (+1 p.p.) e anual (2,1 p.p.).

Tempo e dependência

Entre os manauenses inadimplentes, 66,2% devem há mais de 90 dias, com destaque para os que têm vencimentos abaixo de dez mínimos. Foram seguidos pelos que estão atrasados entre 30 e 90 dias (28,4%) – fatia que concentra os que ganham mais de dez mínimos – e pelo grupo pendente há menos de um mês (5,5%). O tempo estimado para quitar o compromisso varia de até três meses (6,1%), até seis meses (10,2%), menos de um ano (35,1%) e acima desse tempo (38,9%) – sendo que a maioria de ambos os grupos está nessa situação. 

A fatia de endividados pode ter caído, mas o grau de dependência do crédito para quem já está ‘pendurado’ aumentou os manauenses. A maioria (58,1%) se assume “muito endividada” – contra os 53,3% de maio. São seguidos de longe pelos que se dizem “mais ou menos endividados” (12%) e “pouco endividados” (11,6%), com níveis bem aquém dos capturados na sondagem anterior (16,5% e 13,5%, respectivamente). No primeiro grupo, predominam os consumidores com renda total de até dez salários mínimos. 

Cartão e comprometimento

Em Manaus, o maior vilão do endividamento e da inadimplência ainda é o cartão de crédito, que voltou a elevar sua participação no bolo. Em nível local, 97% das famílias já estão nessa situação – bem maior do que os 92,3% de maio. O percentual é maior entre as que ganham mais (100%). Carnês (68,6%) comparecem na segunda posição e também elevaram muito sua fatia em face do levantamento anterior (61,2%). O público preferencial, neste caso, é dos que recebem menos (7,4%). 

Em média, as famílias de Manaus já consomem 45,9% de sua renda para pagar dívidas – percentual maior do que os 43,8% anteriores. A maioria esmagadora (76,6%) já compromete mais da metade de sua renda mensal com pagamento de dívidas. São seguidos de longe por aqueles que gastam de 11% a 50% (17,4%) e pelos que limitam os dispêndios a 10% para esse fim (1,2%). No mês anterior, essas fatias foram de 68,4%, 20,3 e 4,7%, respectivamente. 

“A pandemia do novo coronavírus trouxe para o nosso país talvez a maior recessão econômica de toda a sua história. A economia brasileira ficou engessada, trazendo prejuízos vultosos na geração de empregos, renda, tributos, enfim. E a situação no Amazonas não está sendo diferente. É uma situação extremamente preocupante, porque sinaliza que teremos dias difíceis, com número elevado de desempregados e inadimplentes, e prejuízos ao setor comercial”, lamentou o assessor econômico da Fecomércio AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas) e coordenador da pesquisa, José Fernando Pereira da Silva. 

Coronavoucher e crédito

Em texto divulgado pela assessoria de imprensa da CNC, a economista responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, observa que o endividamento dos consumidores brasileiros é crescente segundo o corte por faixa de renda, e segue tendência positiva desde fevereiro de 2020 entre as famílias que ganham menos. “Já nas famílias que recebem mais de dez salários, o endividamento vem caindo desde abril deste ano”, completou.

No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, avalia que a nova alta do endividamento indica que as famílias estão demandando mais crédito do sistema bancário, seja para pagar dívidas e despesas correntes, seja para manter algum nível de consumo e sobrevivência em tempos de pandemia e incertezas em alta, e atividade econômica em baixa. 

“Apesar do contexto negativo em relação ao mercado de trabalho e à renda, a inflação controlada e a queda da taxa Selic são fatores que podem favorecer o poder de compra dos consumidores. Além disso, as transferências emergenciais do coronavoucher também impactam positivamente a renda e o consumo, especialmente dos itens considerados essenciais”, concluiu, reforçando necessidade de ampliação do acesso ao crédito a custos mais baixos e do alongamento dos prazos de pagamento das dívidas

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