Memórias de um sonho de uma nova capital

Luiz Gustavo é mestre em arquitetura e urbanismo pela USP e doutorando em arquitetura pela Escola Tècnica Superior d’Arquitectura de Barcelona. Foi pesquisador visitante na Universidade do Texas e é sócio do Arquitetura Meridional, com escritório sediado em São Paulo. No dia de hoje ele está lançando o livro ‘Brasília, leituras e leitores – arquitetura, história e política – 1957/1973. Nesta entrevista ao Jornal do Commercio, ele falou um pouco mais sobre os 60 anos da capital do Brasil.

US$ 83 bilhões   

‘Brasília, leituras e leitores’ traz uma nova interpretação da cidade de Brasília, apresentando leituras sobre seu projeto, sua construção e seu funcionamento enquanto cidade entre 1957 e 1973. Possivelmente sendo a capital federal a obra mais comentada na história da arquitetura brasileira, espera-se nas páginas do livro uma repetição de assuntos e análises, mas isso não ocorre. Partindo de uma rica retrospectiva historiográfica, Luiz Gustavo apresenta várias das interpretações já publicadas sobre a cidade, mas revela explanações realizadas no período e traz à baila pontos de vista sobre a capital como fator urbano e arquitetônico.

“A ideia de escrever o livro surgiu quando vi que a cidade era um projeto importante para o Brasil, mas que estava reduzida a um projeto de urbanismo moderno. Visitei acervos e descobri que muita gente já escreveu sobre Brasília, às vezes com grande carga emocional e afetiva. Era uma cidade que tinha despertado interesse nacional, um objeto que fugia das análises dos arquitetos e urbanistas. Em levantamentos foram encontrados mais de 100 livros sobre a cidade, escritos por autores das mais diferentes áreas”, contou.

Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960, levou em torno de três anos e meio para sua execução. O preço final é incerto, mas alguns historiadores afirmam que a obra ficou, nos anos de 1960, na casa dos US$ 1,5 bilhão. Se transferirmos esse valor para os dias de hoje, teríamos um custo de mais de US$ 83 bilhões.

“Esse é talvez o detalhe mais polêmico da construção de Brasília. A obra foi muito cara, e, ao que tudo indica, ficamos pagando o preço de sua construção ao longo de muitos anos. Hoje também se diz que pagamos um preço ambiental alto, já que na época de sua criação essa preocupação não estava presente. Por outro lado, é importante considerar que, mesmo cara, a cidade ajudou a desenvolver parte do território brasileiro. Acho que, se colocarmos na balança, acabamos ganhando com Brasília”, disse.

“Muitas pessoas insistem em dizer que Brasília foi uma obra desnecessária. Por um lado, me parece que isso é verdade por ela ser uma capital simbólica e administrativa. Entretanto, vale lembrar que o Brasil colônia teve ocupação principalmente costeira e que Brasília ajudou no desenvolvimento regional do Brasil, com criação de estradas, indústrias e Universidades. Brasília é hoje uma centralidade importante para o Brasil”, assegurou.

As obras iriam parar

Luiz Augusto reforçou que Juscelino Kubitschek foi o grande entusiasta da construção da cidade, ainda que a ideia de transferir a capital para o centro do Brasil tenha sido antiga, reforçada principalmente por presidentes, após a Proclamação da República.

“Eu tenho uma hipótese para os motivos de JK ter investido tanto esforço pessoal na nova capital. Quando prefeito, ele ganhou repercussão desde que mandou construir o bairro da Pampulha, em Belo Horizonte, por Oscar Niemeyer, nos anos de 1940, e descobriu ali que a arquitetura era um mecanismo de ampliação de capital político. Brasília seria a consolidação de sua imagem na história do Brasil”, revelou.

Diante das arrastadas obras da capital, cuja data marcada para inauguração era 21 de abril de 1960, o arquiteto Lúcio Costa chegou a sugerir a JK que inaugurasse a metade das obras e deixasse a outra metade para o presidente seguinte, ao que o presidente respondeu que se a cidade não fosse inaugurada sob seu mandato, as obras iriam parar.

Sobre o fato de, com o tempo, Brasília ter ganhado a fama de ser a sede dos ladrões de colarinho branco, o arquiteto concluiu.

“Brasília é uma cidade administrativa e, como sede do governo brasileiro, abriga as atividades políticas e partidárias de todo tipo de gente. E é claro que, em um grupo tão grande de pessoas, temos as honestas e as não honestas. Brasília não perde com isso. Acho que ela é o palco da democracia brasileira, tem que ser o espaço da disputa e do debate”.

Serviço

‘Brasília, leituras e leitores’ esta disponível para venda pelo www.altamiraeditorial.com.br e em livrarias e portais de venda online.

Fonte: Evaldo Ferreira

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