21 de abril de 2021

Medida do Banco do Brasil afeta bancários no país

O Banco do Brasil aprovou um conjunto de medidas que diminuem sua estrutura organizacional com fechamento de pontos de atendimento e programas de demissão voluntária. Serão encerradas 361 unidades, sendo 112 agências.

As medidas foram anunciadas nesta segunda-feira (11) ao mercado. O banco estima que a economia anual com as medidas alcance R$ 353 milhões em 2021 e R$ 2,7 bilhões até 2025.

A discussão sobre um enxugamento da estrutura do BB existia desde meados do ano passado, mas ganhou força e profundidade com a chegada de André Brandão, presidente do BB que tomou posse em setembro de 2020.

A cúpula do banco já tinha visões sobre a necessidade das mudanças, mas o desenvolvimento do plano só foi adiante após a posse do executivo vindo do HSBC.

As mudanças anunciadas já estavam em grande parte acertadas com o Ministério da Economia, principalmente as que envolvem desligamento de pessoal. A estratégia é rever a necessidade de atendimento físico e fortalecer os canais digitais, que já representam a maior parte das operações.

De acordo com o banco, a Covid-19 acelerou esse movimento. A quantidade de transações em guichês de caixa no BB caiu 42% desde 2016, enquanto o uso digital dobrou no mesmo período e já responde por 86% das transações.

“Essa tendência não apenas continua como se acentuou fortemente durante a pandemia, antecipando em mais de um ano nossas projeções de uso dos canais digitais”, afirma o banco em comunicado.

Para o vice-presidente da Moody’s, Alexandre Albuquerque, o anúncio do plano de reestruturação do BB é positivo para a rentabilidade do banco, uma vez que a queda nas receitas e os custos elevados de crédito na esteira da pandemia de coronavírus podem continuar pressionando os resultados.

“O foco no gerenciamento de despesas, incluindo a diminuição do número de agências, deve gerar redução de custos de R$ 353 milhões em 2021 -e de R$ 2,7 bilhões no agregado até 2025”, disse Albuquerque em nota.

Desde abril do ano passado, o aplicativo do banco ganhou mais 4,7 milhões de usuários, chegando a 19,4 milhões, com uma média diária de crescimento 273% maior do que antes da pandemia. O contato via WhatsApp também registrou crescimento expressivo, chegando a quase 600 mil atendimentos por dia.

As medidas anunciadas nesta segunda envolverão, ao todo, 870 unidades pelo país. Além do encerramento de atividades de parte delas, outras 243 agências terão suas funções reduzidas ao serem transformadas em postos de atendimentos (que não têm gerente).

O banco também vai transformar 145 unidades de negócios em lojas. Elas possuem terminais, mas não guichês de caixa.

Também serão criadas 28 unidades de negócios especializadas (sendo 14 agências voltadas a agronegócio e 14 escritórios para clientes que dão prioridade a serviços de forma digital), com aproveitamento de espaços já existentes.

Segundo João Fukunaga, coordenador da CEBB (Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil) e dirigente sindical do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e região, apesar de a sinalização do BB ser a de uma aposta maior na digitalização dos sistemas, é preciso cautela nessa migração.

“O banco está forçando um atendimento digital. Mas existe uma quantidade significativa de pessoas, principalmente de 60 anos ou mais, que procura atendimento nas agências físicas. Além disso, muito da digitalização está acontecendo por conta da pandemia. Acho prematuro um movimento desses esperando que todo esse fluxo continue nos canais alternativos mesmo depois do isolamento social”, afirmou.

De acordo com o Banco do Brasil, as mudanças nas agências acontecerão a partir de 22 de fevereiro e serão comunicadas aos clientes por SMS, aplicativo de celular, site na internet, terminais de autoatendimento, além de correspondências, e-mail e cartazes nas agências.

A mudança de agência é automática. Os clientes não precisam fazer nenhum procedimento e podem manter seus cartões e senhas para transações, mesmo que haja alteração no número da conta.

Foram aprovadas pelo banco ainda duas modalidades de desligamento incentivado voluntário aos funcionários. O Programa de Adequação de Quadros, para redistribuir força de trabalho, e o PDE (Programa de Desligamento Extraordinário), disponível a todos os funcionários do BB que atenderem aos pré-requisitos.

A estimativa do BB é que cerca de 5.000 funcionários façam adesão aos dois programas. O número final de desligamentos, assim como o impacto financeiro, serão informados ao mercado após o encerramento do prazo (em 5 de fevereiro).

Quem aderir ao PDE do Banco do Brasil terá direito às verbas rescisórias (garantidas por lei) e a um incentivo calculado em cima do salário base, podendo chegar a até cerca de R$ 450 mil.

Segundo Fukunaga, funcionários ainda estão preocupados com um possível rebaixamento de cargos. “Quando o banco encerra 361 unidades, são 361 gerentes gerais que também ficam sem postos e precisarão ser realocados caso não entrem nos programas do banco. Isso significa que esse funcionário corre o risco de ser realocado para um cargo inicial ou menor do que o seu”, disse.

Uma fonte a par do assunto que preferiu não se identificar afirmou que um gerente geral do Banco do Brasil pode ganhar até R$ 20 mil, dependendo do tempo de casa e de outros fatores. Um cargo inicial dentro do banco, no entanto, tem salário de R$ 6 mil.

O enxugamento de agências continua um movimento observado desde o governo do então presidente Michel Temer (de 2016 a 2018).

Em 2017, houve uma reformulação significativa para eliminar 781 agências (14% do total da época), sendo que 379 seriam convertidas em postos de atendimentos e 402 unidades seriam encerradas, somando-se a outras 51 agências que tinham começado a ser fechadas em outubro de 2016.

Do fim de 2016 até o fim de 2019, foram eliminadas 1.390 agências tradicionais (uma redução de 27%). No mesmo período, o banco desligou 7.432 funcionários (cerca de 7% do total inicial).

Para Albuquerque, da Moody’s, os programas de desligamento voluntário do BB podem trazer uma queda adicional de custos para o banco.

“A reestruturação também permite que o banco adapte as agências bancárias às novas demandas dos clientes, enquanto os ganhos com redução de custos podem ser investidos em novas tecnologias e em melhorias que o Banco do Brasil precisa promover para se manter competitivo”, disse.

As demissões no setor bancário aumentaram durante a pandemia e aconteceram mesmo diante do lucro bilionário dessas instituições. Antes do Banco do Brasil, os outros quatro maiores bancos do país (Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú e Santander) já haviam promovido desligamentos ao longo de 2020.

Um levantamento feito pelo Dieese aponta que nos primeiros dez meses do ano passado, o segmento contava com um saldo negativo de 8.086 vagas, sendo 13,7 mil contratados contra 21,8 mil desligados no período.

Ainda de acordo com o Dieese, o mês com o pior saldo em 2020 foi outubro, que contabilizou mais de 6,8 mil demissões contra 1,3 mil novos contratos. O saldo negativo indicou que 5,6 mil postos de trabalho foram fechados no período.

Especialistas já haviam analisado que a maior digitalização no setor bancário seria o maior motor para o enxugamento das estruturas. Outro fator seria o menor juros básicos no país, em 2% ao ano, que também influencia por exigir um maior corte de custos no segmento.

Perto das 15h53 as ações do Banco do Brasil na Bolsa de Valores brasileira estavam caindo 1,28%, cotada em R$ 39,28.

RAIO-X DO BANCO DO BRASIL NO 3º TRIMESTRE DE 2020

Lucro líquido

R$ 3,5 bilhões (ajustado, não considera itens extraordinários)

Carteira de crédito

R$ 730,9 bilhões

Margem financeira

R$ 8,5 bilhões

Funcionários

92.106

Principais concorrentes

Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú Unibanco e Santander.

Fonte: Folhapress

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