A confirmação dos jogos da Copa do Mundo no Brasil mostrou uma grande cratera de necessidades que todos sabiam que existiam mas cujas soluções eram procrastinadas ad infinitum.
O comentário de uma alta autoridade sobre o tratamento dispensado ao turista no porto privatizado de Manaus mostra a ponta do iceberg do despreparo da nossa mão-de-obra direcionada ao setor. Conta o secretário que um turista queria tirar fotos dão painel que mostra o nível das águas do rio Negro com as marcas atingidas em cada ano. Um funcionário o informou de que aquela área é restrita a passageiros que embarcam em algum barco que sai daquele local. O turista estrangeiro, obediente às regras, comprou uma passagem, entrou no local e pôs-se a tirar fotos. O tal funcionário, desconfiado da manobra do turista, novamente impediu-o de tirar fotos alegando que a passagem fora comprada sem a intenção de viajar e sim apenas para ter acesso ao local. O incidente se tornou público e a situação ridícula chegou ao conhecimento de todos, tanto que foi “denunciada” pelo próprio secretário de planejamento.
Não pude deixar de comparar com um fato que aconteceu na capital federal em 2008 durante os jogos olímpicos. Estávamos a trabalho e, por essa razão, não pudemos assistir a final dos jogos de futebol entre o Brasil e Estados Unidos. Depois do trabalho, nos dirigimos à melhor churrascaria de Brasília, local onde se pode topar com deputados, senadores, ministros e, eventualmente, até com o presidente da República. Ao perguntar ao maitre sobre o resultado do jogo, esse saiu assim: “Perdemos de um a zero, mas foi a maior ‘desinjustiça’ que já se viu…” e enquanto o garçom cortava carnes ele continuou a detalhar as ‘desinjustiças’ e a cortar partes vitais do vernáculo.
Ora, se o maitre de um restaurante caríssimo, na capital federal, embora sendo brasileiro não sabe se expressar na própria língua, absurdos como o do porto de Manaus são totalmente compreensíveis. Não que seja justificável, nem tolerável. Se o nível do maitre é esse, o que dizer dos garçons? Isso mostra que o caminho a percorrer é longo. Aliás, no meio da trajetória podemos descobrir que o tal “caminho” está sem condições de tráfego em muitas partes.
O Estado, como um todo, está disponibilizando inúmeros cursos para treinar atendentes de turistas em todo o país. Contudo, embora louvável, a iniciativa não é o que vai resolver o problema de quem não teve tempo suficiente de banco escolar na infância. Corre o risco de também não atingir o micro empresário que teve origem semelhante ao maitre do restaurante. Treinamentos podem resolver problemas pontuais, mas jamais substituirão a formação que não houve no início da vida.
O turismo, que abrange mais de sessenta atividades, é um termômetro para se conhecer a cultura de um destino receptivo. Não adianta dar cursos apenas aos guias de turismo. Os “guias” informais, na figura do taxista, do garçom, da cabeleireira, do motorista de ônibus, do policial e até do gari também precisam aprender um pouco mais sobre a importância desta indústria sem chaminé.
Se quisermos, podemos utilizar o evento Copa do Mundo para fazer mudanças profundas e permanentes no nosso comportamento.

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