Manaus tem a mola da indústria sem chaminé

Fundada em meio a transformações no Brasil, Manaus recebia o título de cidade em 24 de outubro de 1848. Não passava de um pequeno aglomerado urbano, com cerca de três mil habitantes, 16 ruas, uma praça, e quase 250 casas. Manaus foi a capital que mais vivenciou o glamour do primeiro mundo, a riqueza, o ouro e a sofisticação importada da Europa. Os encantos de suas águas negras e seus afluentes piscosos, fauna e florestas ricas e belas ornaram de diversidade e até hoje levam encantamento ao mundo inteiro.

Nesses 351 anos de Manaus, a mola mestre do turismo se sobressai como a maior potência da indústria sem chaminé e começa a vivenciar uma realidade promissora, realinhando seu foco para as comunidades tradicionais que estão revolucionando o setor e servindo de modelo mundial.  Um exemplo desse florescimento foi o último relatório de Desenvolvimento Comunitário Inclusivo por Meio do Turismo, desenvolvido pela OMT (Organização Mundial do Turismo), em parceria com o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), a pedido do G20, que segundo o secretário-geral da OMT, Zurab Polikashvili, avalizou que “O turismo ajuda as comunidades a manter seus patrimônios natural e cultural, apoiando a conservação, salvaguardando espécies ameaçadas, tradições perdidas ou sabores”. 

Eis o estopim para o Turismo de Base Comunitária se agigantar nas Unidades de Conservação que circundam Manaus, com inúmeros exemplares dessa modalidade turística.

A Pousada Uacari, no município de Tefé, é ideia de pesquisadores do Instituto Mamirauá em parceria com algumas comunidades da RDS Mamirauá. Foi reconhecida internacionalmente por aliar a conservação do meio ambiente ao desenvolvimento social e econômico da região, por meio do TBC. Somente essa pousada pontuou em todos os quatro tópicos analisados, como: empoderamento de pessoas, salvaguarda do planeta, prosperidade e colaboração entre pessoas.

Esse reconhecimento levou o Ministério do Turismo a incentivar este segmento ascendente no entorno de Manaus. “A inclusão como estudo de caso da Pousada Uacari, é, para nós, motivo de orgulho por apresentar um modelo de gestão participativa de ecoturismo”, ressaltou o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio. 

Pedro Meloni Assar – Biólogo e mestre em Gestão de Áreas Protegidas. Trabalhou como guia de turismo no Pantanal e, desde 2008, vive na Amazônia, atuando na conservação, gestão e TBC (Turismo de Base Comunitária). É coordenador do Programa de TBC do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

O TBC precisa ser encarado como uma ferramenta importante para o desenvolvimento social e econômico das comunidades ribeirinhas do Amazonas. É importante frisar, “O Instituto Mamirauá, não vê o TBC como uma solução, mas uma atividade que se complemente com outra, especialmente as tradicionalmente executadas pelas comunidades” enfatiza Meloni.  

O turismo não deve excluir e acabar com os costumes locais, por isso um dos elementos do TBC é resgatar a cultura de alguns povos e mostrar como funciona aos visitantes. As externalidades que afetam esse produto parece ser especialmente frágil nesse aspecto. Vide a pandemia que afetou brutalmente o setor no mundo todo. Quando há políticas públicas, incentivo e organização o futuro no TBC será mais viável. 

Vemos alguns grupos se organizando, nacionalmente e no próprio Estado, como o Cluster Amazonas, que inclui várias categorias de empresa; o Coletivo MUDA, que é nacional e fomenta o turismo responsável; o Fórum de TBC do Amazonas que tem discutido políticas públicas e busca dar visibilidade ao segmento. Caminhos positivos existem, mas é preciso fazer acontecer.

Para as comunidades exibirem no mercado mundial seus produtos falta divulgação e comunicação. Alguns gargalos impedem o turismo ascender. Por exemplo, em várias localidades sequer tem sinal de telefonia ou internet. O combustível é caro para se chegar a essas localidades no entorno de Manaus, além de distantes, dependem somente das vias fluviais. As boas parcerias são alternativas para fechar essas lacunas.

Por outro lado a ausência de políticas públicas no setor é uma realidade. Grande parte das comunidades se organiza por meio de uma associação. Mas associação não é uma pessoa jurídica e não é aceita no Cadastur. Portanto, a solução é buscar uma saída que ajude a entidade a se enquadrar ou obrigar centenas de associações a mudarem a sua pessoa jurídica, mesmo considerando todas as dificuldades envolvidas.

Denise Kassama – Economista, consultora, professora universitária, vice-presidente do Conselho Federal de Economia.

Manaus, nestes 351 anos tem se mostrado guerreira e resiliente a cada crise que enfrentou. O ano de 2020 tem sido desafiador, mas temos certeza que com criatividade iremos nos reinventar e superar. 

O setor de serviços foi um dos que mais pereceram nesta pandemia. Além de ser os últimos a retornarem as atividades e ainda são muito sensíveis  à situação econômica das famílias.

Ainda vivemos um momento de preocupação econômica. Muitos perderam o emprego, ou tiveram os salários reduzidos, além dos que estão recebendo o auxílio emergencial. Então, seja por redução financeira ou por prudência, o consumo de serviços ainda está longe da sua normalidade, as famílias optam por consumir apenas o prioritário. Embora o setor de serviços, segundo dados do IBGE, apresentou um crescimento de 2,1% em agosto em relação a julho, ainda está 1,8% inferior ao registrado em agosto/2019.

A tendência é de fato crescer. Não tenho dúvidas que o setor de serviços voltará a crescer. A grande incógnita é o ritmo que se dará. A questão da pandemia é o grande impactante neste processo. O Amazonas tem apresentado números muito variantes nos casos de coronavírus, e boa parte da população ainda evita sair de casa, contribuindo para a retração no consumo.

As empresas de serviço que primeiro enxergaram a questão do distanciamento e isolamento social provocado pela pandemia e se remodelaram, foram as que mais rápido se recuperaram das perdas. Foi o caso de restaurantes, lanchonetes e similares, que enxergaram no serviço de entregas (outro que cresceu exponencialmente nesse período) uma saída.

Então, entendo que a palavra chave é “Inovação”. O setor de serviço precisa se reinventar em função da pandemia para que o ritmo de retomada econômica seja mais acelerado. A recuperação do setor de serviços é fundamental para a recuperação da economia em si, pois é um grande empregador de mão de obra, gerador de renda e adensador de cadeias produtivas.

Roberto TavaresPresidente da Abav-AM (Associação Brasileira das Agências de Viagens); (Na foto com os Conselheiros,Maria Helena Fonseca e Paulo Tadros).

Há muitas propostas para impulsionar o Setor de Turismo em Manaus, dentre elas, podemos vislumbrar como principal, o reequilíbrio financeiro e da atividade econômica do segmento, fortemente impactado pela pandemia.

O Turismo Emissivo, experimenta uma recuperação nas vendas, com foco nos destinos nacionais e alguns poucos internacionais, em particular os que estão com suas fronteiras abertas para brasileiros.

A exemplo da reabertura dos destinos nacionais com protocolos de biossegurança. Os destinos internacionais de grande densidade turística deverão ter grande procura, apesar da desvalorização do Real frente ao Dólar e as demais moedas estrangeiras.

Quanto ao Turismo Receptivo, vislumbramos  um cenário favorável, pelo interesse do turista nacional em conhecer a Amazônia, em particular Manaus, a partir de dezembro e,  pelo  compromisso com protocolos de biossegurança adotados por nossos Associados.

A pandemonia das informações divulgadas na mídia de forma cruel e irresponsável, sobre a pandemia em nossa cidade, foram impactantes no segmento, mas estão sendo combatidas de forma eficaz pelas Entidades do Trade, a fim de recuperar não somente a confiança do próprio empresariado, como também o Turismo contemplativo e de vivência comunitária ao ar livre.

Muito importante também, tem sido a divulgação do destino Amazonas, pelo Órgão Oficial de Turismo, que apesar de sua limitação orçamentária, tem buscado articular com todos os entes, o apoio necessário, para atender a demanda das Entidades, bem como o do turista nacional.

Susy Rodrigues Simonetti Doutora em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, Bacharel em Turismo, membro do Fórum de Turismo de Base Comunitária do Rio Negro (AM). Professora adjunta do Curso de Bacharelado em Turismo e do Mestrado Interdisciplinar em Ciências Humanas – PPGICH, ambos da UEA e do Mestrado Profissional em Gestão de Áreas Protegidas -INPA. 

O turismo exige que mudemos de comportamento, seja visitante, visitado ou empresas do segmento. Diante do cenário que nos encontramos, a mudança deve ser, especialmente para os empreendimentos de turismo, passarmos da competição para a colaboração mútua, com foco na sustentabilidade. 

Além disso, os empreendimentos precisarão ser muito transparentes quanto às medidas relacionadas à higiene, limpeza e procedimentos de biossegurança, isto deve garantir que a experiência para os visitantes seja segura e única. 

O turismo, como uma ferramenta importante para o desenvolvimento socioeconômico do Estado, deve ainda atender a uma demanda de viajantes que procuram experiências menos padronizadas, com mais imersão cultural e que se preocupam com responsabilidade social e ambiental. Espera-se que a tendência se configure, ou seja, o turismo regional, local, de proximidade, em contato com o ambiente natural, o que é uma vocação do Amazonas, deve garantir que sigamos recebendo visitantes domésticos e, posteriormente, internacionais.

Fábio Coutinho de Faria CunhaPresidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes do Amazonas); Fundador do Pupunha Rock Café em 2000 e proprietário de Pizzaria Ghiotto.

O turismo local está em ascensão pela notoriedade que a Amazônia apresenta no cenário mundial. Tenho visto uma boa vontade do governo federal em fomentar esse turismo aqui no Estado, com reflexos positivos para a cidade de Manaus. O que vai fazer toda a diferença será a gestão do governo através das ferramentas eficazes para incentivar o desenvolvimento do setor de serviços. 

Para a mudança desse quadro em que se encontra o setor de comidas e bebidas, devido a pandemia, o Governo terá que se munir de muita coragem, mais do que o setor privado tem e, apostar no incentivo de novos empreendimentos e eventos de turismo. Sugerimos o fomento no setor através da desburocratização e redução de impostos do turismo.

Paulo Queiroz – Escritor, poeta, compositor, editor, antropólogo e professor universitário. Amazonense de Tefé, graduado em Letras: Língua Portuguesa e Literatura e Direito, pós-graduado pela Esmam (Escola Superior da Magistratura do Estado do Amazonas) e pela Ebradi (Escola Brasileira e Direito)I, com estudos importantes em Antropologia do Direito, Antropologia Cultural e Ciência Política. Mestre em Antropologia do Direito e Doutorando em Antropologia Cultural e Educação.

Nutrimos sempre a esperança de transformações efetivas, democráticas e direcionadas a todos, e não às medidas paliativas que têm alcançado apenas alguns seletos indivíduos que promovem cultura. Vislumbro as utópicas soluções que incluam o setor da Educação, verdadeiramente, na esfera cultural, coisa que jamais foi feita em Manaus. Nunca se deve “dicotomizar” Cultura e Educação, pois são coisas imprescindíveis. O que acontece com uma, atinge a outra inapelavelmente. Cultura é modo de vida, sobrevivência, e muito pouco se tem feito no sentido de consolidar tantos e diversificados trabalhos que existem na nossa terra amazônica. Sou um tanto, ainda, pessimista quanto às mudanças, mas sou um homem utópico, e ninguém vive sem utopia. Eu sempre acredito e espero, porque sou um ser cultural.

A diversificação da oferta de oportunidade, a quebra de “cadeias monopólicas” (mais conhecidas como “panelinhas”), a escolha isenta e austera de dirigentes para a cultura local, o incentivo estrutural, espacial (de espaço público), logístico e ético por parte das governanças, práticas reiteradas de eventos culturais, investimento crucial no setor, como se a importância cultural fosse tão prioritária como é a Saúde e a Segurança; a capacitação cognitiva dos agentes culturais para melhoramento das gestões, a transparência nos investimentos, e o amor e respeito pelos artistas, escritores, poetas, artesãos, músicos, entre outros.

Olinda Marinho – Mestre em Turismo, Hotelaria e Planejamento Estratégico pela Univali; Especialista em Comércio Exterior e Planejamento Estratégico pela UFRJ; Graduada em Administração com Habilitação em Comércio Exterior pela UVA; Diretora presidente da Rede de incubadoras, empreendedorismo e inovação da Amazônia – RAMI; Implantadora e Coordenadora do Núcleo  PEIEX

no Programa de Qualificação às Exportações no Amazonas e Roraima; Coordenadora da Sub Câmara de Empreendedorismo Jovem do Codese Manaus; Conselheira do Programa Nacional de Cultura Exportadora. 

Em fase de adaptações e transformações, por conta da pandemia, o cenário turístico local se redesenha, e os rumos do setor têm novas perspectivas de geração de emprego e renda por meio do empreendedorismo e da inovação de baixo custo. Cabe aos empresários mais ousadia para incentivar e patrocinar cada vez mais a fatia do turismo sustentável. Produzir e monetizar o Novo Turismo do século 21 é um grande desafio mundial. Mudou-se a forma de viver, a sociedade está se arquitetando dentro de novos desejos e necessidades mais ligadas ao Ser do que Ter. 

Precisamos nos apoderar da biodiversidade e da diversidade cultural como estratégia de

futuro. Sem isso, fica difícil trilharmos o caminho da sustentabilidade, seja no turismo ou nos

bionegócios. A juventude precisa compreender através da educação de qualidade que,

ser sustentável significa pensar coletivamente e pensar em toda a cadeia produtiva do turismo onde meio ambiente, sociedade e desenvolvimento façam parte de políticas públicas. 

Nosso patrimônio natural são os ativos da sociedade, abandonados à sorte e, nossos recursos hídricos e florestas nunca são colocados no planejamento público das cidades como essenciais ao desenvolvimento.

A sazonalidade e as mudanças da geografia local é um dos maiores atrativos, com cenário mutável que pode ser praticado quatro vezes ao ano, com todo o encanto a ser vivenciado. Onde antes era areia vira igapó, depois vira um rio imenso, pode-se navegar em canoas e barcos com piloteiros nativos nessas mudanças que fazem o turista se encantar com árvores submersas, flores coloridas que flutuam e enfeitam os rios, nadar no rio Negro, degustar a gastronomia típica com sabor de aventura, por exemplo de quem pescou seu próprio peixe. Sem contar os milhares de quilômetros de rios e praias aliados ao lendário significado do imaginário mundial sobre Amazônia, ligando a imagem do amazonense a um ser guerreiro que vive cercado de florestas, rios, praias, sol, diversão e aventuras, mas recebe poucos projetos inovadores.

Billy Davis Botelho Queiroz – Guia de Turismo credenciado pelo MTur em inglês e espanhol, é vice- presidente do Sindegtur (Sindicato Estadual dos Guias de Turismo do Amazonas). 

“Guia-me Manaus pelas tuas ruas, pelos teus becos, pelos teus bairros, pelos teus morros até o teu coração. O Guia de Turismo é quem recebe, orienta, acompanha e transmite informações aos visitantes brasileiros e estrangeiros”, declara o vice-presidente da entidade, Billy Davis, que idealiza uma equipe forte e unida através da filiação espontânea dos Guias de Turismo no Estado do Amazonas. Só assim poderemos, como entidade defensora da classe, lutar, reivindicar pelos direitos e serviços de padrão e excelência, afirmou.

O Sindegtur Amazonas ambiciona implantar uma fiscalização sistemática nos portos e em todos os pontos turísticos de Manaus para unificar a prestação de serviço especializada. A classe anseia que os Guias cadastrados sejam remunerados com justiça por parte do empresariado manauara, bem como tenha apoio do governo local para capacitação e treinamento em cursos de idiomas, botânica, arqueologia, geologia, museológica entre outros.

Manaus dá exemplo para o Sindegtur do país, pois conquistou um patamar de elementar  da riqueza cultural, social através da inclusão em sua diretoria de dois profissionais indígenas, Ananias Santos, da etnia Apurinã, como presidente, e Maria do Socorro Barroso Ribeiro da etnia Paumari, como presidente interina. 

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