Vista de longe, a cúpula do Teatro Amazonas destaca-se no Centro de Manaus como símbolo de um passado glorioso. Há muitos anos, o francês e o inglês eram idiomas correntes nas ruas da capital amazonense, na boca de homens de negócios que portavam nos bolsos notas de libras esterlinas. Senhoras esbanjavam elegância com roupas finas encomendadas a costureiros da Europa. Pairava no ar o espírito da modernidade, do crescimento econômico e da renascença cultural. Manaus, na época, era talvez a única cidade brasileira a incorporar o espírito da belle époque, relatam os estudiosos da história do Amazonas. Como a ideia era imitar o que acontecia nos grandes centros urbanos europeus, a belle époque amazonense despontou como “profundas transformações culturais que se traduziram em novos modos de pensar e viver o cotidiano”. 

Estou sentado no Largo de São Sebastião, ao lado da aconchegante Igreja em homenagem ao Santo, em frente ao belo Teatro de paredes rosadas, tomando sorvete para amenizar o calor. Casais apaixonados beijam-se, despreocupados, crianças brincam enquanto os pais as supervisionam, pessoas circulam animadas pela atmosfera contagiante da noite. Desde que morei em Manaus, anos atrás, gosto de vir para cá e observar o movimento, sentado em um dos barzinhos em torno do Largo. Já assisti a inúmeros concertos, espetáculos de dança, de ópera, shows de jazz, de MPB, nesse Teatro. Espremi-me na multidão para contemplar o prédio iluminado na noite de Natal. Não importa quanto tempo eu fique longe da cidade, sempre que volto corro a esta praça que povoa minha mente de lembranças da história local.

A riqueza que fez de Manaus uma cidade cosmopolita e levou à construção do Teatro foi gerada por uma árvore da floresta, a seringueira. No fim do século 19, a borracha, flexível e à prova d’água, causou furor em um mundo em plena expansão industrial, mas acostumado a lidar apenas com madeira e carvão. O látex, suco que emana da seringueira e é a matriz da borracha, respondia, em 1910, por um quarto de todas as exportações brasileiras, e saía da Amazônia em barcos a vapor direto para a Europa e os Estados Unidos, onde fábricas da Goodyear produziam desde espartilhos, a outros itens para consumo doméstico e industrial. 

A alta sociedade manauense apreciava a dramaturgia estrangeira, mas reclamava de seus palcos acanhados. O projeto do grande Teatro ganhou corpo em 1893, com o Governador Eduardo Ribeiro. “Ele queria usar a beleza para transformar a cidade”, diz Otoni Mesquita, professor da Universidade Federal do Amazonas. “E, naquele momento, aspirar [sic] melhores condições de vida implicava em [sic] reproduzir o modelo europeu.”

No porto do Rio Negro, a cidade viu desembarcar materiais de alta qualidade, arquitetos, construtores, pintores e escultores renomados vindos do Velho Mundo. Espelhos foram importados de Veneza; lajedos e escadarias de pedra, de Lisboa; a cúpula, nas cores verde, amarelo e azul, possui 36 mil peças de escamas de cerâmica esmaltada e telhas vitrificadas da França. 

No começo de 1897, uma semana depois da inauguração do Teatro, via-se no palco a ópera La Gioconda, de Ponchielli, apresentada pela Companhia Lírica Italiana. O Guarani, Fausto, Carmen e La Traviata foram outras famosas óperas assistidas no coração da selva. Doenças tropicais não impediam a vinda dos artistas, animados pelos ótimos cachês. Segundo o historiador Mário Ypiranga Monteiro, em 1900, pelo menos seis deles morreram de febre amarela por não cuidar da saúde e se entregar a “excessos boêmios”.

O Teatro era um espaço social tão importante que mantinha o próprio jornal, “A Platéa”. Em 4 de maio de 1907, os textos mostravam indignação com o fato de que poucos cavalheiros sabiam vestir o smoking, corretamente. A mesma edição revela que o chapéu das mulheres era uma questão polêmica. Por menor que fosse o chapéu, atrapalhava a vista de quem se sentava na poltrona de trás.

Entre outras regalias, as elites locais mandavam lavar roupa em Portugal, os filhos estudar na França e passar férias em Nova York. Essa vida fácil iludiu os senhores da borracha. Para eles, a seringueira, ao contrário do ouro, uma riqueza finita, era uma planta que crescia em ritmo de fartura eterna. Mas tanto esplendor começou a ruir diante da ambição de um jovem inglês, Henry Wickham, que convenceu o comandante de um navio a contrabandear 70 mil sementes de seringueira, a pedido do diretor do Jardim Botânico de Londres. Da Inglaterra, elas seguiram para a Malásia, onde milhares de árvores, dispostas em plantações sistemáticas, resultaram em produção intensa e regular – uma ideia simples e eficiente ignorada pelos barões de Manaus, acomodados na exploração extrativista.

Em 1914, o preço da borracha despencou no mercado internacional. Dois anos depois, muitas firmas foram à falência em Manaus. E assim acabou o sonho de riqueza de quem acendia charutos com notas de 1 000 réis. A cidade entrou em colapso, como descrevem os historiadores da época. Numa manhã calorenta, apareceram os efeitos da falência. Foi a debandada geral. Dramas como suicídios foram registrados, navios lotados de arrivistas partiram do cais do porto em fuga, levando, também, famílias inteiras de mudança, deixando os palacetes abandonados. 

Da belle époque, restaram resquícios como escombros de casarões, antes, imponentes, hoje, malcuidados. Ficaram, também, as lembranças do fausto, passadas de pais para filhos, deixando a nostalgia em seu lugar. Era o fim de uma época, o fim do ciclo econômico da borracha que dominou a vida dos manauenses por alguns anos. Seguiu-se o período das “vacas magras”, na qual Manaus mergulhou durante longo tempo. Até que se deu início a um novo ciclo econômico, o Ciclo da Zona Franca de Manaus, que sofreu transformações ao longo dos anos, mas que continua, até hoje, seguindo um modelo de desenvolvimento diferente, mas produtivo.   

Marluce Portugaels é professora – [email protected]

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