Desde que comprou a Acesso Bank, em maio deste ano, a Méliuz deu um sinal claro ao mercado que iria se jogar de “corpo e alma” nos serviços financeiros, uma nova avenida de crescimento para a companhia que sempre foi identificada por cashback e cupons de descontos.

A Méliuz, agora, marcou a data para estrear seu “banco digital”: janeiro de 2022. Nesse mês, a companhia lançará um aplicativo que vai integrar os serviços de shopping e os financeiros, tornando-se mais um competidor em um segmento congestionado de players que querem roubar uma fatia dos bancos incumbentes.

“Vamos ter uma série de produtos financeiros novos a partir de janeiro e isso inclui uma conta digital completa que não deixa nada a desejar”, afirma Israel Salmen, cofundador e CEO da Méliuz, em entrevista ao NeoFeed. “O aplicativo terá todo o ferramental para o usuário ter uma vida financeira dentro da Méliuz”.

Os serviços financeiros a que se refere Salmen são de uma conta digital completa, que permitirá cartão de débito e crédito, pagamento de salários, emissão de boletos, Pix até crédito, seguros e investimentos. A oferta envolverá parceiros, mas a Méliuz terá também produtos próprios.

“As pessoas me perguntam sobre o open banking e eu acho que temos de ser ‘open mind’ (cabeça aberta)”, afirma Salmen. “Em novos mercados, gosto de ter parceiros viabilizando essas propostas. Mas entendo que temos capacidade interna de ter alguma oferta própria”.

Em julho, no road show do follow on, na qual captou R$ 1,16 bilhão (dos quais R$ 427 milhões foram para o caixa da empresa), Salmen vendeu a tese de que os serviços financeiros são complementares aos de shoppings. O diferencial da Méliuz, na visão do empreendedor, é o fato de ter 16 milhões de usuários, sendo sete milhões deles ativos.

“Os serviços financeiros estão diretamente ligados à capacidade de gerar vendas aos lojistas no mundo físico e online. Uma coisa anda de mão dada com a outra”, afirma Salmen. “Se me perguntassem se eu faria um neobank sem tudo o que construí nos últimos 10 anos, acho muito difícil. É uma guerra que não entraria”.

Questionado se passará a concorrer com Nubank, Banco Inter e Neon, além dos bancos tradicionais, Salmen diz que o brasileiro é carente de bons serviços financeiros e que esse é um “momento incrível para ser um player relevante no setor”, porque a relação do cliente com os bancos está mudando.

A Acesso Bank, que foi comprada por R$ 324 milhões, em uma transação de troca de ações, será fundamental nessa oferta digital. O negócio ainda precisa ser aprovado pelo BC (Banco Central), mas a Méliuz  já está trabalhando em sua conta digital como um cliente da empresa, que fornece o serviço para terceiros através da sua unidade chamada de Bankly.

Quando o negócio for aprovado, a Méliuz passará a ter algumas licenças importantes, como a de uma instituição de pagamentos, a de uma conta de liquidação e a que permite emitir cartões pré-pagos e de crédito. A Acesso Bank também está requerendo autorização para se tornar uma Sociedade de Crédito Direto, o que deve acontecer até o fim deste ano. Com isso, poderá conceder empréstimos.

Desde que foi fundada, em 2011, a Méliuz focou na área de cashback e cupons de descontos, estabelecendo relação com centenas de varejistas, como Magazine Luiza, Americanas.com, Submarino, Netshoes e muitas outras. Na prática, a companhia é um canal de vendas que leva tráfego a sites de diversos e-commerces. Na conversão da venda, ele ganha uma comissão – parte do dinheiro fica com o cliente em uma conta da Méliuz.

Esse recurso, no entanto, ficava parado na Méliuz ou era transferido para uma conta bancária de alguma instituição financeira. Agora, a Méliuz quer que o dinheiro fique em sua própria conta digital. A migração, quando o banco digital entrar no ar, não será compulsória, mas bastará um aceite dos termos de serviço para que isso aconteça.

O que a Méliuz vislumbra, no entanto, não se restringe a oferecer uma conta digital e serviços de pagamentos. Como a companhia é o que Salmen chama de “boca de funil” para os sites de e-commerce, a ideia é aproveitar esse consumidor no momento que está fazendo uma transação para fornecer outros produtos financeiros, como crédito e seguros.

“A Méliuz tem uma grande plataforma de fidelização e está tentando monetizar e gerar valor a partir dessa base de clientes”, afirma Alberto Serrentino, sócio da consultoria especializada em varejo Varese Retail. “Essa é a nova era em que a concorrência se dá por clientes, frequência, dados, recorrência e pela capacidade de transformar isso em valor e novas linhas de negócios”.

De acordo com Serrentino, essa é uma estratégia semelhante à que o Dotz, que abriu o capital em maio e captou R$ 390,7 milhões, está também tentando fazer. Outro exemplo é o Mercado Livre que, a partir de seu marketplace, criou o Mercado Pago. E, com sinal invertido, o Banco Inter, que saiu de serviços financeiros para marketplaces. “A partir dessas plataformas que congregam grandes bases de clientes e de dados, eles criam microssistemas para diversificação de receitas”, afirma o consultor.

Em relatório do Bradesco BBI, os analistas Otávio Tanganelli e Lucca Brendim escreveram que a companhia, após o follow on, abriu caminho para a oferta de mais serviços financeiros, passando de uma plataforma de cashback para um ecossistema robusto. Eles revisaram o preço-alvo de R$ 42 para R$ 90 (em 2022) –as ações fecharam cotadas a R$ 67,60 na terça-feira, 27 de julho. A Méliuz vale R$ 9 bilhões.

O dinheiro captado nesse follow on vai ajudar nessa estratégia. Desde o IPO, em novembro do ano passado, a Méliuz fez quatro aquisições. Além da Acesso Bank, a empresa pagou, em fevereiro deste ano, R$ 120 milhões por 51% da empresa polonesa Picodi, uma plataforma internacional de cupons de descontos e códigos promocionais presentes em 44 países. O negócio marcou a estreia da companhia no mercado internacional.

Em maio, comprou a Promobit, uma comunidade online com 1 milhão de pessoas que compartilham cupons de descontos. O valor pago foi de R$ 13 milhões. No mesmo mês, adquiriu o  comparador de preços de serviços Melhor Plano, por R$ 10 milhões.

A agenda de M&A seguirá intensa. “Existe uma agenda forte de aquisições para serviços financeiros”, afirma Salmen. “Mas sem menosprezar a parte de shopping.” A Méliuz, segundo ele, conversa com dezenas de empresas no momento.

Foto/Destaque: Divulgação

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