Pelo filho Raimundo Filho

Comemorar o Dia das Mães é sempre uma alegria, principalmente quando a vida nos presenteia com a ventura imensa de ainda termos nossa mãe pertinho, cujo colo aconchegante nos revigora a existência.  As coisas estão difíceis? Basta ir ver a Mamãe e tudo começa a parecer mais fácil. Justamente por ainda contar com esse privilégio é que dedico este texto a minha linda mamãe, assim como a todas as mães do mundo, sejam elas adolescentes ou nonagenárias, porque mãe é tudo igual, só muda o endereço, diz a sabedoria popular. Ao escrever este texto, buscamos na memória, dentre os muitos episódios do dia-a-dia de uma família, alguns dos que marcaram nosso convívio com mamãe, enquanto a memória ainda nos permite lembrá-los.

Mamãe nasceu no município de Eirunepé, no Rio Juruá, nos primórdios do século vinte. Teve uma existência feliz de mocinha do interior. Apesar de muito inteligente, destacando-se como excelente aluna no Curso Primário do Grupo Escolar do seu lugarejo, mamãe não conseguiu ir adiante em seus estudos por deficiência do próprio sistema escolar que não oferecia oportunidade de continuação de estudos aos jovens.  Ainda muito nova, portanto, e sem opções de estudo, mamãe se apaixonou e contraiu núpcias, gerando nove filhos. Com prole tão numerosa, renunciou à realização profissional para se dedicar, exclusivamente, à lide familiar. Sua incondicional dedicação à família incutiu nos filhos o reconhecimento da importância de um lar organizado na formação do caráter de seus descendentes. Mais uma vez, teço louvores à  mãe que recebi do Criador, que com sua constante presença nos passou confiança, segurança para enfrentarmos a luta por um lugar ao sol, quando chegou nossa vez de competir no mundo acadêmico e no profissional. Hoje, tenho certeza da importância do exemplo de vida que nos foi passado por nossa mãe, base para nosso sucesso na escola e no trabalho.

Minhas recordações do convívio familiar são sempre associadas à forte presença de mamãe como mulher guerreira, que, além de mãe, substituía a figura paterna durante as longas viagens de nosso pai, por força do exercício da profissão de rádio-telegrafista embarcado. Inúmeras vezes, ela foi obrigada a intervir nos pequenos litígios em que os filhos, de alguma forma, se envolveram, assumindo a postura de magistrado, mas sem lhes negar apoio, compreensão, e, sobretudo, amor. Outro exemplo marcante que nos foi passado por nossa mãe foi o amor em suas diferentes formas. O amor que unia nossos pais nos levou a contrair famílias também amorosas. O amor à vida, o amor ao próximo, o amor ao trabalho, o amor aos estudos, o amor fraterno estavam como que embutidos em nossa rotina, e completamente isentos de qualquer tentativa de negociação.

Pode parecer que, ao reconhecer as virtudes de mamãe, deixe-se entender que as demais mulheres são destituídas dessas competências. No entanto, qualquer comparação com a modernidade de hoje, usufruída pelas mulheres, deixa minha mãe em vantagem, se considerarmos sua época e as condições então existentes. É fato que, com o avançar do tempo, a necessidade de trabalhar fora tem afetado o comportamento da mulher, assim como a estrutura da família e da sociedade como um todo. As mulheres, hoje, não querem e não podem ter muitos filhos, o que fez decrescer a taxa média de natalidade que, em 1990, era de 3 filhos por mulher, sendo, hoje, de 1,8. Para nós, a força e a atitude positiva de nossa mãe, mãe de numerosa prole que ainda arranjava empo para se enfeitar, eram tão admiráveis que nos enchiam de orgulho.

Lembro que, apesar das tarefas domésticas e de suas atividades de modista, nossa mãe sempre cuidou de sua aparência, vestindo-se com elegância e bom gosto, costurando suas próprias roupas, que nada ficavam a dever às peças produzidas pelas grifes famosas. Mamãe, aos olhos de meus irmãos e irmãs, assim como aos meus, era linda, e continua sendo em seus mais de noventa anos de idade.

O bom humor de mamãe sempre foi contagiante, e muito eficaz para enfrentar as adversidades que a vida nos impunha. Com a sonoridade de sua bela voz, cantando os sucessos musicais da época, aprendidos nos programas de rádio, que sempre estava ligado em nossa casa, mamãe colocava em prática o provérbio, “quem canta seus males espanta”,  de Madrinha, nossa maravilhosa contadora de histórias e dama de companhia de mamãe quando, varava a madrugada para terminar as encomendas de costuras de outras damas.

Além da música, mamãe gostava de teatro. Ela conta que, quando jovem, fazia parte do Coro da Igreja de São Francisco de Assis, padroeiro de Eirunepé, regido pelos Padres holandeses e alemães que vinham em missão ao interior do Amazonas.  Por exemplo, mamãe ainda se lembra do Canto Gregoriano do Credo em Latim. Mamãe também participou de peças teatrais encenadas em sua cidade. Também era fã entusiasta do cinema. Sempre acompanhada por um dos filhos, ou de papai quando não estava viajando, ela adorava ir à Sessão das Moças, às sextas-feiras, no cine Avenida, e à Matinê no cine Odeon. O gosto pela música, pelas artes cênicas, pela arte em geral, pela literatura nossa mãe passou a nós, seus filhos, que sempre nos orgulhamos da mãe que temos a ventura de ter.

A literatura certamente influenciou a mentalidade de nossa mãe, que lia tanto os livros da Coleção das Moças, quantos autores como Jorge Amado, Raquel de Queiroz, Érico Veríssimo, Monteiro Lobato, dentre outros. É possível que meus irmãos, minhas irmãs e eu tenhamos aprendido a ler sem nos darmos conta, folheando os livros de mamãe e de papai que tinha um Dicionário de Língua Portuguesa, de capa preta, que muito nos ajudou em nossas tarefas. Naquele tempo, nem todo mundo possuía um dicionário.

Rememorando esses fragmentos de vida de nossa família, confirmo a importância de nossa mãe em minha formação moral e intelectual, bem como na de meus irmãos e irmãs. Meu pai também teve uma grande importância em nossa formação, em nosso amor à leitura. Ler e escrever sempre foram atividades de destaque em nossa família, e nossa mãe, como nossa Musa Inspiradora, abriu as portas desse mundo maravilhoso que é a Leitura.

Neste Dia dedicado às Mães, na pessoa de Minha Mãe, quero homenagear aquela personagem central de uma família que é a Mãe, a Mãe de minha família e a de todas as famílias deste Brasil tão grande.

*Marluce Portugaels, Professora, inspirada no texto original de meu querido irmão, o Professor Raimundo Lopes Filho.

Fonte: Marluce Portugaels

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