Livro mostra comunidade de Mamirauá como bom exemplo de desenvolvimento sustentável

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A comunidade São Raimundo do Jarauá, na RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) Mamirauá, a três horas de voadeira do município de Tefé,a 525 quilômetros de Manaus, tem cerca de 250 moradores e se destaca no Estado por ter uma experiência de sucesso

A comunidade São Raimundo do Jarauá, na RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) Mamirauá, a três horas de voa­deira do município de Tefé, a 516 quilômetros em linha reta de Manaus, tem cerca de 250 moradores e se destaca no Estado por ter uma experiência de sucesso e que serve de exemplo de sustentabilidade: o manejo do pirarucu, que levou os comunitários a, em um período de cinco anos, elevar a pesca de 53 espécimes por ano para 1.300 anuais.
A análise da trajetória dessa comunidade no desenvolvimento do manejo do pescado por conta própria é resgatada pelo jornalista Allan Soljenitsin Rodrigues em seu livro “Comunicação e Meio Ambiente na Amazônia”, a ser lançado até o final do mês pela editora Valer, com fotografias do repórter fotográfico Raimundo Valentim. A obra é resultado de dois anos e meio de pesquisa do profissional para a tese do mestrado em Sociedade e Cultura da Amazônia, oferecido pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas).
O objetivo da pesquisa foi mostrar o papel da comunicação na experiência bem sucedida da comunidade da RDS Mamirauá, significando também um resgate histórico daquela reserva. “Quando assessor do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), acompanhei uma equipe da Rede Globo de Televisão até o local para uma reportagem sobre a despesca do pirarucu e observei a forma como os moradores faziam o manejo do peixe”, contou Allan. “Eles deixavam de pescar seguindo a técnica de contagem da espécie. No final, o erro do cálculo era de apenas três pirarucus. Nesse manejo por conta própria, cada pescador tinha sua cota de pesca, dentro de uma margem de 30% do total. Assim, trocaram a prática secular de acesso ilimitado aos recursos naturais por práticas sustentáveis, e quis analisar o papel da comunicação nesse processo”, explicou.
Na comunidade São Raimundo do Jarauá, há três canais de comunicação – o extensionismo do Instituto Mamirauá e dos próprios moradores, com base em reuniões informativas e esclarecedoras sobre o assunto; um programa de rádio e um jornal, “O Macaqueiro”. Todos utilizavam informações sobre sustentabilidade, algo que não é novo, remontando a tempos históricos, segundo o jornalista. “Ao contrário de outros lugares, por que lá os argumentos foram aceitos?” era o questionamento de Allan Rodrigues. “Percebi que tudo estava de acordo com a Teoria da Recepção, ou seja, o receptor, de acordo com sua experiência, filtra a informação assimilando o que lhe interessa”, disse.
Pela pesquisa de Allan, um projeto de consciência ambiental começou a dar seus primeiros passos na comunidade desde 1950, por um trabalho de organização comunitária do MEB (Movimento Educação de Base), até a chegada, em 1980, do primatólogo José Márcio Ayres, de Belém (PA), para estudar o uacari branco. “Ele percebeu a invasão de pescadores nos lagos da região, com esgotamento das espécies. Então Ayres articulou com o Ibama uma proteção da área por dois anos durante o desenvolvimento da pesquisa, recuperando os estoques pesqueiros, algo que foi percebido pela população local”, disse.
Com o término do trabalho de Ayres, chegava também a termo a proteção do órgão ambiental federal. Diante disso, surge a idéia da estação ecológica, iniciativa que não permite a presença humana na área, apenas sua utilização para contemplação. “No entanto, nenhum morador aceitava sair de Mamirauá. Assim, ao final da década de 1990, foi criada a Reserva de Desenvolvimento Sustentável, surgindo a partir daí o trabalho de extensionismo dos meios de comunicação existentes no local”, informou.
Foi a partir desse resgate histórico que Allan percebeu os fatores que facilitaram a assimilação do discurso da sustentabilidade, por meio do extensionismo que usou o mesmo nível de linguagem e empatia com os moradores. “Primeiro, há o fator do medo da escassez e da fome, que os comunitários passaram com a exploração predatória dos recursos. Depois, a utopia de melhorar de vida, quando perceberam que o manejo gerava renda”, enumerou. “Na visão dos comunitários, no entanto, o sustento vem em primeiro lugar, e depois a preservação. Ou seja, dizer que ‘não pode fazer’ mostrou não dar resultados, e sim ‘como pode fazer’, mostrando as alternativas econômicas para dar dignidade ao caboclo. Mas a idéia de preservação hoje é melhor aceita pelas crianças e adolescentes da região”, observou.

Multiplicadores da experiência

A razão do estudo de Allan Rodrigues dá elementos para replicagem da experiência bem-sucedida dos comunitários da RDS Mamirauá para quem formula políticas públicas. “Hoje muitos desses moradores são palestrantes em outras comunidades”, afirmou.
Com estatuto próprio, a comunidade define todo o seu trabalho, como a venda direta do pescado em associação, sem intermédio de atraves­sadores. No entanto, apesar de em teo­ria ser uma comunidade-modelo, São Raimundo do Jarauá ainda carece de educação e saúde. “Essa pesquisa mostra a função social do jornalismo, que é ‘acender a luz’, e a partir daí gerar mobilizações para se resolver várias questões”, disse o jornalista.
Assessor do Ipaam (Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas), Allan pretende fazer doutorado na área de meio ambiente. Seu primeiro livro foi publicado em 2005, fruto do trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Ufam, sobre o Festival de Parintins.

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