5 de julho de 2022
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Livro ‘Igarapé de Manaus’ conta histórias de uma Manaus bucólica

Quem pesquisa história de Manaus e do Amazonas, com certeza já vasculhou o ‘Blog do Rocha’, do pesquisador dos fatos do passado, José Martins Rocha. Rocha, que já é autor dos livros ‘Mana Manaus’; ‘NY Cosmos x Fast Club, 1980, um jogo histórico em Manaus’; e ‘A vila de Paricatuba’, acaba de lançar ‘O Igarapé de Manaus’, enquanto prepara ‘Bar Caldeira, história & tradição’ e ‘O Zé Mundão de Manaus’. Detalhe: todas as publicações são e-books.

Em ‘O Igarapé de Manaus’, Rocha escreve interessantes crônicas sobre fatos que ele vivenciou desde a infância tanto na rua Igarapé de Manaus, onde morou, quanto no próprio igarapé que há mais de século dá nome à rua.

Em ‘O Igarapé de Manaus’, Rocha escreve crônicas sobre fatos que ele vivenciou desde a infância. Foto: Divulgação

O igarapé de Manaus possui a sua nascente na rua Barcelos, na Cachoeirinha, onde ainda se pode obter água límpida e cristalina. Em meados do século 19 toda a sua extensão servia como fonte de água potável para a população manauara. Hoje, resta apenas um córrego poluído transformado em esgoto.

A rua Igarapé de Manaus fica entre a av. Sete de Setembro e a rua Ipixuna. Ganhou este nome popular em tempos que se perderam e, apesar de já ter recebido vários nomes oficializados pelo poder público, nunca deixou de ser conhecida como Igarapé de Manaus.

“Fui morar com os meus pais e irmãos num flutuante da Cidade Flutuante, no igarapé de Manaus, onde fiquei até os meus doze anos. Quando mudamos para uma casa, em terra firme, voltava todos os finais de semana para visitar os amigos e trabalhar na Oficina de Violões de meu pai, o luthier Rochinha. Passados longos anos, ainda frequento o lugar. Gosto de caminhar pelos Parques Senador Jefferson Péres e Desembargador Paulo Jacob. Fixar o olhar para a Ponte Romana I é sempre um prazer que me renova a alma”, falou. 

José Martins: “gosto de caminhar pelos Parques Senador Jefferson Péres e Desembargador Paulo Jacob”. Foto: Divulgação

Cidade sobre as águas

Nas crônicas do livro, Rocha relembra que, ano após ano, isso na década de 1960, acompanhava a enchente do igarapé, onde aprendeu a nadar. Bastava pular do flutuante para dentro do igarapé e tomar banho nas águas refrescantes, e com alguma poluição, pois nas suas margens, e flutuantes, já habitavam muitas famílias fugidas do interior em razão da famosa enchente de 1953. Na vazante das águas era a oportunidade para, por meses seguidos, se providenciar a limpeza de toda a margem, tomada por lixo, tais como garrafas de vidro quebradas, latas enferrujadas, tábuas com pregos.

“Os banhos eram feitos em cacimbas ou camburões de metal, com água de beber filtrada em potes, bilhas e filtros de barro. Os barcos regionais ancoravam no flutuante, oferecendo, a preços acessíveis, peixes, leites, queijos, farinhas e outros produtos regionais, além de tábuas e palhas para a manutenção das casas”, contou.

A Cidade Flutuante formava um conglomerado tão grande de casebres, que chegou a ser conhecida como uma cidade dentro da cidade de Manaus, com mais de 2.000 casas e aproximadamente 12.000 habitantes. No local existia, além de moradias, um comércio variadíssimo, capaz de suprir todas as necessidades da comunidade que ali habitava: estivas, ferragens, restaurantes, gabinetes dentários, consultórios médicos, drogarias, oficinas de consertos de motores marítimos, vendas de borracha, castanha, juta, couros e peles de animais. Em junho de 1964 o professor Arthur Cesar Ferreira Reis assumiu o governo do Amazonas, e uma das principais metas de seu governo era a completa e definitiva destruição da Cidade Flutuante, o que aconteceu em 1967.

“Apesar de todas as dificuldades materiais e de viver naquela moradia rústica, éramos muito felizes. Crescemos fortes e sadios. Com o desmonte da Cidade Flutuante, o meu pai resolveu desmontar o nosso e guardou todas as tábuas e caibros para ser reutilizado na nova moradia”, completou.

Quem foi Gaivota?

O livro ‘O Igarapé de Manaus’ tem cerca de 50 crônicas de fatos e pessoas observados por Rocha. Nas crônicas sobre os seus vizinhos os relatos vão de 1964 até 1968, com suas lembranças de quando viveu no flutuante. A segunda fase começa a partir de 1968, com a família morando em terra firme. Algumas das crônicas são ‘O Nego Mau’, ‘O Adelson Mau Elemento’, ‘O Boi de Pano do Valdir Viana’, ‘O Forró da Maria Belém’, ‘O Quintal do Durau’, ‘O Senhor Goiaba’, entre outras.

Destaque para a crônica ‘A Casa da Gaivota’. Gaivota era uma senhora misteriosa. Suas roupas eram confeccionadas com sacos. Ninguém sabia o seu nome ou a sua história, apenas a chamavam de Gaivota, cuja casa tipo palafita, construída bem no meio do igarapé, chamou muito atenção dos transeuntes durante anos. Gaivota era solitária, gostava apenas da companhia de alguns cachorros vira-latas. Passava o dia recolhendo pela cidade sacolas de plástico, papelão, tábuas e tudo o que pudesse ser útil em sua casa cuja construção nunca tinha fim.

Entre 2007 e 2010, o igarapé de Manaus sofreu uma total transformação com a implantação de um programa socioambiental, e a retirada de todas as residências que o margeavam para a construção do Parque Residencial Manaus e Parque Desembargador Paulo Jacob.

“Quase todos os meus amigos de infância tiveram que se mudar, permanecendo somente os que moravam no lado oposto da margem do igarapé. Estive na inauguração, ocorrida em 16 de março de 2010. Foi uma festa inesquecível, com fogos, bandas musicais, discursos dos políticos, mas estava triste, pois parte da história da minha infância havia sido enterrada”, lamentou.

Foto/Destaque: Divulgação

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