Língua, diversidade e preconceito

O Brasil é um país de dimensão continental e com a sua língua oficial, o português, não poderia ser diferente. Assim, é possível notar que, apesar de nós todos falarmos essa língua, existe uma variedade, uma diversidade de falares no Brasil.
A língua, qualquer que seja, não é um bloco compacto, coeso e homogêneo. Ela sofre variações de lugar para lugar, por exemplo. A língua falada em Portugal não é exatamente igual à que é falada no Brasil, ou em Moçambique, ou Timor Leste, mas as quatro possuem o mesmo nome e, de fato, são a mesma língua.
Dentro do país, é óbvia a diversidade linguística: o ‘T’ do Nordeste, o ‘NH’ do Pará, o ‘R’ de São Paulo –são características de pronúncia que só são usadas lá. É comum o estranhamento quando se vê alguém falando de um modo diferente, logo se percebe que aquela pessoa é de outra região.
Até aqui, problema nenhum. Essas variações são vistas como traços característicos de loca­lidades diferentes. Agora, qual é a opção correta: ‘Ror(á)ima’ ou ‘Ror(ã)ima’?
Se for um amazonense, ou o próprio roraimense, é claro que vai decidir pela primeira opção, e se estes ouvirem alguém optar pela segunda pronúncia, vão estranhar, caçoar, até tentar corrigir. Se for um paulista, não vai aceitar a primeira opção: por onde ele anda, todos preferem a segunda.
Precisamos entender que, em nossa língua, e em qualquer outra, as pronúncias não são iguais: variam de acordo com o lugar, com o tempo, com a idade, a classe social, a escolaridade, o sexo, a própria situação (estilo – formal, informal). Quanto maior a distância, mais bruscas serão as variações.
O problema acontece quando queremos atribuir valores de certo e errado às variações linguísticas. E não são só os leigos na área que fazem isso. Os próprios especialistas em língua portuguesa escolhem a alternativa certa, condenam a supostamente errada e ainda explicam porque está errada. Fazendo isso, praticamos o ‘preconceito linguístico’.
Certo gramático de renome –consagrado por suas obras ‘esclarecedoras’ a respeito da língua portuguesa–, em um de seus livros, atualmente em sua 29ª edição, aborda a correta pronúncia da palavra ‘Roraima’. Para ele, quem fala ‘Ror(á)ima’ “fala mal, dá mal exemplo, presta desserviço à educação –já que nas salas de aula se aprende ‘Ror(ã)ima’– e imita os índios ianomâmis da região, que são impossibilitados de pronunciar sons nasais”.
Será que todos concordam com essa esclarecedora explicação? Todo o Norte do Brasil fala mal? Todos, sem nenhuma exceção, aprendem ‘Ror(ã)ima’ na escola? Em Manaus, por exemplo, é ‘feio’ falar ‘Ror(á)ima’? Isso, sim, é um claro exemplo do que é preconceito linguístico.
Nós, brasileiros, precisamos enxergar a língua como um bem cultural, como identidade. Se o português que falamos é mostra de que somos brasileiros, o ‘T’ do nordestino mostra que ele é do Nordeste e o ‘NH’ do paraense diz que ele é do Pará.
Não é errado falar de um jeito ou de outro. A língua é um guarda-roupas. Usamos o falar que nos convém em cada situação. Nós escolhemos falar ‘bonito’ diante de um chefe, assim como escolhemos determinadas gírias para falar com amigos. Não falamos na rua da mesma maneira que falamos em casa. É para isso que precisamos conhecer o padrão culto da nossa língua: para dominar as diferentes maneiras de falar.
Como aquele que não conhece de moda, ou pelo menos do bem-vestir, não vai dominar quais cores combinar, quais modelos vestir nas diferentes situações de seu cotidiano, ­assim é aquele que não domina os diferentes falares de sua ­língua. E como aquele que caçoa do terno e gravata, ou da calça jeans, ou do bermudão, assim é aquele que tem preconceito linguístico com uma ou outra variação.
Agora, do mesmo modo que um amazonense não vai deixar de tomar o tacacá só porque está em São Paulo, ou o baiano não vai deixar seu acarajé só porque está no Pará, não precisamos abandonar ou rechaçar a variante regional que diz quem somos.
Um país de tão grande dimensão territorial, de tantas cores e

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