Lembranças do ‘projeto’ Belterra

Belterra, no Pará, ficou famosa após o fracasso das plantações de seringueiras em Fordlândia. Lá foi feita uma segunda tentativa com a cultura, porém, após 18 anos de tentativas (1927/1945) o projeto não tinha mais razão de existir devido o surgimento da borracha sintética. Pois foi lá, também, onde nasceu o escritor Nicodemos Sena, que no sábado (7), às 18h, irá lançar o livro ‘Choro por ti, Belterra!’, na Banca do Largo.

“Nasci em 1958 no rio Arapiuns, afluente do Tapajós, em Santarém. Mas a ‘vila’ de Belterra, que pertencia a Santarém e virou cidade em 1997, é importante para mim porque foi ali que meu pai Bernardino Sena viveu cinco anos inesquecíveis de sua infância (1939 a 1945), durante a Segunda Guerra Mundial, quando Belterra ainda era administrada pelos norte-americanos que a criaram com o objetivo de plantar seringueiras de modo científico e planificado, visando suprir a carência do látex com que se produzia os pneumáticos da indústria automobilística mundial”, disse.

Em ‘Choro por ti, Belterra!’, em 19 episódios, Nicodemos reconstitui o dia em que fez a viagem de retorno às origens, em companhia do pai, depois de um percurso de algumas horas pela rodovia Santarém-Cuiabá, até entrar numa estradinha de terra que leva à Estrada Um e, enfim, às ruínas da cidadezinha de Belterra, que na década de 1940 fora dirigida pela Ford Motor Company, empresa do magnata norte-americano Henry Ford (1863-1947). “Em 2014, 65 anos depois, levei meu pai a Belterra e o que encontramos? Apenas as ruínas de mais um dos malogrados projetos que se tentaram estabelecer na Amazônia. Tristeza e decepção. A florescente Belterra da época dos norte-americanos sobreviveu apenas na memória do meu pai”, recordou.

“Então, ‘Choro por ti, Belterra!’ pode ser entendido como o registro sentimental, poético e filosófico de um fracasso, que se estende do plano individual ao coletivo, pois revela a angústia do personagem diante da desoladora paisagem geográfica e humana de uma Belterra desfigurada pela irresponsabilidade de uns (as autoridades locais) e a cobiça de outros (os agentes do capital predatório), que fazem de ‘Belterra’ (Bela Terra) uma alegoria do próprio Brasil”, lamentou.

Amazônia, a minha pátria
Desde 1977, Nicodemos mora em São Paulo, mas tem fortes raízes com a Amazônia, além de Belterra, Manaus também marcou a sua infância. “Manaus vive nas minhas lembranças mais afetivas, pois morei aí de 1964 a 1968, um pedaço inesquecível da minha infância. Mas conheci uma Manaus ainda pequena, pacata e romântica, que não existe mais, antes da implantação da Zona Franca. Aquela Manaus ficou na lembrança e na poesia e na ficção. Procuro ler os bons autores amazonenses, de antes e de agora, em busca dessa Manaus mítica que me acompanha”, explicou.

A ida de Nicodemos para São Paulo foi a busca de conhecimentos, que naquela época, em toda a Amazônia, não existia. “Meu pai, que desde pequeno trabalhou em vários ofícios braçais para sustentar a família, sempre me dizia: “Meu filho, estuda, pois não quero que tenhas a vida dura que eu levo aqui”. Meu pai queria que eu tivesse um ‘futuro’. E foi isso que eu, ao completar 18 anos de idade, em 1977, vim fazer em São Paulo, vim em busca do ‘futuro’. Queria ser jornalista, mas não havia ainda faculdade de Jornalismo na Amazônia. Enfim, depois de ter sido operário da indústria têxtil, consegui cursar Jornalismo e escrever meus livros, todos eles, por ironia do destino, voltados para o meu passado na Amazônia, a minha pátria, que levo comigo aonde vou”, contou.

Além de escritor, desde 2008 Nicodemos edita livros pela sua editora LetraSelvagem, principalmente clássicos há muito sem edições. “A minha atividade como editor, que começou quando eu já havia escrito e publicado dois romances, decorre da mesma atitude que me levou a ser escritor, isto é, aquela ideia do poeta Fernando Pessoa de que o artista e a arte têm a missão de revelar o oculto e elevar a alma acima de tudo o que é mesquinho. Quer quando escrevo, quer quando edito e publico livros de outros escritores, procuro seguir o mesmo princípio: revelar o novo e autenticamente nosso, brasileiro. Porque, assim como a imprensa mundial e nacional, agarradas a estereótipos ou ao gosto dos colonizadores nacionais e internacionais, não revelam a Amazônia real e autêntica, assim também o ‘mercado’ de livros, amparado no dinheiro público e elitista, não acolhe a verdadeira expressão cultural do nosso povo, ou de ‘nossos’ povos, porque o Brasil, ao contrário do que se diz, é um país multi-étnico e multi-cultural”, esclareceu.

Trecho do livro
“Já perdi muito tempo na vida e não quero mais perder nem mais um instante. Para que um dia eu não tenha que correr atrás do tempo perdido é que me mantenho aceso perto de meu pai. Mas preciso reter não apenas a memória das suas emoções, como também a das minhas. E só bato fotos quando percebo que a emoção produzida pelo que vemos é tamanha que preciso registrar o mundo exterior (a casca do acontecimento), já que ninguém consegue fotografar o âmago (a essência) da Vida. A partir do registro do exterior (as fotos) é que procuro abrir a porta dessa espécie de quarto escuro onde guardei as emoções de papai e as minhas, naquele inesquecível dia em Belterra”.

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