Nestes dias de quarentena, a releitura de livros ativa lembranças e traz lições do passado, especialmente nas biografias e memórias. Neste sentido, as de Armando Falcão, figura presente na nossa vida pública por mais de 30 anos em posições de relevo na política, que acabo de reler, é importante. Ele foi testemunha e partícipe da história.

Falcão foi deputado pelo Ceará, do PSD, destacado opositor de Getúlio Vargas, líder de JK na Câmara dos Deputados e seu ministro da Justiça, influente na crise da renúncia de Jânio, importante peça na articulação do que veio a ser a Revolução de 31 de março, ministro da Justiça do Governo Geisel. Foi interlocutor da intimidade de alguns dos mais destacados homens públicos de sua época, como JK, Augusto Frederico Schmidt, Negrão de Lima, Carlos Lacerda, Roberto Marinho, marechal Odílio Denys e do presidente Eurico Gaspar Dutra. Fonte, portanto, preciosa de detalhes de bastidores de nossa história recente.

Sua narrativa revela fatos importantes sem outro registro histórico conhecido. Na renúncia de Jânio, por exemplo, foi interlocutor dos ministros militares que se opunham à posse do vice-presidente Jango Goulart. E revela que o velho marechal Dutra, logo no dia seguinte, em conversa telefônica, lhe pediu para transmitir ao marechal Denys que, caso não agissem rápido, seriam superados pelos acontecimentos, o que veio a se confirmar. Conta ainda que JK pensava da mesma maneira e que considerava a posse do vice um sério risco de crises futuras, o que veio também a ocorrer. E mais: que no impasse, diante da fragilidade do presidente interino Ranieri Mazzilli e dos militares não quererem assumir o poder, Goulart seria impedido e o Congresso elegeria civil, que seria o jurista Francisco Campos. 

A revelação, esquecida dos que tinham conhecimento do fato, permite se supor que, concretizada a lembrança do marechal Denys, o Brasil hoje seria outro. Campos, além do jurista consagrado, artífice político e jurídico do Estado Novo de Vargas, de quem foi ministro da Justiça, era um notável educador, responsável pelo primeiro projeto da área do Brasil, como secretário de Educação em Minas, do presidente Antônio Carlos e, depois, ministro da Educação do governo provisório de Getúlio. Inspirou a criação do Sistema S para melhorar a qualidade de nossa mão de obra.

Em 64, recorda que, poucos dias antes do famoso comício do dia 13 de março, promovido pelas esquerdas, tendo à frente o então clandestino Partido Comunista, JK teria procurado pessoalmente o presidente, desaconselhando a afronta aos militares e a verdadeira rendição ante às esquerdas, que pressionavam por medidas radicais. Dias depois,Jango ficou vendo o erro de não ter ouvido o experiente político, de quem foi vice-presidente.

O livro é de 1989, tem um fecho pessimista quanto ao futuro do Brasil, em processo crescente de populismo de esquerda, o que veio a se confirmar. Só não previu a virada pelo voto ocorrida depois de trinta anos, em 2018, que, em tendo sucesso, poderá dar um alento de esperança e progresso ao Brasil.

Vale recordar pela leitura desses preciosos depoimentos. Muitas revelações e, principalmente, muitas lições.

Aristóteles Drummond é jornalista, vice-presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro – [email protected]

Fonte: Aristóteles Drummond

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