Leitura correta e produtiva

Durante mais de um mês os jornais estamparam, com o merecido destaque, os dados do Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), dando destaque à posição do Estado de São Paulo, que teve apenas 16,2% dos cursos superiores com avaliação máxima (quatro e cinco), muito atrás do Rio Grande do Norte, o primeiro colocado com 37,8% dos cursos com os maiores conceitos. Tais resultados certamente servirão de munição para os costumeiros disparos que virão de várias frentes, desde os “palpiteiros” superficiais, que defendem soluções midiáticas sem base sólida, até os ideólogos de plantão, vezeiros em manipular/descontextualizar índices para fins politiqueiros, ou os eternos otimistas, que teimam em fechar os olhos para a realidade e valorizar excessivamente os poucos avanços pontuais da educação nas últimas décadas.
Entretanto, para que obtenham efetivamente os melhores efeitos da alentada pesquisa e também o seu melhor uso, a análise do Enade 2006 não deverá se centrar no desempenho de São Paulo, até porque as universidades públicas estaduais – seguramente entre as de melhor qualidade do país – continuam firmes na recusa de participar desse exame que, em última análise, representa uma espécie de prestação de contas ao contribuinte que arca com o dinheiro que as mantém como ilhas de excelência. Vale, também, considerar que são paulistas oito dos 45 cursos com nota cinco, a maior tanto na avaliação geral como no índice de conhecimento que a escola agrega ao aluno durante os anos de estudo. Isso, além de sediar 1.346 (23, 6%) dos 5.701 cursos incluídos no Enade 2006 e, no ensino, nem sempre quantidade significa qualidade.
Numa leitura responsável e produtiva, o Enade deveria balizar o resgate da educação que atravessa, provavelmente, a quadra mais negra de sua história. A não ser pelas sempre honrosas exceções, o que se vê é um preocupante fracasso, que vai da educação infantil à pós-graduação e frustra as esperanças de ascensão social e profissional de milhões de jovens pelo caminho digno do estudo e do trabalho. Essa não é uma missão apenas dos detentores do poder público, que mais falam do que agem em favor da qualidade do ensino. Mas deve envolver a sociedade que sinaliza para uma letargia perniciosa, ao relegar a educação a um mero sétimo lugar entre as prioridades nacionais, segundo recente pesquisa de opinião. Já a pesquisa Perfil do Universitário da Região Metropolitana de São Paulo, que o CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola) divulgou no mês passado, mostra que 55% dos alunos das faculdades, talvez num reflexo de sua própria experiência, elegem a crise educacional como uma das mais graves do País, apenas um pouco atrás da corrupção no governo, com 60%. Em quarto lugar, com 40%, aparece o desemprego.
Com experiência de 43 anos na inclusão profissional dos estudantes por meio do estágio, o CIEE vê com preocupação não apenas os baixos indicadores de desempenho escolar, mas também o crescente descolamento dos currículos da realidade do mundo do trabalho. Preparar o aluno para compor a força de trabalho não é a única finalidade da educação formal, mas seguramente deve ser encarada como uma das mais importantes, tanto pelo impacto que a escolaridade provoca no desenvolvimento socioeconômico dos países, quanto por sua contribuição para a renda e a qualidade de vida de seus cidadãos. Isso vale em especial para as nações emergentes, como já demonstraram experiências anteriores, caso dos sempre citados saltos da Coréia do Sul e de outros Tigres Asiáticos.
O Brasil parece estar entrando num ciclo de retomada de desenvolvimento, mesmo que isso aconteça com atraso e abaixo do ritmo desejado por boa parte da opinião pública. Caso esse processo se consolide, é muito provável que se torne mais agudo o problema da capacitação da mão-de-obra brasileira para atuar nos padrões produtivos da moderna economia. Portanto, é cada vez mais urgente a necessidade de oferecer aos jovens todas as oportunidades de se prepararem adequadamente pa

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