Leigos merecem ser perdoados

Por mais respeitável que seja um profissional, da medicina, da geologia ou da polícia civil, devemos ter em conta que tributação

Teria dito um médico e ex-ministro, para defender a manutenção da CPMF, que “os ricos não pagam imposto e por isso o Brasil é tão desigual”. Por mais respeitável que seja um profissional, da medicina, da geologia ou da polícia civil, devemos ter em conta que tributação é uma especialidade que não pode ser discutida por leigos.

Advogados não costu­­mam­­­ dar palpites no trabalho dos médicos. Com a frequência recomendada pelo clínico de minha confiança submeto-me a exames e procuro orientar-me pelo conhecimento e pela expe­riência do profissional da saúde. Para os problemas de segurança consulto o profissional da área e, se tiver que procurar minérios, contratarei um geólogo.

Mas muita gente imagina que tributação seja igual a fute­­­bol, onde cada um fala o que lhe passa na cabeça. Tal­­vez por isso o futebol tenha se transformado no que é ho­­­je: um circo, palco para ne­gociatas, antro de incompe­tentes, símbolo do nosso a­­­­­­­­tra­so cultural e intelectual.

Como qualquer um se julga no direito de se auto-intitular consultor e um bacharel qualquer que tenha paciência para adquirir seu mestrado ou doutorado nes­­­sas indústrias de diplomas, que hoje chamamos de escolas, pode sair por aí arro­tando sabedoria, escreven­­­­­do livros e se dizendo tribu­­tarista porque descobriu como é o sistema tributário da Finlândia num curso ca­­­­ça-níqueis de uma faculdade americana, qualquer um é tributarista.

Mas, meus caros, o mun­­­do real é um pouco diferen­­te. Quem é o rico que não pa­­­ga imposto? Parece que ri­­co é aquele sujeito que teve um rolex roubado ou aquele outro que comprou um auto­móvel importado por R$ 400 mil. Ou o que mora na mansão do Morumbi. Não é pe­cado ser rico. Não é proi­­bi­­­­­­­­­­­­do ser rico. A não ser na ca­­­beça oca de ilustres apedeutas.

Quem compra um rolex por R$ 10 mil com nota fiscal numa joalheria já pagou R$ 6.000 de impostos indiretos. O proprie tário do BMW de R$ 400 mil pagou R$ 250 mil de impostos (importação, IPI, ICMS, IPVA, Cofins, PIS, etc), antes mes­­­mo de ter o direito de colo­­­car seu rico traseiro no ban­­co de couro do veículo…

Rico não paga imposto? Quanto o “consultor” ou “pro­­­fessor doutor” imagina­ que está embutido no pre­­­­ço de uma mansão no Morumbi? Eu não moro lá, mas como sou tributarista sei­: cerca de 40% da mansão é imposto.
Fala sério, pessoal! Parem de discutir o que não en­­ten­­­­­­dem, mesmo que a discus­­são seja no restaurante ele­­gan­­­­te ou no boteco da Vila Madalena. Deixem esse pa­­­po para quem é do ramo.

O Brasil é desigual? Claro que é! E isso nada tem a ver com os ricos, mas com esses burocratas que desviam o dinheiro dos impostos. Isso tem a ver com as obras super­­faturadas, com as campa­nhas­­ eleitorais milionárias, cheias de cuecas recheadas de dólares. Isso tem a ver até mesmo com os encargos sociais que são pagos para sustentar as mordomias de líderes empresariais que no mais das vezes lideram ape­nas a si próprios.

Vocês já viram quanto se paga para essa pelegada que está pendurada nos sindicatos, nas federações, nas ONGs que pegam dinheiro dos impostos para sustentar as mordomias de gente que nunca trabalhou na vida?

O Brasil é desigual até mesmo porque muitos pro­­fis­­­­sio­­­nais formados na USP e nas escolas públicas manti­­­das com o imposto dos ri­­cos­­­­ e dos pobres depois que se formam raramente devol­­vem parte do que receberam em forma de serviços.

Raul Haidar é advogado, tributa­rista e jornalista.

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