Latinos podem voltar à pobreza

A atual recessão econômica, depois de 15 anos de ‘bonança’, pode ser a responsável pela volta de um em cada três latinos ao estágio de pobreza. O alerta da ONU (Organização das Nações Unidas) causa preocupação ao, praticamente, declarar a extinção da classe média emergente. O relatório do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) também preocupa por demonstrar a instabilidade econômica de países que até então vinham sendo bons parceiros comerciais do Brasil.
O desaquecimento de alguns mercados parceiros do Brasil tem suas causas na falta de planejamento a longo prazo, explica o economista Francisco Mourão Júnior. “Com a abertura da China a outros mercados, houve um aquecimento da cadeia produtiva dos países da América Latina e países subdesenvolvidos passaram a ser emergentes. O erro foi não se prepararem para períodos de recessão, como se desconhecessem os ciclos econômicos de PIB (Produto Interno Bruto) alto e baixo”, conta o economista.
Segundo o economista, o único país da América Latina que ainda pode ser parceiro comercial do Brasil é o Chile. “Outros países tiveram seus períodos de estabilidade e não souberam aproveitar. Venezuela, com o petróleo e a Colômbia sem a interferência dos ‘narcos’ experimentaram a ascensão a mercados consumidores. Tudo isso parece ter acabado e temos que buscar negócios com o Chile, que vem há tempos usando o modelo de economia liberal do ‘laissez faire’, um mercado que deve funcionar livremente, sem interferência do Estado”, afirma Mourão.
Ainda de acordo com Mourão, a decadência dos Estados vem da negação desse princípio, atacado com veemência pelos governos sul-americanos. “É um discurso que perdura entre os governos com ‘queda’ para a esquerda, mas vimos anos de estabilidade nos governos Fernando Henrique Cardoso (1994-1997 e 1998-2002), com a criação do Real e o combate à inflação. Essa estabilidade foi a que proporcionou aos governos posteriores a implantação dos programas sociais”, ressalta.
Para Mourão, a volta à pobreza de um em cada três latinos é provável por conta da dependência destes com o Estado. “Não educamos o povo para momentos de crise, houve sim a ‘bonança’, um período em que muitos ascenderam à classe média e muitos experimentaram serem consumidores de bens e serviços a que não tinham acesso antes. O problema é que muitos não querem voltar ao patamar de antes e para manterem alguns padrões de vida, acabam se endividando”, fecha o economista.

Políticas sociais ameaçadas

Mesmo que os governos afirmem que não irão extinguir as políticas sociais, estas se encontram sob ameaça, explica o cientista político, Breno Messias. “As políticas de proteção social têm como inimigas vorazes os custos fiscais do Estado. Em época de bonança e prosperidade, os gastos governamentais se expandem, muitas vezes de forma irracional. Quando há retração da atividade macroeconômica, o principal afetado é a receita, aumentando taxas de desemprego que impactando na política fiscal do Estado, que por fim atingem as políticas sociais”, conclui.

Segundo ano de contração

De acordo com a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), a atividade econômica regional vai registrar contração pelo segundo ano consecutivo e cairá, em 2016, 0,6%, com diminuição do consumo, da demanda interna e dos preços das matérias-primas como petróleo e minerais. Além disso, o desemprego aumentará, em 2016, 7%, depois de alcançar em 2015 a marca de 6,5%, o pior resultado em seis anos. “Esta situação afeta a renda e o bem-estar dos lares vulneráveis”, afirmou economista-chefe do Pnud para a América Latina e Caribe, George Gray.

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