Kaizen ocorre na mente e não fora dela

A jornada pela excelência é uma espiral, em cada trecho que se forma um círculo, há um vira-e-mexe, um sacudir da roseira. Isso acontece porque a excelência pode ser entendida como a busca da perfeição. Existe perfeição? Se admitirmos que ela não existe, que é apenas utópica, cessaremos, então, todo esforço por melhorar, porém se adotarmos a postura de que ainda que seja impossível alcança-la, mas ainda assim se tentará, seremos melhores do que ontem. É como disse o escritor russo Leon Tolstói “Se você procurar pela perfeição, nunca estará contente”.

Esse descontentamento é o que cria energia para melhorar continuamente, isso enseja dizer que é preciso uma reflexão sobre as razões para melhorar. E quando se ler num texto sobre excelência e melhoria contínua, é inevitável, para quem estuda o assunto, lembrar da palavra japonesa Kaizen, traduzida como Melhoria Contínua. Associar Excelência com Kaizen faz todo sentido, porém devo dizer que Kaizen não quer dizer melhoria contínua e que seu entendimento é mais profundo do que se possa supor.

Kaizen não quer dizer melhoria contínua
É extremamente comum acreditar que a tradução da palavra Kaizen (??) significa “Melhoria Contínua”, entretanto há um significado muito mais profundo para esse termo japonês que está muito mais ligado a aspectos intrínsecos do indivíduo do que a aspectos do ambiente externo. Desse modo uma tradução mais correta é “Autodesenvolvimento contínuo”. Exatamente isso! Kaizen é uma força interna que acontece na mente. Esse processo de Kaizen inicia com o Hansei que quer dizer reflexão profunda e isso causa um grande desconforto para quem o faz exigindo autocrítica, coragem e quebra do status quo tudo para que a pessoa seja capaz de alcançar o seu potencial máximo como indivíduo e líder. O Japão usa três alfabetos, o Hiragana, Katakana e Kanji, enquanto os dois primeiros são silabários e fonéticos, o Kanji, de origem chinesa, é ideográfico, ou seja, são símbolos que representam uma ideia. Nesse sentido, quando se interpreta os ideogramas ? (Kai) ? (Zen), se tem no primeiro um homem se auto-flagelando, dando a conotação de alguém que se submete a um grande desconforto (Hansei), no segundo ideograma existe a ideia de um altar sobre o qual há um animal que será sacrificado, conotando o abandono do status quo anterior, o desprendimento de modelos mentais limitantes. Fica claro aqui, pela interpretação dos ideogramas KAI-ZEN que o hansei é combustível para a existência do Kaizen verdadeiro. Esse exercício de autodesenvolvimento contínuo provocará sentimentos desagradáveis como raiva, inveja das realizações dos outros, frustração etc. Esse turbilhão de emoções negativas ocorre justamente na volta da espiral da jornada pela excelência e é necessário para levantar, sacodir a poeira e dá a volta por cima. Como efeito desse “autodesenvolvimento contínuo” vem a “melhoria contínua” que, em japonês, é melhor expresso pela palavra Kayrio (??) e, assim, se manifesta no mundo da matéria: processos, tecnologias, máquinas, métodos etc. Kaizen e Kayrio são dois lados de uma mesma moeda, enquanto o primeiro se refere a a motivação para mudar para melhor internamente, o segundo se refere a mudança externa para alavancar resultados (Kairyo).

Hansei – Uma prática que exige coragem
Quando podemos saber que é hora de fazer o Kaizen e, que consequentemente, resultará no Kairyo? Fundamentalmente há dois métodos para isso: O primeiro são os 3Ki, iniciais das palavras japonesas Kitsui (é duro), Kitanai (é sujo) e Kiken (é perigoso) e os 3Mu, iniciais das palavras Mura (Desnivelamento, irregularidade), Muri (Sobrecarga) e Muda (Desperdícios).

Quando se aplica, por exemplo os 3Ki, se ficará atento a coisas como: se há peças que é duro de levantar; caminhões duro de carregar; se há processos sujos; se áreas comuns são sujas; se é perigoso manipular alguma ferramenta ou empilhar caixas etc. Isso dará início ao Hansei.

Um gestor que cuida de tais processos que tenha aspectos do é duro, é sujo, é perigoso, deve começar a se questionar sobre a situação. Perguntas que ele poderia fazer a si mesmo sobre isso são: Será que eu já fiz tudo para tornar a atividade de levantar a peça mais fácil, será que eu estou provendo os recursos básicos para manter as áreas comuns limpas? Será que eu também não tenho o mal hábito de sujar? Será que eu estou sendo negligente com a segurança dos funcionários? etc. Tais questionamentos levarão a reflexões profundas até culminar com a mudança interior na mente de quem faz o Hansei, se manifestando no Kaizen que, por sua vez, exigirá a transformação no mundo externo, por meio do Kairyo.Nessa espiral que é a jornada pela Excelência Operacional, Kaizen e Kairyou desempenharão seu papel filosófico e de realização no gemba (verdadeiro local) ou em qualquer área da vida, nos tirando da nossa zona de conforto e nos ajudando a nos libertar de modelos mentais limitantes. Lembre-se, Kaizen se realiza em você e Kairyou se realiza em volta de você. Talvez seja por isso que a Toyota adota o lema em sua fábrica no Japão “Bons pensamentos, bons produtos”.
Ósculos e amplexos.

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