Juros sobem na contramão do PIB

Se o dólar sobe, os contratos futuros de juros sofrem correções inevitáveis

Os juros abriram a semana em alta no mercado futuro da BM&F. Trata-se de um movimento apartado da realidade, em que ação e pensamento não se combinam. Mas, tecnicamente, não tem outra saída: se o dólar sobe e se as expectativas inflacionárias persistem em deterioração, os contratos futuros de juros sofrem correções inevitáveis, decorrentes da retração da parcela de investidores que assume a ponta prefixada, a que corre o risco da inflação. Mesmo as instituições que não acreditam que o Banco Central irá ampliar a dose do seu aperto monetário para atacar essa degradação das expectativas não podem ir contra todo o mercado, uma vez que os contratos são ajustados diariamente por diferença. Ou seja, o DI futuro sobe divorciado da política monetária, das fábricas e das ruas.
O avanço dos juros foi generalizado e progressivo. Como os contratos de prazo mais distantes aceleraram com velocidade superior à dos de curto prazo, a inclinação negativa da curva ficou menos acentuada —um sintoma de piora das expectativas. Enquanto a taxa para o fim do ano subiu 0,08 ponto (de 12,77% para 12,85%), o DI para janeiro de 2017 teve alta de 0,13 ponto (de 12,51% para 12,64%) e o contrato para janeiro de 2021 saltou 0,20 ponto, de 11,93% para 12,13%.
Em alta, os DIs se entregam a uma alucinação coletiva pela simples razão de que Copom não pode subir a taxa Selic para além do que já foi acertado. Deve fazer na próxima reunião, marcada para o começo de março, o ajuste derradeiro e simbólico de 0,25 ponto, uma vez que já amplamente sinalizado, e encerrar o ciclo com taxa de 12,5%. Não pode ir além porque o principal indicador da saúde da economia brasileira —a evolução do PIB —não para de piorar. Pela quinta semana consecutiva, as cem instituições que participam da pesquisa Focus do BC reduziram suas projeções para o crescimento da economia este ano. No boletim divulgado ontem, a mediana das estimativas recuou de 0,13% para 0,03%. Vai parar por aí? Não vai. O próprio método de cálculo das previsões —expurga os extremos pessimistas e otimistas e realça as convergências –induz a um deslocamento suave dos prognósticos. Um indicador precisa piorar acentuadamente e de uma hora para outra para o Focus consignar alterações drásticas. Mas já há muita gente boa e sóbria no mercado prevendo um PIB negativo. Pode-se tomar o exemplo do Itaú. O departamento econômico da instituição mudou ontem a projeção de crescimento para este ano, de 0,2% para -0,5%. E o banco faz questão de frisar que à essa nova expectativa não foram agregados cálculos sobre o possível impacto recessivo de eventuais racionamentos de energia elétrica e água. Tais racionamentos poderiam diminuir o crescimento em 0,6 ponto adicional. Ou seja, o PIB poderá este ano sofrer uma contração de 1,1%. Diante disso, não dá para pensar em ciclo longo de aperto monetário. Nem se o IPCA se sustentar no patamar de 7% ao ano. Há economistas que acreditam na possibilidade de o acumulado de doze meses da inflação recuar a partir do 3º trimestre do ano, despedindo-se do vergonhoso nível de 7%, por efeito da recessão econômica, a ponto de fechar o ano ainda abaixo do teto de 6,5% da banda inflacionária. A mediana do Focus não contempla essa perspectiva mais otimista. Também pela quinta semana em sequência, as instituições participantes aumentaram suas apostas de IPCA para o acumulado de 2015. A projeção subiu de 6,99% para 7,01%, quando estava perto de 6,5% quando iniciou a escalada, no final de dezembro. Se os 7% se mostrarem incontornáveis, será melhor definir uma meta ajustada de inflação, mais elevada, do que aumentar a dose do aperto.

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