Jornada excessiva é perigo nas estradas

Uma das hipóteses para a causa do acidente entre um ônibus de passageiros e um caminhão-tanque, que matou nove pessoas na semana passada, na BR-376, no sentido Ponta Grossa-Curitiba, é de que o motorista do ônibus tenha dormido ao volante. A polícia científica não achou marcas de freada na estrada. O acidente despertou a atenção para um problema comum nas rodovias brasileiras: a jornada de trabalho excessiva a que muitos motoristas são submetidos. Em todo o Paraná, são 120 mil profissionais com carteira assinada que transportam cargas e passageiros. Somado aos autônomos, o número sobe para 220 mil.
A situação é mais grave entre os caminhoneiros. Enquanto um profissional que atua no transporte de passageiros dirige, em média, oito horas por dia, o motorista que transporta cargas chega a conduzir um caminhão por 72 horas, sem dormir, apenas com paradas esporádicas. Para ficar acordado por tanto tempo, muitos lançam mão do uso de anfetaminas (mais conhecidas como rebites) e até mesmo cocaína.
O uso contínuo de rebites por cerca de 20 anos aposentou por invalidez o motorista Sérgio (nome fictício), 53 anos. Sem condições de dirigir desde 1994, além de depressão, Sérgio sofre com doenças do sistema nervoso e diabetes – tudo, segundo ele, ocasionado pelo uso indiscriminado das anfetaminas. “Usava sempre para fazer render mais a viagem. Cheguei a ficar oito dias acordado, sem parar. Quem fornece os rebites é o próprio patrão”, disse. Para ficar “ligado”, Sérgio conta que tomava 14 comprimidos com café antes de iniciar cada uma de suas viagens. Depois mantinha o efeito da droga ingerindo dois comprimidos a cada duas horas. “Tem gente que usa cocaína. Por sorte nunca me acidentei. Mas a gente perde a noção do espaço, do tempo, da velocidade, de tudo”, disse.
Para o presidente da Federação dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Estado do Paraná, Epitácio Antonio dos Santos, o problema esbarra na falta de regulamentação da profissão. Em junho, a lei 2660/96, aprovada pelo Congresso Nacional, que previa o descanso de meia hora a cada quatro horas trabalhadas na estrada, foi vetada pelo vice-presidente José Alencar. Para tentar reverter a situação, outro projeto tramita na Câmara dos Deputados. “A regulamentação da profissão é a única oportunidade para acabar com essa guerra no trânsito”, disse.
O presidente da Fenacam (Federação Nacional dos Caminhoneiros Autônomos), Dilmar Bueno, ressaltou que a atividade dos motoristas profissionais é marcada pelo risco permanente em diversos aspectos. Entre eles está o perigo no trânsito pela má conservação das estradas. Há também o risco de vida em função do patrimônio. “O motorista acaba se tornando alvo fácil de ladrões de cargas, por falta de fiscalização e segurança”, disse.
O amor pela profissão é que faz o caminhoneiro Sílvio Alessandro de Souza, 34 anos, continuar na estrada. Sua rotina inclui 14 horas de viagem por dia. Nesse período ele desperta às 5 horas e só faz intervalo na hora do almoço. Dorme em casa de duas a três vezes por semana e acha que o salário de R$ 2.500 compensa o esforço. Trabalha limpo, sem uso de qualquer tipo de droga. “Do jeito que toco, não precisa. Às vezes dá sono, mas a gente acostuma”, disse.
Dirigir o veículo em boas condições físicas e de saúde é uma das recomendações do Senat (Serviço Nacional de Aprendizagem em Transporte) para trafegar em segurança. Não consumir álcool ou outras substâncias que alterem o sistema nervoso central é outra orientação dada aos motoristas profissionais em cursos de aperfeiçoamento oferecidos pela instituição. Segundo o coordenador de desenvolvimento profissional do Senat, Cláudio Roberto Vieira, nos cursos há módulos específicos sobre segurança. “A cada cinco anos, todos os motoristas precisam fazer uma atualização”, disse. Antes de serem submetidos aos cursos de formação específica, os motoristas precisam de habilitação de acordo com o veículo a ser conduzido, segundo resolução 168 do Contran (Conselho Nacional de Trânsito).

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