Invisibilidade da mulher amazônica na ciência

Pensar a Amazônica de hoje ou de ontem implica buscar suas referências naquilo que alguns autores vêm denominando de formação social da Amazônia.
Em outros termos, significa dizer que devemos analisar a Amazônia e os seus processos sociais em suas dimensões particulares de colonização, de enfrentamento das populações indígenas com os povos conquistadores, enfim, compreender a região como repositária de culturas distintas como a do negro africano e dos nordestinos.
Um dado, porém, é comum entre as estudiosas da temática de gênero: a mulher foi ocultada dos estudos sobre a região. Este ocultamento, segundo a historiadora Michelle Perrot, representou uma tendência em todo o mundo ocidental. Pretender estudar as mulheres da Amazônia como nos aventuramos para escrever o livro “As novas Amazônidas” (2005), significou garimpar num terreno pedregoso e de difícil acesso tal como tirar “leite de pedra”. Mas, a ausência ou omissão de informações pode ser um bom indicativo para a investigação.

O importante é interrrogar o sentido do silêncio e sua historicidade. Hoje, no Brasil, os estudo sobre mulher, quer seja na vida privada, quer seja na vida pública, tem uma produção razoável. Porém, sobre a mulher do século 19 e início do século 20, em termos de pensamento social, há uma grande lacuna. Nesse período a mulher é praticamente ausente, tanto como criadora das artes e das letras, como protagonista dos movimentos sociais.
O mesmo pode-se dizer em relação à América Latina. No século 19 o tema da educação é bastante visibilizado na sociedade chegando a extrapolar os papéis educacionais da mulher. Lizardi, Bello, Alberdi, Bilbao, Sarmiento, Marti, autores citados por Valdés (1996) referem-se à educação feminina como algo importante nesse período. Clorinda Matti de Turner, escritora peruana, foi uma das poucas que trataram explicitamente da questão feminina.
Procurar destacar as mulheres que sobressaíram no mundo das letras e exaltar sua capacidade intelectual é fundamental para darmos visibilidade à história do gênero feminino no mundo ocidental. No Brasil os pensadores clássicos como Freyre (1946,1968), Oliveira Vianna (1938,1955), Buarque de Holanda (1998), ao se referirem à mulher a viram somente no âmbito da família e mesmo assim, deixaram na sombra a mulher amazônica.
Exceção que vem confirmar a regra é o livro de Joaquim Norberto de Souza Silva, “Brasileiras Célebres”, publicado pela primeira vez pela editora Garnier, no Rio de Janeiro, em 1862.

As obras, quer de Clara Turner quanto a de Norberto Souza trazem no seu bojo um teor reivindicatório, fruto certamente, do ideário liberal moderno positivista que marcou o século19.
Brasileiras Célebres, apesar de causar uma certa frustração aos leitores feministas porque não esconde seus propósitos conservadores de reforço aos padrões tradicionais da mulher boa mãe, mestra dedicada, esposa amantíssima, católica devota, sempre fiel à defesa da pátria e da ordem, constitui uma fonte importante de referência histórica, diante de um “mar de ausências” que caracterizou a literatura do século passado. Mas ela não esconde suas intenções de colocar tais mulheres como modelos a serem seguidos pelas demais.
Pergunto: até que ponto tais modelos se estenderam à Amazônia, tida como região inóspita, isolada do contexto nacional ou mesmo mágica, na visão da época? A presença indígena, tendo sido preponderante aqui, não teria deixado uma marca cultural de diferença? Até a chegada dos missionários cristãos, evangelizadores e controladores, a sexualidade entre os índios fluía livremente, como uma decorrência normal da sua fisiologia, nada impedindo a mulher de praticá-la.

O controle advém com o casamento quando então a mulher passa a ser posse do marido. Algumas pesquisas realizadas (Costa,1984;Moura,1986) sugerem um comportamento diferenciado da mulher amazônica em relação às mulheres do sul e sudeste no tocante à maternidade, matrimônio e sexualidade. Demonstram uma certa autonomia

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