Interior soma 2.942 novos empregos com carteira assinada em 2023

Marco Dassori

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O Amazonas criou 2.942 empregos com carteira assinada no interior, no ano passado. A diferença entre as contratações (+22.538) e demissões (-19.596)  gerou alta de 7,05%. Marcado pela crise da vazante, o resultado de 2023 correspondeu a apenas pouco mais da metade do número atingido em 2022 (+5.679), que foi um período caracterizado por eleições conturbadas, disparada de inflação e juros. O número só conseguiu superar as performances de 2020 (-292) e 2021 (+2.874), que foram os dois anos iniciais da pandemia. 

Em dezembro, os municípios acompanharam a capital (-1.768) nos tradicionais cortes de fim de ano, e promoveram a destruição de 1.068 empregos. Mas, diferente do ocorrido em Manaus, que atravessou 11 meses ininterruptos de predomínio das admissões sobre os desligamentos, o interior já havia marcado o seu primeiro saldo negativo em novembro (-52). É o que revelam os números mais recentes do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), compilados pelo Ministério do Trabalho e Previdência.

A mesma base de dados informa que somente dois em cada três dos 61 municípios do interior do Amazonas conseguiram fechar o ano em expansão, puxados principalmente pelos setores de serviços e comércio. Em dezembro, contudo, somente um em cada seis municípios conseguiu avançar, e o volume de vagas invariavelmente não passou da casa de um dígito. Assim como ocorrido em Manaus, as demissões do mês foram a regra na indústria (-404), construção (-343), agropecuária (-141), serviços (-133) e comércio (-51).

Oferta concentrada

Entre os 61 municípios interioranos, 40 fecharam o ano com mais contratações do que demissões, e 21 extinguiram empregos. O melhor desempenho veio de Iranduba, que gerou 857 vagas e expandiu seus estoques em 30,76%, sendo impulsionado pela indústria de duas rodas (+402) e pelos serviços de transporte e armazenagem (+250). Na sequência estão Parintins (+608 e +19,20%) e Tabatinga (+495 e +14,83%). No outro extremo estão Itacoatiara (-292 e -5,75%), Boca do Acre (-270 e -17,81%) e Careiro (-41 e -15,36%).

A análise dos números de dezembro mostra apenas dez municípios amazonenses com saldo positivo e ocupações com carteira assinada, sendo que somente Barcelos conseguiu oferta superior a um dígito, ao abrir somente 17 postos de trabalho (+8,85%), sendo favorecido principalmente pelos serviços especializados para construção (+13). Na outra ponta, 26 cidades interioranas eliminaram empregos, com destaque também para Boca do Acre (-311 e -19,81%), Itacoatiara (-208 e -4,17%), além de Presidente Figueiredo (-112 e -3,02%). Já as 15 localidades restantes marcaram estagnação. 

Os números do Novo Caged confirmaram ainda que a oferta de trabalho formal no interior segue estruturalmente concentrada. A soma dos estoques de empregos –que é a quantidade total de vínculos celetistas ativos –dos seis municípios mais populosos do interior responde por mais da metade de todo o volume de vagas contabilizadas fora da capital (42.128). A lista inclui Itacoatiara (4.972), Iranduba (3.656), Manacapuru (3.636), Tabatinga (3.630), Presidente Figueiredo (3.529), Parintins (3.528). 

Serviços e comércio

A maior parte dos novos empregos no interior veio dos serviços (+2.289), especialmente na administração pública e atividades correlatas (+1.051). Na sequência estão os grupos que reúnem transporte, armazenagem e correio (+442); informação, comunicação e atividades financeiras e imobiliárias (+410); “outros serviços” (+200); alojamento e alimentação (+184).

O comércio (+407), que também tem capilaridade para atingir todos os municípios, foi o segundo maior ofertante. O varejo (+311) segurou a liderança, acompanhado à distância pelo atacado (+73) e pelo segmento de veículos (+23). Na terceira posição, a construção gerou 252 ocupações, sendo favorecida pelas obras de infraestrutura (+405) e construção de edifícios (+16), mas não dos serviços especializados em construção (-169).

Já a indústria, que se concentra mais nos municípios da Rede Metropolitana de Manaus, ficou na quarta colocação, com apenas 236 empregos formais. A indústria de transformação compareceu com 322 novos postos de trabalho, sendo acompanhada de longe pela indústria extrativa (+37). No outro extremo, atividades de eletricidade e gás (-57), e de água, esgoto, atividades de gestão de resíduos, descontaminação (-66) eliminaram vagas.

O principal dado negativo veio da agropecuária. Em um ano marcado pelos impactos da mudança climática, o setor enxugou 242 postos de trabalho no interior. Os cortes vieram da produção florestal (470), com alguma colaboração de pesca e aquicultura (-8). Em contraste, agricultura, pecuária e serviços relacionados (+236) geraram saldo positivo.

“Ínfimo crescimento”

A ex-vice-presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, lembra que a geração de emprego no interior é historicamente baixa e apresenta “ínfimo crescimento” anual. Para a economista, isso só pode ser mudado mediante políticas públicas direcionadas à melhoria educacional e à “formação empreendedora”. Ela observa, entretanto, que os números refletem também os impactos da crise da vazante. 

“Destaque para o setor de serviços, que é responsável pelo maior quantitativo de empregos. Comércio e construção civil foram fomentados pela retomada da trajetória de queda dos juros. Chamo a atenção também para a indústria, que foi a maior impactada pela falta de insumos e componentes bem como pela dificuldade de escoamento produtivo”, listou.

Na análise da economista, o cenário é de desafios e deve servir de alerta para os próximos anos. “Tudo indica que as consequências do aquecimento global já impactam sobre o regime de cheia e vazante dos rios na Amazônia, o que implicará na busca por soluções para mitigar outros impactos no futuro. Lembrando que na Amazônia, as estradas são os rios e toda a economia regional depende deste modal de transporte”, enfatizou.

“Arcabouço histórico”

O também consultor empresarial e professor universitário, Leonardo Marcelo Braule Pinto, concorda que os números do Novo Caged refletem os efeitos negativos da estiagem recorde de 2023. “Muitas comunidades ribeirinhas ficaram isoladas, sem alimento ou água potável, além de perder produção agrícola. Mas, aspectos como esse somam-se a todo um arcabouço histórico de escassez de políticas públicas para o interior. São poucas e, geralmente, desconexas umas das outras”, lamentou.

O economista observa que, embora o saldo geral seja positivo, o emprego continua concentrado na RMM e estagnado na maior parte do interior. “Isso prejudica muito o desenvolvimento do Estado, que fica à mercê da arrecadação de pouquíssimos municípios. Isso causa êxodo rural. Precisamos de mais suporte e incentivo governamental, principalmente na atividade rural. O interior é riquíssimo em biodiversidade, que é uma variável para o desenvolvimento, com atividade de bioprospecção e sustentável. É o nosso grande potencial para gerar ganhos de economia de escala”, arrematou.  

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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