O impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a incerteza na continuação da coalizão de sustentação do atual presidente, a prisão do ex-presidente Lula, a convulsão dos partidos e dos grupos de interesses (empresários e trabalhadores), a cambaleante recuperação dos indicadores macroeconômicos e a chegada das eleições presidenciais mais fragmentadas da história desde 1989 são as combinações explosivas da mais recente crise.

A paralisação dos caminhoneiros e de todo o setor produtivo brasileiro, com consequente desabastecimento de alimentos, insumos e combustíveis nas cidades brasileiras, escancararam as brechas de nossas profundas contradições reais e virtuais. Vale dizer, as contradições de hoje e aquelas que serão empurradas para as próximas gerações.

Ainda pagaremos um preço extremamente caro pelo nosso curtoprazismo, esta filosofia do imediato, aliás, tão enraizada nos costumes e na institucionalidade pública, pune de morte qualquer projeto sério e razoável de nação e de normalidade da vida pública do país.

O que estava sendo executado na política de recuperação dos ativos da Petrobras era um projeto de ajuste com base na racionalidade gerencial depois do arrombo megalomaníaco do governo anterior que movido pelo populismo econômico artificializou os preços dos combustíveis e operou um sofisticado esquema de corrupção.

Temer cedeu! Cedeu mais uma vez a pressão dos grupos de interesse. Cedeu ao populismo, à confusão e à irracionalidade e à demagogia -e repete, mais uma vez, os mesmos erros do passado recente que levaram a empresa (e o país, porque não!) à bancarrota. E como a história sempre se repete, a ressurreição dos valores da empresa se dera à custa dos contribuintes.

O Brasil é um laboratório de experimentos mal-sucedidos. É sempre bom lembrar do fraseado de Mário Henrique Simonsen a esse respeito: “Os políticos brasileiros são movidos pelo princípio da contra-indução: uma experiência que dá errado várias vezes deve ser repetida até que dê certo”.

A opinião pública precisa entender e ser convencida pedagogicamente de que um dos caminhos para nos livramos de mais esse encosto estatista – o “dinossauro” patrimonial, na certeira definição de José Oswaldo Meira Penna – é a privatização parcial ou total do setor. Não é possível e aceitável acreditarmos, ainda hoje, com todo o acúmulo de conhecimento internacional e experiencial da realidade nacional a respeito do assunto, que economias monopolistas e autárquicas são melhores para a população na relação custo e benefício.

É necessário e urgente virarmos a página da atávica ideologia do “petróleo é nosso”. Afinal de contas, não se trata mais do “nosso”, mas sim de nós contra eles; o povo contra a burocracia estatal.

O acirramento da corrida presidencial tem produzido, por sua vez, um fenômeno bem interessante. Candidatos ao posto máximo da nação não se comprometem com o problema, mas apenas surfam no caos. São os industriais da anarquia que faturam eleitoralmente no cenário do quanto pior, melhor.
Alimentar a crise até o seu limite, nas estratégias eleitorais concorrentes, pode favorecer projetos políticos mais polarizados que se localizam nos dois lados da borda ideológica, isto é, à direita ou à esquerda dos espectros partidários.

A radicalização da polarização ideológica é inimiga do status quo, de qualquer candidatura do centro político, porém intimamente aliada dos projetos de Bolsonaro e Lula ou do candidato por ele indicado. O eleitor brasileiro historicamente premia projetos aventureiros que cedo ou tarde produzirão mais instabilidades e modificações nas regras do jogo.

Ter esperança neste momento é esperar que o eleitorado mais maduro imponha alguns limites e cobre clareza e responsabilidade de seus candidatos durante a campanha que se avizinha. Insistir em populismo e na demagogia podem empurrar o Brasil para mais um período de ostracismo internacional, reeditando a década de 1980 – a década perdida.

*é cientista político

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