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Indústria registra recuo nos preços e diminuição nos estoques

A indústria está menos cara e com seus estoques em queda livre, abrindo maior perspectiva para reaquecimento. A inflação do setor registrou retração de 0,43%, entre novembro e dezembro, no segundo mês seguido de declínio. A redução, que não leva em conta tributos e fretes, foi de 4,98% no acumulado do ano passado. O resultado de 2023 foi puxado para baixo principalmente pela indústria de transformação e 16 de seus 22 subsetores, com destaque para produtos químicos (-17,25%), refino de petróleo e biocombustíveis (-15,45%), papel e celulose (-15,23%) e metalurgia (-9,77%).

Já as principais influências no acumulado da indústria geral vieram de refino de petróleo e biocombustíveis (-1,85 pontos percentuais), outros produtos químicos (-1,51 p.p.), metalurgia (-0,60 p.p.) e alimentos (-0,60 p.p.). Pela perspectiva das grandes categorias econômicas, o resultado anual se estabelece a partir dos recuos de 1,62% em bens de capital (com influência de -0,12 p.p.), de 7,87% em bens intermediários (-4,52 p.p.), e de 0,96% em bens de consumo (-0,34 p.p.). Os dados são do IPP (Índice de Preços ao Produtor), do IBGE.

O menor vigor inflacionário ajudou a desovar estoques. A Sondagem Industrial, da CNI (Confederação Nacional da Indústria), aponta um terceiro recuo consecutivo na virada de dezembro de 2023 para janeiro de 2024, e “mais intenso do que é considerado normal para o período”. Conforme a entidade, o Índice de Evolução do Nível de Estoques ficou em 48,6 pontos e se encontra 0,6 ponto abaixo da média histórica dos meses de janeiro. O levantamento também mostra que a UCI (Utilização da Capacidade Instalada) do setor ficou em 68% no mês, avançando nas variações mensal e anual.

Câmbio e demanda

Em texto postado no site da Agência de Notícias IBGE, o analista do IPP, Felipe Câmara, observa que a evolução dos preços médios da indústria teve dois momentos distintos em 2023. E acrescenta que o resultado do ano precisa levar em conta a apreciação cambial acumulada, que amenizou o custo de importação de insumos, tornou os bens finais produzidos no exterior mais competitivos e reduziu o montante recebido em reais pelo exportador brasileiro

“No primeiro semestre vimos a continuidade de um processo que já era observado desde a segunda metade de 2022, com a consolidação de uma trajetória deflacionária disseminada. A partir de julho, no entanto, movimentos do mercado já sinalizavam que aquela conjuntura estava mudando. Os meses que se seguiram apresentaram alguma moderação inflacionária, com o IPP apresentando taxas positivas e negativas na passagem de mês a mês”, explicou. 

O pesquisador assinala que, após meses de corrida por composição de estoques frente à incerteza na capacidade de suprimento vigente e projetada, na segunda metade de 2022, com o redirecionamento de fluxos comerciais e revisão paulatina do desequilíbrio esperado entre oferta e demanda, a cotação de comodities chave para as cadeias industriais brasileiras entrou em trajetória de queda no mercado internacional. O movimento perdurou até o primeiro semestre de 2023, com posterior moderação na curva de preços.

“É o caso do barril de petróleo, e algo semelhante ocorreu com os fertilizantes e defensivos, itens da indústria química consumidos na lavoura. O preço internacional vem respondendo a uma procura mais branda e à redução nos custos de produção. Na perspectiva doméstica, a baixa expectativa em relação às safras tem contido a demanda”, analisou. “Os produtos de alumínio puxaram a queda da metalurgia por razões similares. O mercado esteve desaquecido frente à baixa atividade percebida e projetada nas cadeias consumidoras, algo que também se estendeu aos derivados da siderurgia”, emendou.

“Aumento de produção”

Em texto e vídeo distribuídos pela assessoria de imprensa da CNI, o gerente de Análise Econômica da entidade, Marcelo Azevedo, ressalta que a nova retração verificada no Índice na Sondagem Industrial de janeiro levou os estoques da indústria a um nível abaixo do planejado pelas empresas. Mas, avalia que essa não deixa de ser uma boa notícia para o setor, pois sinaliza para maior atividade nas linhas de produção

“Essa sequência de quedas dos estoques permitiu a eliminação de um excesso de estoques indesejáveis que limitam a atividade industrial. Com os estoques abaixo do nível planejado, percebe-se que a demanda foi um pouco acima do esperado pelos empresários. Além disso, eventuais novos aumentos da demanda no futuro vão ser atendidos por aumentos da produção, e possivelmente da atividade industrial, que terminou 2023 com queda. E não em uma nova retração nos estoques”, avaliou. 

Além da queda de estoques, a Sondagem Industrial da CNI aponta que emprego (49,4 pontos) e produção industrial (48,4 pontos) também apresentaram retração, “como é normal para o período”, mas em “menor intensidade do que em anos anteriores”. Na produção, os resultados foram diferentes, conforme o porte da indústria. “Embora todos os indicadores se posicionem acima de suas respectivas médias, o indicador para empresas de grande porte atingiu 51 pontos”, destacou o texto de divulgação da sondagem.

Os empresários demonstram expectativas mais otimistas do que o usual para os subíndices de compra de matérias-primas (55,2 pontos) e número de empregados (52,4 pontos). O primeiro se encontra 0,3 ponto acima do usual para o mês, enquanto o segundo está um 1,6 ponto além da mesma média. O índice de intenção de investimento (57,7 pontos) registrou avanço pelo quarto mês, e se encontra mais elevado que a média histórica. O indicador de expectativa sobre a quantidade demandada (56,1 pontos) também emplacou escore positivo, embora não no mesmo patamar.

Sem risco de repique

O presidente da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas) e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, disse à reportagem do Jornal do Commercio que a diminuição da inflação no setor já era esperada. No entendimento do dirigente, essa tendência tem se mantido nos últimos períodos e deve sem manter neste ano, em “gradativo ritmo”. Ele descarta, por outro lado, o risco de o ritmo de reposição dos estoques industriais ser suplantado pela demanda, gerando um eventual repique inflacionário. 

“O petróleo, basilar insumo da indústria de refino, foi o principal componente para a retração do indicador, haja vista que operou em queda durante a maior parte de 2023”, frisou. “Os indicadores industriais são um reflexo do panorama econômico. As perspectivas não indicam aumento dos preços no curto e médio prazo. Há um consumo desestimulado que necessita de aquecimento para incremento da atividade industrial. Temos observado uma melhoria nesse indicador, a meu ver, e os resultados devem apresentar uma retomada nos próximos meses”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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