5 de março de 2021

Indústria do PIM pode parar por crise no oxigênio

O apagão de oxigênio em Manaus pode acabar sufocando as atividades do PIM. A escalada da demanda hospitalar de pacientes com covid-19 rapidamente suplantou a oferta dos três fabricantes locais e a indústria incentivada está tendo dificuldades de repor estoques. A situação é agravada pelo fato de que parte substancial do Polo já se encontra praticamente sem o insumo, deixando de prontidão o segmento metalúrgico, assim como empresas verticalizadas dos subsetores eletroeletrônico e de duas rodas.

A demanda diária dos hospitais públicos e privados de Manaus é calculada em aproximadamente 76.500 metros cúbicos, e segue subindo. Em contrapartida, a capacidade fabril somada das três indústrias de cilindros de oxigênio instaladas na capital amazonense – White Martins, Carboxi e Nitron – não passaria dos 28.200 metros cúbicos diários, não sendo suficiente para atender nem a necessidade do setor de saúde isolada, quanto mais a combinação desta com a da indústria. 

Para contornar o déficit de oferta, o governo estadual e o Ministério da Saúde estão realizando a “Operação Oxigênio”, com o translado do produto de outros Estados brasileiros para a cidade. O esforço conjunto inclui a aquisição e instalação de miniusinas de fabricação de oxigênio. Duas delas, por exemplo, já foram instaladas no Hospital Delphina Aziz, na zona norte da cidade, mas há dúvidas se o alcance da produção será suficiente para evitar uma nova paralisação do PIM.

Em matéria da BBC News Brasil, o presidente da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), Antonio Silva, informou que a indústria incentivada de Manaus já cedeu todo o oxigênio que tinha em estoque para o sistema de saúde da capital amazonense para atender o déficit hospitalar local, em uma situação que o industrial considerou paliativa. Parte do material cedido decorreu de requisição administrativa do governo do Amazonas, na semana passada, envolvendo 17 empresas, mas algumas indústrias se anteciparam com doações.

À reportagem do Jornal do Commercio, o presidente da Fieam destaca que os segmentos metalúrgico e de metal – que abastecem os polos de duas rodas e eletroeletrônico do PIM – seriam os primeiras a parar, já que usam o oxigênio para corte e solda. Silva menciona entrevista concedida à coluna de Miriam Leitão no jornal O Globo, para reforçar que fabricantes que contam com presença em outros Estados, a exemplo da White Martins, poderiam deslocar excepcionalmente parte de sua produção ao Amazonas, neste período emergencial. “O oxigênio foi destinado para salvar vidas e esta é a prioridade. Mas, se a produção não for normalizada, as fábricas vão parar”, alertou.

Férias coletivas

Presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Manaus, e também vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo observa que, embora o oxigênio para uso humano seja diferente do industrial, conta com a mesma base fornecedora. O dirigente confirma que a situação é grave e atinge parte significativa das empresas dos segmentos representados pelo sindicato laboral, a ponto de algumas já cogitarem a possibilidade de adiantarem férias coletivas. 

“O problema é que ninguém sabe dizer quanto tempo essa situação toda vai durar. Essa situação da pandemia trouxe muitas dificuldades para a indústria e está tudo funcionando de forma precária. É claro que preferimos que a oferta de oxigênio atenda prioritariamente os hospitais, para salvar vidas. Mas, o fato é que essa situação toda está causando muita insegurança para o setor”, lamentou.   

O dirigente não soube precisar números, mas estima que a maior parte do parque fabril de Manaus corre o risco de parar pela falta de insumo, já que usaram a maior parte do oxigênio que tinham em um janeiro atípico de até três turnos em setores de algumas indústrias. Azevedo não soube estimar o tempo médio de autonomia do segmento metalúrgico, dado que a situação varia de empresa para empresa. 

“Posso dizer que nenhuma fábrica faz estoques elevados de matéria prima e todas trabalham de acordo com o seu próprio consumo. Mas, posso dizer que todos estão deficitários, dada essa situação. O oxigênio que tenho em minha empresa, por exemplo, vai durar apenas até esta sexta [22]. Não sei dizer o quanto essa oferta extra dessas mini usinas vai ajudar, mas creio que as fabricantes que temos vão passar por uma reestruturação para o aumento de capacidade”, destacou.

“Foco nas vidas”

O presidente da Eletros (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos), Jose Jorge do Nascimento, confirma que o estrangulamento na oferta de oxigênio fabril é motivo de preocupação para o segmento e afeta principalmente a produção de ar condicionado, cuja fabricação nacional está inteiramente concentrada em Manaus. O dirigente reforça que o foco do momento é salvar vidas e salienta que a indústria aguarda as próximas decisões do governo estadual quanto à normalização do fornecimento do oxigênio medicinal para Manaus. 

“Temos visto que têm chegado muitas miniusinas para hospitais da capital e interior, e que as doações de oxigênio continuam. Esperamos que o volume de pessoas contaminadas diminua e desafogue os hospitais, possibilitando o retorno do fornecimento normal às indústrias, no tempo mais curto possível. Caso isso não aconteça, as empresas devem tomar algumas ações que estão em discussão, como montar pequenas usinas de oxigênio industrial. Mas, isso requer tempo e investimento. O foco hoje é tentar minimizar os efeitos da crise sanitária”, concluiu.   

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