Indústria do Amazonas tropeça com a vazante, mas se mantém acima de 2022, aponta CNI

A indústria do Amazonas retrocedeu em quase todas as frentes, em setembro. Em sintonia com o começo da crise logística gerada pela vazante, e as férias coletivas em boa parte do PIM, o setor só avançou na massa salarial. Mas, a comparação com setembro de 2022 foi positiva em faturamento, produção e empregos, com exceção apenas do nível de uso da capacidade instalada das fábricas. No acumulado do ano, o único dado negativo vem das horas trabalhadas na produção. É o que revelam os números locais dos Indicadores Industriais da CNI, compilados em parceria com a Fieam. 

Conforme a sondagem, o faturamento real da manufatura do Amazonas encolheu 1% na variação mensal de setembro – que foi desfavorecida por três dias uteis menos. Mas, foi uma perda pequena diante do incremento de dois dígitos (+15%) contabilizado no levantamento anterior. A comparação com o mesmo mês de 2022 confirmou uma decolagem de 23,9%, sustentando o acumulado de 2023 no campo positivo (+20,1%). Na média nacional, as vendas líquidas recuaram 0,5% no mês, e ficaram 1,4% abaixo da marca do mesmo mês de 2022, além de retraírem 0,8%, em nove meses. 

Situação semelhante se deu nas horas trabalhadas nas linhas de produção fabril do Estado. Segundo a CNI, foi registrado um retrocesso de 7,4% para o subindicador, contribuindo para dilapidar metade do avanço de agosto (+14,4%). O confronto com igual intervalo do exercício anterior indicou variação positiva de 10,1%, mas acumulado do ano (-0,6%) não conseguiu sair do vermelho. Os respectivos números do nível de atividade da indústria em todo o país (-1%, -3,5% e -0,4%) foram todos negativos. 

A UCI (utilização da capacidade instalada) da indústria do Amazonas também tropeçou. A proporção de máquinas nas unidades fabris locais passou de 83,8% para 81,7% em relação ao mês anterior, configurando uma queda de 2,5% (2,1 pontos percentuais). A comparação com a média capturada em igual mês de 2022 (83,7%) indicou retração de 2 p.p. (-2,39%). Em nove meses, o nível de ocupação da capacidade instalada chegou a uma média de 82,9% no Amazonas e teve incremento de 3 p.p. (+79,9%). Além de ser mais baixo, o indicador nacional (78,1%) também ficou devendo ante agosto de 2023 (78,4%) e setembro de 2022 (80,3%).

Os números da CNI mostram panorama similar ao da pesquisa mensal do IBGE para a produção industrial. Nesta, o setor tombou 6,1% no Estado, entre agosto e setembro, performando o segundo pior resultado do país. Em relação a setembro de 2022, o decréscimo foi de 1,9%, graças ao desempenho negativo dos segmentos que carreiam o PIM – bens de informática, eletroeletrônicos e duas rodas. A manufatura amazonense ainda consolidou alta de 5% em nove meses, sendo favorecida também pelos derivados de petróleo, além dos subsetores de produtos químicos e de produtos de metal. 

Empregos e salários

Os indicadores relativos à mão de obra da indústria do Amazonas, por sua vez, indicaram desempenhos novamente contraditórios, na sondagem da CNI. A média do saldo de contratações no parque fabril do Estado retrocedeu 0,6% diante de agosto. Mas ainda foi catapultada em 24,7%, no confronto com igual período do exercício anterior, diante de uma base de comparação mais fraca – o período marcava a corrida eleitoral. Isso ajudou a encorpar o aglutinado de janeiro a setembro (+19,5%). Em contrapartida, os respectivos números brasileiros (-0,1%, +0,4% e +0,7%) foram pouco além da estabilidade.

Os dados da CNI contrastam com os do ‘Novo Caged’, que apontou criação de apenas 475 vagas formais no nono mês de 2023, em desempenho inferior ao de agosto (+747 vagas). Com isso, o acréscimo em relação ao estoque antecedente chegou a 0,61%. As contratações foram carreadas pela indústria de transformação (+438), que teve saldos positivos em 14 de seus 25 segmentos, sendo puxada principalmente pelas linhas de produção de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (+395). Em nove meses, os empregos formais da manufatura amazonense avançaram 2,14% (+2.599)

A pesquisa dos Indicadores da CNI índica, por outro lado, que o tropeço nas contratações veio acompanhado por um novo avanço da massa salarial em todas as comparações. A elevação mensal foi de 3,2%, somando-se à elevação de julho (-4,4%). A soma dos vencimentos dos trabalhadores ganhou mais musculatura em relação ao mesmo mês de 2022, com uma nova alta de dois dígitos (+24,5%). De janeiro a agosto, o saldo ainda já aumentou para 19,6%. A indústria nacional (+1,5%, +3,1% e +3,1%) também progrediu em todos os cenários estatísticos.

Em texto da Juros e inadimplência

assessoria de imprensa da CNI (Confederação Nacional da Indústria), ao comentar os números da pesquisa dos Indicadores Industriais, a economista da entidade, Larissa Nocko, assinalou que os “juros elevados” continuam como um “importante fator” de desaceleração da indústria brasileira. “Apesar do início dos cortes da taxa básica de juros, ela permanece exercendo um papel restritivo sobre a economia, contribuindo para um ambiente de crédito bastante desfavorável”, ressaltou.

A economista lembra ainda que o nível de endividamento e de inadimplência das famílias e a taxa média de juros das operações de crédito estão “bastante elevados”, o que acaba brecando as vendas do setor. “Esperamos uma redução das concessões de crédito às empresas neste ano, em termos reais, e um crescimento fraco das concessões aos consumidores, o que já vem repercutindo sobre uma demanda bastante enfraquecida”, analisou.

“Questões estruturais”

Em entrevistas recentes à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, reforçou que o estudo dos Indicadores conta com amostragem local “pequena”, contribuindo para que os dados regionais sinalizem mais uma “tendência do setor” do que “números consolidados”. O dirigente ressaltou que o problema detectado nos números da sondagem da CNI está mais pautado em questões estruturais do segmento industrial, muito embora a seca recorde tenha auxiliado no decréscimo dos indicadores. 

“Esses efeitos devem se refletir, ainda, nos números de outubro e novembro, apresentando estabilidade apenas em dezembro. A utilização da capacidade instalada segue tendência de queda desde 2021. Esse indicador, aliado ao recuo nas horas trabalhadas, demonstram a perda de competitividade da indústria. Os dados evidenciam um cenário de estagnação do setor, após um período de retomada pós-pandemia”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
Compartilhe:​

Qual sua opinião? Deixe seu comentário