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Indicador de Endividamento e Inadimplência das Famílias de Manaus mostra nova redução 

O número de endividados em Manaus voltou à trajetória de queda, em junho, após o repique do mês anterior. Ao menos 539.158 famílias da cidade, ou 81,2% do total, estavam com contas a vencer, no mês passado. Foi uma marca pouco abaixo das registradas em maio de 2024 (81,7% ou 541.935) e junho do ano passado (86,7% ou 568.307). Os números locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), medida pela CNC, confirmam que o vilão do endividamento ainda é o cartão de crédito, principalmente para o consumidor com renda familiar superior a dez salários mínimos. 

A base de dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo também mostraram redução na quantidade de famílias locais inadimplentes e insolventes, mas os índices permanecem acima do patamar de um ano atrás. A parcela de consumidores com contas atrasadas encolheu pelo quarto mês seguido, ao passar de 48,6% para 47,3%, somando 314.026 famílias nessa situação. A proporção é maior do que a de junho de 2023 (43,6% ou 285.571). A mesma dinâmica se deu na fatia de consumidores sem condições de pagamento, que responde por 19,3% (132.855).

Mais uma vez, a capital amazonense teve comportamento diferente da média nacional do indicador. O percentual de famílias brasileiras com dívidas a vencer em meios de pagamentos diversos interrompeu três meses de altas para estancar em junho, em 78,8%. O percentual ficou pouco acima do contabilizado 12 meses atrás (78,5%). A mesma dinâmica foi percebida na parcela de inadimplentes (28,6%). Já a fatia de consumidores sem fôlego para pagar (12%) ficou rigorosamente igual em todas as comparações. A CNC avalia que os números foram impactados pela maior cautela do consumidor, com a previsível exceção do Rio Grande do Sul.

O relaxamento da Peic em Manaus ocorre em meio ao quarto mês de reforço da ICF (Intenção de Consumo das Famílias), levantada pela mesma CNC. A expansão foi sustentada por melhora na percepção sobre renda, emprego, acesso a crédito e propensão de comprar bens duráveis. Apurado pela mesma entidade, o Icec (Índice de Confiança do Empresário do Comércio) também progrediu. Em meio às vendas do Dia dos Namorados, os lojistas melhoraram a avaliação sobre o momento presente e, apesar da iminência de uma nova seca severa, demonstram mais expectativas de contratar.

Cartões e carnês

O cartão de crédito diminuiu sua participação no bolo das dívidas, mas ainda é o motor do endividamento em Manaus, em sintonia com a praticidade, apesar dos custos. Respondeu por 67,7% das dívidas locais – contra os 69,6% de fevereiro – e, disparado, seu uso é ainda maior entre as famílias de maior renda (89,1%). Conforme a Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), apesar das reduções gradativas no ritmo da taxa Selic, esse ainda é o meio de financiamento mais caro do país, com juros mensais de 14,42% (ou 403,53% por ano).

Os carnês (56,8%) também reduziram sua fatia entre os débitos das famílias da cidade e mantiveram a vice-liderança. Mas, têm leve preponderância entre os que recebem menos (57,2%). Na sequência do ranking estão o crédito pessoal (11%), “outras dívidas” (7,8%), financiamento de carro (7,4%), crédito consignado (5,5%) e financiamento de casa (3,5%). Dono da segunda maior taxa de juros da lista da Anefac (7,65% no mês e 142,20% no ano), o cheque especial responde por 4,8% das dívidas. Invenção brasileira, o cheque pré-datado (0,2%) também vem perdendo adeptos e só é usado pelos mais pobres.

Conforme a CNC, o percentual de consumidores de Manaus que se dizem “muito endividados” subiu de 16,3% para 18,1% ante maio, sendo essa agora uma condição mais comum entre as famílias de maior renda (19,5%). A fatia dos “mais ou menos endividados” (17,4%) diminuiu e é maior no segmento de menor renda familiar (21,3%). Os “pouco endividados” (45,7%) ampliaram ainda mais sua maioria, especialmente entre os que ganham menos (46,3%). 

Em média, as famílias endividadas de Manaus devem levar 29 semanas para quitar seus compromissos. O grupo dos devedores com mais de um ano de compromissos pendentes (28,8%) caiu e já está pouco acima da parcela das famílias locais com até três meses de compromissos financeiros (28,3%). Na média, os consumidores da cidade têm 30,8% de sua renda comprometida por dívidas. Mas, 26,3% gastam mais da metade do que ganham e 48% consomem de 11% a 50% de seus vencimentos.

Nada menos do que 58,2% dos endividados locais já está inadimplente, pouco menos do que no levantamento anterior (59,6%). Apenas 26,5% garantem que conseguirão quitar o compromisso integralmente no próximo mês – contra os 21,9% apurados em maio. Há mais consumidores de Manaus que estimam que vão pagar parcialmente (32,1%), mas a maioria ainda assume que vai continuar devendo (40,8%). Em média, as dívidas estão atrasadas há 61 dias, sendo que o grupo de famílias pendentes por mais de 90 dias (41,8%) é o majoritário.

Estiagem e cautela

O presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas), Aderson Frota, concorda que os números de Manaus contrastam com os da média nacional, mas vê nisso mais um efeito da oferta do que da demanda. “Pesou muito o efeito da estiagem no desabastecimento e nas vendas. Não obstante, acredito que a recuperação do consumidor vai demorar, porque o nível dos juros ainda está difícil de ser absorvido pela média dos trabalhadores, que ganham menos. Esperamos que a economia vá aos poucos, voltando ao normal. Mas, temos a vazante deste ano, que poderá desestruturar toda essa cadeia de expectativas”, ponderou.

Texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC aponta que o resultado sinaliza estabilização da demanda por crédito pelas famílias, em função de maior cautela para não acumular dívidas. “A manutenção do índice de endividamento revela certa preocupação com a inadimplência por parte das famílias, que têm aproveitado o momento para amenizar as dívidas, em vez de fazer novos compromissos”, destaca o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros.

O mesmo texto também revela impactos da crise climática no Rio Grande do Sul no levantamento e destaca que, sem os dados do Estado, o endividamento teria recuado para 78,4%. “Apesar da alta de 0,4 p.p. do endividamento no Estado, a inadimplência diminuiu 0,2 p.p. no mês, mostrando que, mesmo com a tragédia, as famílias continuaram com capacidade de honrar os seus compromissos. Esse efeito indica que as medidas de apoio ao Rio Grande do Sul começaram a surtir efeito na prática, trazendo algum alívio ao orçamento das famílias gaúchas”, encerrou o economista-chefe da CNC, Felipe Tavares.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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