A história do jornalismo impresso em Manaus é antiga, tanto que uma das principais preocupações de João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha, primeiro presidente da província do Amazonas, foi montar um jornal, o “Cinco de Setembro”, em 1851. A província só seria instalada oficialmente no ano seguinte. Desde então, Manaus nunca ficou sem jornais, fossem semanais ou diários, com vários títulos se revezando ao longo das décadas, tivessem muitos, poucos ou nenhum leitores. Mas, sempre havia notícia.
Dois personagens entrevistados pelo Jornal do Commercio estão beirando um século de vida, ainda lúcidos e lembrando de fatos de sua juventude como se tivessem acontecido ontem: Rubem Morião, 96 anos, e Neuza Freire de Araújo, 98. Eles representam bem essa dicotomia do ler e o não ler jornais, sobre a qual os jornais impressos passam ao largo.
Rubem e Neuza moram no asilo Dr. Thomas e sua trajetória de vida demonstra como, de formas diferentes, as pessoas podem absorver as informações, com ou sem tecnologia, com ou sem jornais.
Rubem Morião nasceu no Rio de Janeiro e veio para Manaus, pela primeira vez, na década de 1950 atrás de um irmão que viera para cá. Na época, Rio e Manaus possuíam culturas bem diferentes, tanto que Rubem estranhou bastante a cidade atrasada e suja, onde faltava tudo, diga-se de passagem, energia, “e as mulheres suburbanas e mal vestidas, eram o oposto das avançadas cariocas”, disse.
Um costume, porém, Rubem trouxe do Rio e manteve em Manaus: ler jornais diariamente. “Meu pai era pedreiro. Nós éramos muito pobres. Ele trabalhava de dia para comprar comida à noite, mas não faltavam jornais em casa. Diariamente ele lia os jornais e eu adquiri esse hábito com ele. Lia ‘A Noite’, ‘Diário da Noite’ e ‘A Notícia’, entre outros. Em Manaus, a primeira coisa que fiz foi procurar os jornais que existiam na cidade, para ler”.
Rubem encontrou o irmão e retornou para o Rio Janeiro, mas voltou outras vezes à capital amazonense até ficar aqui, em definitivo, há seis anos. Até hoje mantém o hábito de se informar através da imprensa escrita. “Não tem negócio de rádio ou televisão. Gosto mesmo é de ler jornal. Sou assinante de um e leio diariamente”, disse.

Nunca leu jornais
Neuza Freire é bastante eloquente, possuindo uma boa memória para datas de fatos que aconteceram na sua longa vida. Nasceu em Benjamin Constant, num local banhado pelo rio Itacoaí, até hoje uma das regiões mais inóspitas do Amazonas.
Com dez anos já estava em Manaus, de onde foi para o Ceará e só voltou quando tinha 28 anos, em 1943, “no caritó”, contou ela, como se dizia na época das moças que passavam dos 20 anos sem casar. “Mas casei em Manaus com um homem que conheci na viagem para Manaus. Sete meses depois ele morreu e eu fiquei viúva até hoje”, lembra, rindo da própria sorte, ou falta dela.
Neuza recorda que chegou a Manaus no dia 31 de dezembro de 1943 e no dia 9 de janeiro de 1944, casava na catedral. Diferente de Rubem, não lia jornais. Ficava sabendo das notícias através do boca a boca e nunca se interessou em ler jornais. “Lembro do primeiro carro que vi quando cheguei a Manaus, de cor azul. Dizem que era do governador. Lembro dos bondes. Da Sapataria Onça onde o sapato custava 40 mil réis. Tudo era bom e barato”.
Sabia que acontecia uma guerra, muito longe, mas os detalhes não lhe interessavam; depois soube do caso Delmo, um crime bárbaro que abalou Manaus em 1952, e que chegou aos seus ouvidos através dos vizinhos; o golpe militar de 1964, a chegada do homem à Lua, em 1969; a conquista da Copa do Mundo pelo Brasil, em 1970; a volta da democracia ao país em 1985; a popularização do computador na década de 1990; o novo milênio; a crise econômica mundial em 2008. Tudo Neuza ficou sabendo através dos ouvidos, pelos vizinhos e pelo rádio. “Só ouço a rádio Rio Mar, há muito tempo”, informou.
Sobre o computador Neusa prognosticou: “ele substituiu a máquina de datilografia, não foi? Mas um dia ele vai ser substituído também”.

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