17 de maio de 2021

Muitos dos animais que “representam” os times de futebol ou até mesmo personalidades são frutos da jocosidade ou tentativa de ofensa pura e simples ocorridos na origem. Algumas mascotes também são homenagens. Diversos times europeus e asiáticos têm entre suas mascotes cavalo, cachorro, jacaré, coruja, veado. No Brasil a incorporação de alguns animais se deu por puro cansaço de rebater as ofensas. O Palmeiras, que tinha somente o periquito como sua mascote, adicionou o porco, que deixou de ser xingamento e foi homenageado, porque representa muito da cultura de seus fundadores. Do porco é extraída a popular mortadela, tão consumida entre os imigrantes italianos, principalmente. Igualmente o xingamento racista de urubu, representando o grande número de torcedores negros do Flamengo foi aceito com certa relutância. Da mesma forma o político Gilberto Mestrinho, depois de perseguir por anos o escritor Márcio Souza, resolveu adotar a alcunha de Boto, criada pelo escritor de maneira nada elogiosa. Fez dela sua marca maior e teve sucesso.  

Contudo, um jogador de um time catarinense ao fazer pose de arqueiro, quer fosse para imitar o corredor jamaicano Usain Bolt ou um índio disparando uma flecha que provocou os brios amazonenses provocando uma enxurrada de gente ao estádio, quando aqui se apresentou, torcendo pela derrota do time adversário. O amazonense que faz questão de se inspirar na coragem do índio Ajuricaba ou outros não gosta da alusão aos primeiros habitantes da região. Embora se identifique com os manaós, barés, mawê ou demais, ofende-se quando uma pessoa de fora lhe lembra das origens. 

Há uma linha muito fina separando a homenagem do pejorativo. Todos veem como uma homenagem no nome Guarani, para designar o time de Campinas ou do estádio Índio Condá na branquelíssima Chapecó mas, estes mesmos, veem como pejorativo o gesto do jogador de Brusque empunhando um arco imaginário.  

Se o gentílico “índio” fosse adotado pelo amazonense, como Macuxi em Roraima, Potiguar, no Rio Grande do Norte com certeza traria muito menos polêmica que “barriga verde” que os catarinenses ostentam com tanto orgulho. Também existe o gaúcho, cujo sentido literal designa a mesclagem de raças, que o povo dos pampas adotou e alardeia como seu. 

Todos os povos têm a sua história que merece ser contada e representada por símbolos. Se duas mascotes, como no caso do Palmeiras e do Flamengo, representam animais sujos, com um agravante para o urubu que sobrevive de imundície e não serve para alimentação, recebem homenagem, que não dizer de um símbolo humano? Os povos contam e cantam suas origens, o que está acontecendo com louvor no Amazonas. O ranço da discriminação da invasão branca nas Américas está presente na mente dos que se consideram injustiçados, na maioria das vezes, com razão. A pouca valorização dos nativos é lembrada toda vez que se tenta estabelecer diferenças nas origens.  

O passado deve ser lembrado com espirito de perdão. Se os negros e os índios fossem querer ressarcimento por tudo que sofreram, não haveria harmonia, nem aqui, nem em nenhum lugar das Américas. Por outro lado, se os alemães não superassem a loucura do seu líder maior, que nos deixou há quase oito décadas, não poderia haver progresso.  

Todo final de ano prometemos passar uma borracha nos erros do passado com os votos de sermos melhores no futuro. O ano termina e o ano novo deve ser recebido com muitas homenagens. 

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