4 de julho de 2022
Prancheta 2@3x (1)

“Hoje temos uma economia desequilibrada”

Na próxima segunda-feira (19) o economista Osiris Silva irá lançar o livro “Economia do Amazonas – visões do ontem, do hoje e do amanhã”, no qual discorre sobre os quase 50 anos da Zona Franca e de outros segmentos da economia amazonense com o conhecimento de quem há décadas dá opiniões, mas não consegue ser ouvido por governantes. Em entrevista ao Jornal do Commercio, o economista falou sobre outros assuntos e voltou a mostrar caminhos para o Estado se desenvolver.

Jornal do Commercio: Qual será a importância de seu mais novo livro “Economia do Amazonas – visões do ontem, do hoje e do amanhã”, no atual cenário da economia do Estado e do país?
Osiris Silva: O livro envereda por recônditos meandros da economia estadual procedendo análise crítica, porém construtiva, da evolução da política de incentivos fiscais inaugurada com a instituição da ZFM (Zona Franca de Manaus), em 1967. Vai fundo sobre os erros do chamado “modelo ZFM”, dentre os quais, o mais grave, o de não ter sido observada a premissa básica do DL 288/67, que preconiza, logo em seu Art. 1º, a instalação de uma área de livre comércio de importação e exportação e de incentivos fiscais especiais, estabelecida com a finalidade de criar no interior da Amazônia um centro industrial, comercial e agropecuário.

Como se está cansado de mencionar, a Zona Franca se desenvolveu concentrada no setor secundário e terciário da economia, o PIM (Polo Industrial de Manaus) e o setor de serviços. O estratégico e importantíssimo setor primário -agropecuário -foi simplesmente esquecido. O resultado é que hoje temos uma economia desequilibrada, dependente em cerca de 95% das atividades geradas na capital amazonense, fenômeno que produziu um tremendo vazio no interior do Estado.

JC: A Zona Franca de Manaus ainda pode ser chamada assim, ou ela se descaracterizou ao longo dos seus quase 50 anos de existência?
OS: Descaracterizou-se seriamente a partir do desequilíbrio anteriormente apontado. Num quadro conjuntural de recessão da economia, o PIM vem sofrendo seriíssimas baixas nos seus níveis de produção, faturamento e emprego. Nesses cerca de três anos de depressão econômica, já perdeu mais de 60 mil empregos.

Outro tanto deve ter se perdido no estratégico setor da construção civil, isto sem falar na crise que vem afetando seriamente o comércio e os serviços. De cerca de 500 mil empregos mantidos em Manaus (diretos e indiretos), pelo menos metade deve haver se esvaído em função da crise que vem sangrando gravemente o país.
Por conseguinte, o modelo integrado, compartilhado entre a indústria, o comércio, os serviços e a agropecuária, não se configurou. O Amazonas hoje depende basicamente do PIM.

JC: Por que as descobertas realizadas pelos pesquisadores do Inpa e da Embrapa não são transformadas em negócios para o Amazonas e até para o país?
OS: O Inpa, a Embrapa, as Universidades e outros centros de pesquisa instalados na região existem para pesquisar. Pesquisa é um ativo que pode se concretizar em cinco ou em 30 anos, ou sabe-se lá quando. É assim que funciona no mundo desenvolvido. O fato é que precisa de um ponto de partida, de um começo, porque o fim um dia vai despontar no horizonte do mundo científico. Os avanços tecnológicos ocorrem nesse ritmo. Para que se verifique, contudo, o investimento precede todas as ações subjacentes ao processo. Sem investimentos, com absoluta certeza, não se terá resultado algum, nunca, jamais.

JC: O que está faltando para as empresas locais produzirem e exportarem para o Brasil e o mundo? Nos falta a cultura do empreendedorismo?
OS: Também, mas basicamente desenvolvimento de tecnologia. O PIM é preponderantemente constituído de indústrias subsidiárias que vieram para Manaus atraídas pelos incentivos fiscais com vistas ao abastecimento do mercado nacional. Exportação nunca foi uma prioridade para os diversos setores aqui instalados. Quem exporta são suas matrizes no Japão, Coreia do Sul, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, França, China. São precisamente os países líderes da produção tecnológica mundial. Por isso dominam os mercados nos cinco continentes. O Brasil se distancia desse pelotão a cada ano. Idem, a Zona Franca de Manaus.

JC: Na sua opinião, qual produto deveria ser o carro-chefe do Amazonas, o turismo, por exemplo?
OS: Turismo é um dos campos potenciais, mas também esbarramos na questão dos investimentos em infraestrutura, em formação de pessoal, em destinos turísticos. Temos as mais belas praias do mundo, mas o Brasil recebe não mais de cinco milhões de turistas por ano. Portugal e a Flórida, por exemplo, recebem mais de doze milhões cada um. Qual o segredo? Nenhum. Basta que se ofereça serviços, comunicação, transporte adequado, segurança para que o turismo se desenvolva. Quem conhece o Caribe, Miami, Lisboa, as belas cidades portuguesas, francesas, espanholas ou gregas, sabe do que estou falando. Por outro lado, o que temos a oferecer em Manaus, particularmente? O encontro das águas, o Teatro Amazonas, a simpatia do povo local, alguns restaurantes de qualidade mediana, preços exorbitantes, e praticamente mais nada. A Tailândia, o Vietnam, Hong Kong, Cingapura são grandes destinos turísticos emergentes exatamente porque priorizaram investimentos nesses campos. Turismo é estruturalmente serviço de qualidade, que assegure conforto e segurança: bons hotéis, restaurantes, atrações, parques, atividades culturais, cassinos, vida noturna. Sem essas precondições o turista até um dia vem, mas não retorna. Enquanto isso o turista vai a Orlando, à França, à Itália, à Alemanha, à Nova York tantas vezes seu bolso permita.

JC: Qual o seu estado de espírito com relação à economia do país?
OS: De muita cautela e pouco ânimo para acreditar em mudanças significativas tão cedo. O Brasil é dotado de uma economia instável por excelência, quadro resultante, basicamente, de um sistema político inconfiável, que fragiliza as instituições e desmoraliza a nação no concerto internacional. Além do mais, vítima de uma quadrilha de bandidos que vem saqueando há décadas o governo e as empresas estatais em proporções antes jamais vista neste país. Esse é um grave fator de fragilidade perante os investidores estrangeiros, de fundamental importância à atração de capitais para o desenvolvimento.

O Brasil foi vítima de um sistema político que priorizou ranços ideológicos superados e improdutivos, de tal sorte que chegamos a acumular um deficit fiscal da ordem de R$ 172 bilhões só em 2015, a Petrobras chegou a um endividamento superior a R$ 500 bilhões, a Previdência Social acumula um passivo que deve superar R$ 90 bilhões até o final deste exercício, enquanto a dívida pública, que o governo Lula da Silva gabou-se de haver zerado, mas que, ao contrário, até o final de 2016 deve chegar a R$ 3,3 trilhões, segundo estimativas do Tesouro Nacional.

O que esperar, no curto prazo, de um país tão espoliado no cerne da economia e das finanças públicas? Ter fé e persistir no afã de que um dia possamos mudar esse quadro de adversidades e reconstruir o país via a promoção de reformas estruturais e de depuração do quadro político nacional.

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