Guloseimas dos tempos de criança

Qual criança não gosta de uma guloseima? E precisa ser doce, senão não tem graça. Nos tempos em que o açúcar ainda não era um vilão, há uns 30, 40 anos, as guloseimas faziam a alegria de meninos e meninas, por isso ficaram marcadas na lembrança de quem as deliciou por anos, sem medo se ser feliz. Era tempo de quebra-queixo e de cascalho que era levado dentro de um tubo de alumínio com o vendedor batendo um triângulo para avisar de sua aproximação.

Outros doces muito queridos eram o pirulito enfeitado com bandeirinhas coloridas pregadas num palito; a broa, que na primeira mordida esfarelava-se toda deixando a boca e a mão esbranquiçados pelo polvilho do qual o doce era feito e o puxa-puxa, um doce de leite enrolado em papel de embrulhar pão (que nem existe mais hoje em dia), o qual ia-se abrindo e comendo o doce.

Todos esses doces estão na memória do pesquisador e secretário geral do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), Geraldo dos Anjos, desde a década de 1960. “Minha mãe não deixava nem eu, nem meus irmãos comermos nenhum deles. Ela dizia que não sabia como tinham sido feitos. Até hoje eu evito comê-los, quando os vejo sendo vendidos na rua. Meu pai é quem comprava e levava pra gente. Mas ela não gostava”, lembrou.

O quebra-queixo praticamente sumiu das ruas de Manaus. O cascalho e a broa ainda hoje podem ser encontrados, agora vendidos nas esquinas dentro de sacos plásticos. O cascalho perdeu o romantismo do triângulo sendo batido pelo vendedor. Já o pirulito, uma guloseima de açúcar endurecido, com vários deles enfiados na chamada ‘tábua de pirulito’, um tabuleiro onde o doce ia acondicionado, e o puxa-puxa, sumiram por completo. “Ainda tinha o ‘rala-rala’. Gelo ralado misturado com sucos artificiais de cores berrantes. Um dia desses vi um rala-rala no arraial do Parque 10”, informou.

Custavam moedinhas de centavos
O livreiro e advogado Celestino Neto viveu sua infância na Cachoeirinha, e parte na Vila Mamão, no início da década de 1970. Menino de família humilde, são exatamente esses os que mais têm acesso às guloseimas vendidas nas ruas. “Lembro do ‘cascalheiro’, o vendedor de cascalhos, cujo toque do triângulo era ouvido à distância, e toda a molecada das imediações corria pra comprar o seu. Os cascalhos vinham dentro de um tubo de flandres, um tipo de alumínio, que o ‘cascalheiro’ carregava preso às costas”, recordou.

“As broas eram vendidas num tabuleiro e o vendedor nos entregava embrulhada num papel, ou se fossem várias, num saco de papel. Não se via nada de plástico naqueles tempos”, contou. “Tinha o pirulito, vários enfiados nos buracos de uma tábua, todos enfeitados com bandeirinhas coloridas. O apelido de meu pai era Pirulito, até hoje não sei porque. O pirulito nada mais era do que açúcar queimado, endurecido, no formato de um cone fino. Quando uma pessoa aparecia, assassinada com vários tiros, o noticiário dizia que o corpo parecia tábua de pirulito”, lembrou.

Quanto aos picolés, Celestino diz que os da sua infância eram melhores que os de hoje. “Eram feitos com frutas regionais mesmo: bacaba, patauá, açaí. Nem sei se os de hoje são da fruta. As pessoas de agora não sabem nem o que é bacaba ou patauá. Os ‘picolezeiros’ eram vistos por todas as ruas de Manaus e muita gente criou a família vendendo picolés”, garantiu.

Já o quebra-queixo, como o pirulito, também não passava de açúcar queimado, porém, não endurecido, mas era pastoso, tanto que o vendedor levava uma espátula para cortar o pedaço da guloseima misturada com castanha e coco. “E era complicado comer porque colava os dentes, mas era gostoso. Hoje só sei de um vendedor de quebra-queixo que vende ali pelas ruas do centro. Sei que ele formou filhos na faculdade só vendendo quebra-queixo”, disse o livreiro.

Celestino lembrou que todas essas guloseimas custavam moedinhas de centavos e qualquer um podia comprá-las. “E ainda tinha o ‘rala-rala’. Hoje tem umas máquinas modernas, mas lembro de uma, parece uma plaina grande, que o vendedor ralava o gelo e jogava no copo misturado com os vários sucos coloridos que levava nas garrafas. Era Ki-Suco, uma ‘porcaria industrializada’ que ficou no imaginário dos meninos daqueles tempos”, riu.

“Gostava era de rala-rala”
O músico, compositor, professor e maestro Adelson Santos foi criança, no bairro de Aparecida, na década de 1950. Naquela época já existiam as mesmas iguarias provadas por Celestino, uns 20 anos depois, porém, com algumas diferenças. “Os terrenos das casas de antigamente eram muito grandes, com muitas árvores frutíferas, então os meninos cresciam comendo cajus, graviolas, goiabas, taperebás e muitas outras frutas que, se não tinham no terreno da sua casa, tinham no dos colegas. Nossas mães também faziam doces com essas frutas. Na minha casa, por exemplo, sempre tinha doce na geladeira”, recordou, “sem falar que das castanhas de caju, fazíamos paçoca”, completou.

Estarem ‘fixos’ facilitou para os vendedores, mas apagou algo de romântico para os mais velhos. “Hoje os vendedores de guloseimas ficam nas esquinas das ruas movimentadas vendendo seus produtos, mas antigamente eles andavam pelas ruas e como, naquela época, a molecada ficava mais livremente na rua, eles logo eram vistos”, disse o maestro.

“Era tudo muito bom, mas o que eu mais gostava mesmo era o ‘rala-rala’, feito com o suco de várias frutas, também da época, cupuaçu, graviola, groselha. Tinha diversos sabores, mas esses eram o que eu mais gostava. Manaus já era uma cidade quente, por isso eram tão gostosos, pena que acabava logo”, lamentou Santos.

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