Grupo preocupa-se com o futuro do encontro das águas

“Nesse mesmo dia, saindo d’ali, prosseguindo a nossa viagem, vimos uma boca de outro grande rio, à mão esquerda, que entrava no que navegávamos, e de água negra como tinta, e por isso lhe puzemos o nome de Rio Negro. Corria ele tanto e com tal ferocidade que em mais de vinte léguas fazia uma faixa na outra água, sem misturar-se com a mesma”.

Assim frei Gaspar de Carvajal descreveu a descoberta do encontro das águas, em 1542, durante a viagem de reconhecimento do rio Amazonas pelo espanhol Francisco de Orellana. Na década de 1960 o fenômeno natural de tornou um atrativo turístico e um dos cartões de visita de Manaus e tem sido assim até os dias de hoje.

Há quase dez anos, em novembro de 2010, o encontro das águas foi tombado como patrimônio cultural e natural pelo Iphan (Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), mas desde então empresas do segmento portuário vêm contestando esse tombamento cuja decisão está parada no STF (Superior Tribunal Federal).

“A sociedade civil organizada do Amazonas, por meio do ‘Movimento SOS Encontro das Águas’, conseguiu uma grande vitória quando, no dia 22 de setembro de 2011, obteve garantias efetivas do tombamento do encontro das águas como patrimônio nacional, bem longe da trama urdida que pretendiam, e pretendem até hoje, alguns empresários e políticos irresponsáveis que querem construir um espigão portuário, um monstrengo horrível, no nosso cartão postal”, falou o professor, antropólogo, coordenador do Projeto Jaraqui e do Núcleo de Cultura Política do Amazonas, do Departamento de Ciências Sociais da UFAM, Ademir Ramos, um dos coordenadores do Movimento.

Não ao porto

O interesse das empresas portuárias pela região do encontro das águas começou dois anos antes do tombamento, pelo qual, por enquanto, está assegurada a proteção dos 10 quilômetros contínuos do fenômeno, além dos 30 quilômetros quadrados do seu entorno.

“Em fevereiro de 2008, a Log-In Logística Intermodal S/A e a Juma Participações S/A (Grupo Simões), duas empresas brasileiras, com apoio do então governador Eduardo Braga, decidiram propor a implantação de um terminal privativo de uso misto denominado ‘Terminal Portuário das Lajes’. Assim foi criada a Log-In Logística Intermodal S.A, a principal interessada na construção do espigão portuário no frontal do encontro das águas. A região foi escolhida não por critério técnico, mas porque a Juma Participações S/A é a proprietária do terreno”, detalhou Ademir.

Ainda segundo Ademir, o projeto nasceu enviesado, de forma imoral, pois os principais interessados, os moradores do entorno dos municípios do Careiro da Várzea, Iranduba e dos bairros de Manaus, Colônia Antônio Aleixo, Mauazinho, Puraquequara e Distrito II, só foram consultados quando a construção do porto já estava decidida pelos interessados.

“Esses moradores, principalmente, os da Colônia Antônia Aleixo, em audiência pública no dia 19 de setembro de 2008, com a participação de mais de 500 pessoas, disseram não à construção do porto e justificaram suas razões”, lembrou.

“O que essas pessoas queriam, e querem, é uma ação articulada do Governo do Estado com a Prefeitura de Manaus que promova a economia solidária do entorno do encontro das águas, mobilizando canoeiros, guias turísticos, pescadores esportivos, artesãos, incentivando a construção de pousadas e cafés da manhã, em terra firme, e flutuantes, além de equipamentos básicos para assegurar a economia solidária naquela região”, completou.

Dez anos depois

O ‘Movimento SOS Encontro das Águas’ nasceu em setembro de 2008 sustentado por moradores da Colônia Antônia Aleixo com a participação da associação dos moradores, clubes de mães, Morhan (Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase) articulados com UEA e Ufam, e tendo o apoio das igrejas, sobretudo dos párocos da região, mais o Sares (Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental) e demais representações assentadas no Fórum das Águas do qual o ‘Movimento SOS Encontro das Águas’ participa. O Movimento reúne também escritores, operadores do direito, jornalistas, comunicadores, educadores, parlamentares e empreendedores.

“Para nós é um grande pesadelo imaginar um porto construído naquela região. Além de ferir e violentar o paisagismo do colossal encontro das águas, provocará tamanho dano nos recursos ambientais tanto na flora quanto na fauna. O tombamento é uma estratégia de salvaguardar este corpo d’água vivo e esplêndido no presente e para futuras gerações. Por esta razão solicitamos do STF, e especificamente da relatora ministra Cármen Lúcia, esclarecimentos a respeito do trâmite das ações pertinentes à Reclamação (RCL) 12.957 Amazonas, informando à ministra que 2020 é o ano de celebração dos dez anos de tombamento do fenômeno”, concluiu.

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