O Português EM GOTAS tem como objeto de estudo a língua portuguesa e enfatiza assuntos voltados à gramática. Isso, no entanto, não nos impede de passearmos pela seara da literatura. Não proponho aqui escansão de versos ou algo desse estilo, e sim um mergulho cheio de curiosidade, mas na superfície, sem cilindro de oxigênio nem escafandro.

ELISÃO X CRASE

A metrificação é a forma utilizada na poesia para a medição de versos. Ela é feita mediante a escansão – que consiste na contagem dos sons e dos versos a partir da elevação de ritmo ou tonicidade das palavras. Em se tratando de poesia, a medição conta com alguns recursos. Citaremos dois deles. Elisão: supressão da vogal final átona quando esta estiver diante da vogal que inicia a palavra que se segue. Crase: fusão de vogais iguais. Mas, afinal, qual o objetivo desses recursos poéticos? Ora, meus caros, escrever poesia é coisa séria, meticulosa! Para ser bela, harmônica, requer melodia, graça, estilo. É como se fosse um bailado em que os dançarinos precisassem de equilíbrio, jogo de cintura. Aí é que entram os dois recursos acima, eles darão maleabilidade à métrica, deixando as palavras muito bem-casadas e com a melodia exata. Vamos aos exemplos. Ex: 1. Elisão. “o-fer-ta-me ao-me-nos um-co-po-de á-gua” (elisão: supressão da vogal “e” em “co-po-de água” => “co-po-d’á-gua”). 2. Crase. “Cho-ra-rei  -to-da a-noi-te” (crase: fusão entre os “as” em “to-da a noi-te” => “to-da noi-te”). Esses recursos, assim como outros, servem para  aprimorar a métrica, ofertando leveza, cadência aos versos.

LICENÇA POÉTICA

De acordo com o dicionário Houaiss, o termo “licença poética” é definido como a “liberdade de o escritor utilizar construções, prosódias, ortografias, sintaxes não conformes às regras, ao uso habitual, para atingir seus objetivos de expressão”. A licença poética está presente na literatura; na música e também nas propagandas. Assim, pode-se classificá-la como manobra linguística válida para diversos gêneros textuais, que permite aos autores expressarem o que desejam, do modo que considerem mais adequado. Vamos aos exemplos. Ex: 1. “Gostaria agora de escrever um livro. Usaria o idioma das larvas incendiadas […]”. Nesse caso, o poeta Manoel de Barros utiliza a licença poética para criticar a forma como algumas pessoas costumam valer-se da linguagem, comparando-a às larvas.  2. “Meu primeiro amor sentávamos […]”.  Segundo a norma culta da língua portuguesa, observa-se um erro de concordância verbal, uma vez que o verbo “sentar” deve concordar com o sujeito “meu primeiro amor”. Assim, a forma correta da flexão do verbo deveria ser “sentava” em vez de “sentávamos”. No entanto, o poeta Mário Quintana optou em utilizar a primeira pessoa do plural para demarcar, simbolicamente, o grau de união entre o casal.

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