Gírias, expressões e o viver caboclo se tornou “pop”

gírias
Divulgação

Sabe aquele tempo de “leseira baré” no qual os manauaras tinham uma vergonha “maceta” do seu próprio jeito de ser? Maninho e maninha, esse tempo ficou para trás! Hoje é “pai d’égua” demais ser de Manaus. Também pudera! Aqui tem de tudo. Do “dindim” ao “kikão”, do mormaço ao “toró”. E tem até flutuante para ficar de “bubuia”. Quem não gosta disso, bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça -ou dispensando a rima -, é um “abestado” mesmo!

O jeito de ser do manauara nunca esteve tão na moda quanto agora. E falando em moda, o casal de publicitários Dahn Israel, 38, e Hellaine David, 36, conseguiu vislumbrar, há oito anos, o que esse se tornaria tendência. Eles montaram “Os Barés”, uma grife de camisetas que utiliza expressões caboclas misturando com o que há de melhor no universo da cultura pop. Um negócio que, como se diz no dialeto manauara: “morreu de colar”.  

“Eu morei um tempo em Recife. Lá concluí a minha faculdade de Publicidade e Propaganda. Foi lá que conheci a minha esposa e nos casamos. Quando voltei para Manaus, a gente percebeu que tinha mercado para esse tipo de coisa. Eu trabalhava em agência de publicidade com marketing esportivo e sempre gostei muito de valorizar as coisas da terra, tanto é que eu fui trabalhar com coisas que tinham a ver com cultura amazonense. Sou amazonense, minha esposa não é, mas ela viu no mercado uma grande possibilidade de montar algo relacionado a camisetas, algo que ela tinha vontade ainda lá em Recife. Quando a gente chegou ao mercado local, tudo ainda estava muito verde, então começamos a montar o negócio, a princípio, como um hobby. A gente oferecia ‘Os Barés’ para amigos, colegas, e o pessoal foi gostando dentro das agências de publicidade, foi crescendo até que tivemos a ideia de fazer um teste. Colocar para vender na feirinha da Eduardo Ribeiro. Foi lá que tudo começou”, relembra Dahn. 

A inspiração para as camisetas de “Os Barés” nasce de expressões, gírias e do dialeto próprio que Manaus tem. Na época, muita gente daqui ainda torcia o nariz para a cultura local. Mas nem por isso o empreendimento de Dahn e Hellaine ficou “boiado”. Muito pelo contrário! As camisetas caíram no gosto dos turistas. “No início, na Eduardo Ribeiro, quem mais comprava eram os turistas ou pessoas que iam para fora (de Manaus). Na época era 70, 80% para 30, 20% (proporção de vendas dos produtos para turistas). Hoje o cenário mudou. É 50 a 50 (%) às vezes até o público local compra mais que o turista, ou seja, o amazonense está dando mais valor ao que é da terra”, atesta Israel.  

Humor com identidade

Misturar temas do momento com expressões regionais é uma das sacadas da empresa. Como a camisa com a expressão “Star Uó” em referência à série Guerra nas Estrelas. Ou a já clássica “Que flechada foi essa?”, em referência ao funk “Que tiro foi esse?”, sucesso na internet. 

“A gente vai muito do momento. Tanto de algo que esteja acontecendo em filmes ou seriados ou até mesmo de algum dizer que está na mídia. A gente sempre tenta brincar. Por exemplo, a gente tem a blusa 100% índio, lá no Nordeste usavam muito 100% negro, então resolvemos adaptar para a nossa região. Lá no Nordeste tinha o ‘orgulho de ser nordestino’, aqui lançamos ‘orgulho de ser caboclo’, e tem muitas outras que a gente vai brincando”, explica.

E por falar em orgulho, a medida em que o tempo foi passando, a vergonha do jeito de ser manauara acabou indo para lá “na caixa-prego”. “Na época eu senti que o amazonense, ele se auto desdenhava, ficava com vergonha do tipo: ‘eu sou daqui, mas eu tenho vergonha de ser daqui’, e o amazonense sempre teve muito isso, de valorizar o que vinha de fora. E a gente foi nessa contramão, valorizamos o que é nosso”, revela.

Foi assim que “Os Barés” caiu no gosto do próprio manauara e muito desse resgate do orgulho de ser daqui, segundo Dahn, aconteceu por conta da Copa do Mundo de 2014, uma vez que Manaus foi uma das sedes do torneio. “Temos orgulho de ter dado nossa contribuição, mesmo que pequena, para tudo isso”, comemora o publicitário.

Em tempos de pandemia

A pandemia dificultou a vida de muitos empreendedores em Manaus, no Brasil e no mundo, mas até num período tão complicado a empresa “Os Barés” conseguiu se sair bem. “A gente está tentando se readaptar constantemente, até hoje a gente não sabe como vai ser, as pessoas falam de uma pós-pandemia, que para mim não pode ser considerada uma pós-pandemia, porque ainda não acabou, ela ainda está aí, então uma coisa que deu para a gente trabalhar melhor, nesse período, foi com o público online. WhatsApp, Instagram, Facebook têm sido boas plataformas de venda. Durante o período de lockdown que teve em Manaus, a gente vendeu muito em delivery. Foi algo espantoso, algo que a gente nem estava esperando”, revela.

Barezão da depressão, o fenômeno

Marcelo Serudo e Iasmin Araujo tocam a página o Barezão da Depressão

E por falar na Copa do Mundo de 2014, internet e regionalismo, foi exatamente no período de realização do maior torneio de futebol do planeta em Manaus, que surgiu uma página de humor que revolucionaria para sempre a forma de ver o futebol amazonense. Trata-se do Barezão da Depressão. “A ideia da página surgiu com o intuito de fomentar o engajamento de jovens torcedores amazonenses, para eles começarem a acompanhar o nosso futebol, se envolverem mais, e a linguagem que a gente usou para isso foi a zoeira da internet.  Foi numa época em que muitas páginas de humor esportivo surgiram no Facebook. E havia esse vácuo que a gente preencheu, porque ninguém tratava o futebol amazonense com humor, numa linguagem bem acessível”, explica o fundador da página, Marcelo Serudo.

“Em dez dias no ar a página já tinha 500 seguidores e virou até matéria em jornal. Eu não esperava que tivesse o tamanho de repercussão que tem hoje. Atualmente somos referência em termos de opinião, futebol e brincadeiras”, pontua Serudo.

Além do futebol amazonense em si, o Barezão da Depressão se tornou um sucesso justamente pela pegada mais regional no que diz respeito à linguagem.  “A gente quando trata de futebol amazonense, a gente trata de carregar as nossas palavras com expressões locais, que é para deixar bem claro as nossas raízes, principalmente quando nossos clubes jogam contra clubes de fora. Palavras como leso, maceta, esse tipo de coisa, esse regionalismo, a gente usa nas nossas postagens que é para criar mesmo uma identidade não só do amazonense com os nossos times, como com aquilo que é nosso”, explica. 

Caçula

Aos 20 anos, a youtuber Iasmin Araújo é a caçula da turma do Barezão da Depressão e conta como foi entrar para o time. “Foi mais ou menos na metade de 2019, o Marcelo, os meninos descobriram meu canal no YouTube ‘Ela é o craque’ e lá eu gosto de falar de futebol feminino, futebol brasileiro em geral, futebol europeu, futebol amazonense. Tem para todos os gostos. Eles descobriram e acharam muito legal uma menina falar sobre futebol e acharam legal colocar uma personagem feminina na página, até para incentivar as torcedoras amazonenses. É muito bom incentivar as mulheres que se identificam com o futebol local. Isso serviu como uma voz para elas”, opina Iasmim.  

O time do Barezão da Depressão é formado por cinco pessoas. “Tem o torcedor do Manaus, que sou eu. Tem um torcedor do São Raimundo, o Adilson Freitas (o editor bucheiro). O Adilson é aquele cara totalmente diferente na internet e pessoalmente. Na internet ele é bagunceiro, ele zoa, fala palavrão, mas é uma pessoa muito simpática, ele é muito tímido pessoalmente. Tem a Iasmin, que torce para o Manaus. Tem o Zé Carlos Amorim que torce para todos os times e tem o Israel, que é nacionalino”, explica Serudo.

Um dos momentos de maior repercussão da página foi nos eventos que antecederam o jogo do acesso entre Manaus FC x Caxias, em 2019. Foi quando o clube amazonense foi alvo de xenofobia por parte dos torcedores gaúchos. Marcelo conta que passou horas printando comentários racistas contra o time local e acabou usando o conteúdo na página do Barezão da Depressão, para incentivar a torcida a ir para o estádio na partida decisiva. “A gente teve um papel preponderante neste episódio no sentido de ajudar o torcedor a ter um incentivo para ir para o estádio. A torcida do Caxias fez muitas ofensas racistas em relação aos amazonenses chamando a gente de índio, de forma pejorativa, tentando nos humilhar, pelas nossas raízes indígenas, e eu passei uns 40 minutos na página do Caxias pegando esses comentários racistas e postei no Barezão da Depressão. Nesse dia essas mensagens viralizaram na internet. Viraram matéria de jornal impresso, TV e isso virou até conversa de botequim”, relembra Serudo.  Como efeito da repercussão, a Arena da Amazônia, palco da Copa do Mundo, recebeu pela primeira vez na sua história a lotação máxima por um clube da terra. 

Influência digital

Dieguinho Araújo, 30, é um desses influenciadores que mostra a cara e o jeito de ser baré

Não é só nas camisas ou nas páginas de humor que o regionalismo mostra a sua força nos dias de hoje. Ele também se faz presente na era dos influenciadores digitais. O apresentador e professor de marketing e publicidade, Dieguinho Araújo, 30, é um desses influenciadores que mostra a cara e o jeito de ser baré. “Eu acho que a pegada regionalizada vai muito do perfil. Eu sempre digo que em redes sociais você tem que ser o mais natural possível. É passar a sua verdade para que seu público possa te acompanhar, as pessoas que gostam de ti. Então não foi nada planejado, o que vocês veem nas minhas redes sociais é o Dieguinho, que brinca, é o Dieguinho divertido, o Dieguinho baladeiro que gosta de viajar. E o meu regional é o meu jeito de ser mesmo”, afirma o influenciador que tem mais de 78 mil seguidores só no Instagram, que dá a receita do sucesso: “Se orgulhar de sua terra é o primeiro passo do sucesso. Você não tem como conquistar o mundo se você não conquista o lugar onde você mora. Então graças a Deus muitos artistas, como Viviam Amorim, muitas personalidades têm tido destaque em nível nacional e isso é muito legal, porque faz nos orgulhar do que somos, de onde nós nascemos e faz a gente lutar e defender a nossa cidade,então eu amo a minha cidade, amo a  minha cultura, a culinária, as expressões. Faço questão de divulgar isso nas minhas redes sociais e difundir a Amazônia, Manaus, o Amazonas como algo que a gente tem orgulho”, pontua o influencer, que apesar de ter nascido em Alenquer, no Pará, adotou Manaus há 20 anos para ser a sua “pátria”. 

“Manaus é a cidade que me acolheu. Eu moro aqui há mais de 20 anos. Tenho orgulho daqui. É uma cidade que tem muitos probleminhas que ainda precisam melhorar, mas creio que com o tempo, com os nossos governantes vai melhorar. Mas é a cidade que eu respiro, que eu vivo, que eu amo. O Amazonas deu meu emprego, moradia para minha família, eu amo Manaus. Manaus é incrível. Eu respiro e tenho orgulho de ser manauara, mesmo que postiço”, brinca.   

Reportagem de Leanderson Lima

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