Dedico esta coluna especialmente ao grande brasileiro Herbert de Souza (o Betinho), que neste próximo dia 9 de agosto celebramos seus dez anos de falecimento.
Vou me ater neste momento a reforçar a memória dos brasileiros que, eventualmente, tenham a oportunidade de lerem esta coluna, falando num breve relato, sobre as frentes de luta deste memorável cidadão. Betinho desempenhou papel decisivo como articulador da Campanha Nacional pela Reforma Agrária congregando entidades de trabalhadores rurais em busca de uma solução para a grave questão do uso e ocupação de áreas rurais, até hoje um dos principais problemas estruturais do nosso país e dos países em desenvolvimento. Na luta pela democratização da terra organizou em 1990, o movimento Terra e Democracia, que levou ao Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, milhares de pessoas.
Em 1985, Betinho soube que havia sido infectado com o vírus HIV numa das transfusões de sangue que precisava fazer periodicamente, em função de sua hemofilia. A inevitabilidade da doença sem cura o estimulou a abrir uma nova frente de luta. Em 1986, ajudou a fundar a Abia (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), uma das primeiras e mais influentes instituições do país nessa área, da qual foi presidente durante 11 anos. Em 1992, integrou a liderança do Movimento Pela Ética na Política, que culminou no impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em setembro do mesmo ano, e serviu de base para a maior mobilização da sociedade brasileira em favor das populações excluídas: a Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida.
Mostrou-se também um especialista no trato com a mídia, deixando suas idéias registradas em inúmeras entrevistas. Não foi por acaso que foi escolhido o Homem de Idéias 1993, pelo suplemento cultural do Jornal do Brasil.
Betinho faleceu aos 61 anos em sua casa, no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, rodeado por amigos, amigas e parentes.

Terra e cidadania
Nesta justa homenagem transcrevo, a seguir, um texto escrito por Herbert de Souza, o qual me parece bastante atual. Trata-se de um documento que contextualiza a miséria. Chama-se de Carta da Terra, lançada em outubro de 1994. A luta pela reforma agrária representou a terceira etapa da campanha Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, lançada em 1993. Segundo Betinho, “este país tem um pecado original. Essa miséria não nasceu do nada. Ela nasceu da terra”. Segue o texto:
“Um dia a vida surgiu na terra. A terra tinha com a vida um cordão umbilical. A vida e a terra. A terra era grande e a vida pequena. Inicial.
A vida foi crescendo e a terra ficando menor, não pequena. Cercada, a terra virou coisa de alguém, não de todos, não comum. Virou a sorte de alguns e a desgraça de tantos. Na história foi tema de revoltas, revoluções, transformações. A terra e a cerca. A terra e o grande proprietário. A terra e o sem-terra. E a morte.
Muitas reformas se fizeram para dividir a terra, para torná-la de muitos e, quem sabe, até de todas as pessoas. Mas isso não aconteceu em todos os lugares. A democracia esbarrou na cerca e se feriu nos seus arames farpados. O mundo está evidentemente atrasado. Onde se fez a reforma o progresso chegou. Mas a verdade é que até agora a cerca venceu, o que nasceu para todas as pessoas em poucas mãos ainda está.
No Brasil, a terra, também cercada, está no centro da história. Os pedaços que foram democratizados custaram muito sangue, dor e sofrimento. Virou poder de Portugal, dos coronéis, dos grandes grupos, virou privilégio, poder político, base da exclusão, força do apartheid. Nas cidades, virou mansões e favelas. Virou absurdo sem limites, tabu.
Mas é tanta, é tão grande, tão produtiva que a cerca treme, os limites se rompem, a história muda e ao longo do tempo o momento chega para pensar diferente: a terra é bem planetário, não pode ser privilégio de ninguém; é bem social, e não privado; é patrimônio da humanidade, e não arma do egoísmo particular de ninguém.

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