Essa é uma semana especial à Amazônia: comemoramos no dia 05 de junho – o Dia Mundial do Meio Ambiente.

Tive a honra de participar de dois eventos especiais ocorridos no Rio de Janeiro, em 1992 e 2012, que demonstraram o protagonismo que o Brasil sempre assumiu mundialmente, quanto ao tema.

Sem dúvida, quando nas últimas três décadas do Século XX, o planeta passou a discutir o papel de uma Economia Ecológica e Solidária, vimos que, além da preocupação com as baleias e com os micos leão dourado, o cuidado com as sociedades desprotegidas, sem acesso às condições mínimas de sobrevivência, estaria no cerne das discussões socioeconômicas.

Bem a propósito, me recordo do slogan discutido pela Legião da Boa Vontade – LBV na Rio 92: “Gente também é bicho. Preserve a Criança brasileira”.

Como conferencista convidado para analisar estratégias à gestão de recursos hídricos na Rio+20, estava secretário de estado de Mineração e Recursos Hídricos do Amazonas e ressaltei, na oportunidade, uma realidade indicada pela Organização Mundial de Saúde – OMS, às vésperas do evento de 2012: precisávamos enfrentar uma 3ª guerra mundial silenciosa – morriam no planeta, a cada ano, 1,5 milhão de crianças com menos de 1 ano de idade, pela falta de acesso à agua. Se multiplicássemos este número pelo intervalo de 20 anos entre as Conferências Mundiais de Meio Ambiente no Brasil, 30 milhões de crianças teriam morrido.

Entre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS, equivalente às atuais metas a serem atingidas pela Organização das Nações Unidas (ONU) até 2030, o ODS 6 – Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todas e todos – tem uma relação direta com a conservação da floresta amazônica.

A floresta em pé é responsável pelo refrigério climático mundial; pela capacidade de provimento de recursos hídricos, através dos nossos “rios voadores”, às estratégicas áreas mundiais de produção de alimentos no Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia, bem como, de grande parte da geração de energia aos sistemas produtivos no Mercosul; e, também, pela preservação dos mananciais subterrâneos de água mineral, no maior e mais importante aquífero planetário – o amazônico -, reservatório capaz de abastecer por décadas, toda nossa população na Terra, sobreviventes do século XXI de enormes desafios.

A pandemia do Covid-19 nos revela quão frágeis somos, enquanto civilização: historicamente, investimos trilhões em armamentos de guerra que não nos defenderam de um inimigo que se vence com “água e sabão”.

E há líderes mais preocupados em armar suas populações para enfrentar governadores e prefeitos em seus gabinetes de ódio… e, aqui, mais de 30.000, ali, mais de 100.000 seres humanos desaparecidos, não resistiram, aguardando o direito ao acesso saudável de respirar. Com tanto ar disponível, faltou e falta oxigênio a algumas autoridades mundiais para discernirem entre o bem comum e o mal legitimado pela indiferença do poder econômico e ideológico que dizem representar.

No âmbito local, entre maus caminhos e despreparo, vimos um ‘experiente’ prefeito pedir ajuda a uma jovem, Greta, que, com suas caras e bocas, simboliza o que há de mais retrógrado ao movimento ambientalista mundial. Sustentabilidade não se busca com discursos prontos.

Será mesmo, Senhor Prefeito, que precisamos de recursos internacionais para gerir e proteger a Amazônia, para cuidar das vidas que protegem a floresta?

Qual será o papel das autoridades eleitas pela nossa jovem democracia, na conciliação dos conflitos deste campo chamado sustentabilidade?

Até quando precisaremos ser pautados na gestão territorial da Amazônia por Gretas, por artistas globais, por sínodos, ou por Brasília?

Já não temos vivência local e regional, conhecimento cientifico e riquezas, de todas as ordens, de recursos naturais e culturais, para gerir soluções às nossas demandas de sobrevivência e prosperidade?

Há décadas, nosso saudoso amazonense Samuel Benchimol (1923-2002) nos diagnosticou como “zênite ecológico e o nadir econômico-social”. E já nos intuía que o desenvolvimento sustentável da Amazônia deveria respeitar quatro fundamentos: ser economicamente viável, ecologicamente adequado, politicamente equilibrado e socialmente justo.

Como amazônidas, somos responsáveis pela construção do novo normal ambiental que perpassará por um novo concerto socioeconômico.

Países como o Butão e Nova Zelândia já experimentam a gestão por novos indicadores de prosperidade, abandonando o conservador Produto Interno Bruto – PIB.

O primeiro, um pequeno reino incrustado no Himalaia, mede desde 2008, o bem-estar de sua população pelo Índice Nacional de Felicidade, constituído por valores de saúde mental e coletiva, parâmetros de vida, vitalidade das comunidades, entre outros.

Sob o comando da primeira ministra neozelandesa Jacinta Arden, aquela nação, a partir de junho de 2020, passará a medir suas riquezas a partir do Índice de Bem-estar de Cidadania, tendo como variáveis: a pobreza em geral e infantil, a violência doméstica, a saúde mental, a identidade cultural, o meio ambiente, as moradias e os vínculos sociais, que incluem, por exemplo, a reabilitação das populações carcerárias.

O despertar do novo normal ambiental mundial pós-pandêmico renascerá no pensar dos povos da floresta, dos povos indígenas e tradicionais que amamos, no único território do planeta capaz de ensinar às nações o conceito de prosperidade com e pelo amor e preservação à vida e sua natureza.

É tempo de Pentecostes! De falar a mesma língua da natureza, do Renascimento e do respeito à natureza humana!  

E, “ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria. ”

Salve as palavras de Paulo de Tarso aos Coríntios, eternizadas no canto do nosso Renato Russo!

*Daniel Borges Nava é geólogo, analista ambiental e professor doutor em Ciências Ambientais e Sustentabilidade na Amazônia

Fonte: Daniel Nava

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