Utilizar o xadrez como uma metáfora da política é um exercício bem antigo. Xadrez e política são linguagens intercambiáveis por apresentarem algumas similaridades, como o tabuleiro (o ambiente do jogo que pode ser o Parlamento, Judiciário, Executivo), as peças (os atores políticos como presidentes, reis, religiosos, guerreiros etc.) e um rígido sistema de regras tal como as constituições, os decretos e as normas.

Uma vez estabelecido o sistema – o ambiente, os jogadores e o sistema de regras – o jogo se inicia com movimentos previsíveis até, aí sim, atingir um grau de complexidade de difícil compreensão para os leigos, pouco afeitos à inteligência das estratégias, decisões e informações produzidas naquela partida.

Porém, a política não é um simples jogo de xadrez. É um jogo em vários níveis e em cada nível se adota uma estratégia específica. Jogos são disputados simultaneamente em vários níveis e, por isso, os resultados multivariados que impossibilitam, no caso do regime democrático brasileiro, vitórias supermajoritárias.

As eleições municipais de 2020 espelharam tal tendência. Para quem esperava – como este escriba – uma forte radicalização ideológica entre a direita bolsonarista e a esquerda lulista, como uma antessala para as eleições de 2022, certamente se frustrou. A aguardada luta entre direita e esquerda reduziu o tom e uma terceira via ressurgiu como competidor.

O centrão é uma nomenclatura recente na crônica política, porém antiga no modo de fazer o jogo do poder. Por centrão, defini-se um conjunto de partidos – não necessariamente centristas – que se recusa a assumir posturas ideológicas rígidas, pois prefere a política do cotidiano às grandes narrativas ideológicas; partidos do centrão preferem cargos e verbas, sendo a representatividade voltada às políticas paroquiais (pork barrel) e não às militâncias barulhentas; o centrão depressa as amarras ideológicas por preferir os acordos e as negociações ad hoc. Em suma, o centrão é a política brasileira na sua essência.

Tanto a narrativa esquerdista inaugurada por Lula em 2003 quanto a conservadora-liberal iniciada em 2013 tinham o centrão político como alvo; e por força das circunstâncias tiveram que ceder à moderação em nome da sobrevivência política. As polaridades à esquerda ou à direita, mais cedo ou mais tarde, precisam correr para o centro do círculo, pois lá está a governabilidade possível. Afinal de contas, a engenharia constitucional brasileira exige consenso e acordos mútuos. Em poucas palavras: ninguém governa só e de costas para as instituições.

A vitória do centrão é um claro recado do eleitorado para 2022. Talvez, o eleitorado já esteja cansado de brinca de Guerra Fria (ou guerra cultural, na novilíngua neoconservadora) e queira um governo mais moderado, centrista e conciliador.

A história do Brasil – já nos alertava o historiador José Honório Rodrigues – é a história da conciliação das elites. Se o pêndulo vai da esquerda para a direita, e vice-versa, num momento e lentamente para no centro e lá fica até se iniciar um novo movimento. É só esperar para ver!

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