Futebol não é para Mané

O drible, no futebol, chega a ser tão empolgante quanto o próprio gol. E, particularmente, no futebol brasileiro, este é o tipo de jogada que melhor sabe fazer nossos jogadores. Já tivemos verdadeiros virtuoses nesta nobre arte de entortar zagueiros, desconcertar marcador e deixar de fundilhos no chão o goleiro adversário quando este fica frente a frente com o atacante. Sem dúvida alguma, o gol é o ápice de uma partida de futebol, mas o drible é o ingrediente que dá o toque refinado à jogada e transforma em deus o seu autor.

Os torcedores brasileiros já testemunharam os mais ousados, espetaculares e inesperados dribles desferidos contra adversários, nestes tantos gramados espalhados por este país afora, que nos fazem ter a certeza de que aqui, debaixo deste céu azul anil, se pratica o mais refinado futebol do mundo. O jogador brasileiro é, por excelência, um driblador. Dentre os artistas que despontaram neste campo, Garrincha foi o mais genial, tanto que conquistou o apelido de “Anjo das Pernas Tortas”. O “Mané”, como também era conhecido, desdenhava de seus marcadores com dribles desconcertantes, verdadeiras acrobacias que, mesmo sendo do conhecimento de todos os zagueiros que Garrincha ciscava para todos os lados, mas sempre saía pela direita, era-lhes impossível evitar a conclusão da jogada.

Mês este era um tempo no qual se valorizava o futebol-arte, aquele em que o jogador genial podia realizar em campo suas jogadas maravilhosas sem se preocupar com zagueiros cujo único recurso técnico é a truculência. O futebol brasileiro ficou mais burro e agora prevalece a idéia de que o drible feito com arte é desrespeito ao adversário. Já não pode mais o atleta dominar a bola com categoria, conduzi-la sem deixar que a mesma toque no chão e até mesmo inventar uma nova e habilidosa forma de superar os marcadores, como é o caso do jogador Kerson, do Cruzeiro de Minas Gerais, e seu impossível drible da foca.

Há algumas semanas, em jogo de seu time contra o tradicional adversário Atlético Mineiro, a tentativa de Kerson de conduzir a bola equilibrando-a na cabeça foi tema para discussão em todos os programas esportivos do Brasil. Os especialistas em futebol questionavam se tal jogada não seria uma forma de desmerecer os atletas do outro time, se não fora uma provocação gratuita e desnecessária ou se não passou de mais uma jogada plástica, na qual Kerson parece ser um virtuose em sua execução. A discussão persiste, mas a verdade é que a jogada foi parada por uma falta estúpida do zagueiro Coelho. O juiz expulsou o atleticano e o Tribunal Desportivo ainda lhe aplicou uma pena de 180 dias de suspensão, para logo em seguida, e corretamente, transformar em apenas cinco jogos a punição do zagueiro.

O atacante cruzeirense continua prometendo fazer a jogada em outras partidas. E tem todo o direito, porque esta é uma habilidade dele e nenhuma regra do futebol proíbe sua execução. Kerson ainda vai sofrer a perseguição de zagueiros perna-de-pau, mas o espetáculo do futebol vai melhorar bastante com seu drible da foca. Os adversários que aprendam a tomar-lhes a bola, porque não se pode nivelar o espetáculo por baixo, punido o artista talentoso porque o colega de profissão é um canastrão. Assim, qual seria a atitude dos adversários quando se defrontassem com Garrincha que, além dos dribles humilhantes, ainda costumava chamar os zagueiros de “Mané” ou de “João”.

Celeiro de craques, o Brasil já produziu dribladores do quilate de Denner, o endiabrado atacante de dizia que um drible, as vezes, era melhor que um gol. E Rivelino, com seu espetacular drible do elástico, hoje repetido por muitos com plasticidade, mas em outras oportunidades com limitada imitação. O jogador Edílson, o “Capetinha”, foi vítima de agressão inexplicável somente porque protagonizou um lance de craque na final do Campeonato Paulista vencido por seu time de então, o Corinthias. Os jogadores do Palmeiras avançaram contra o atacante porque Edílson estava fazendo uso de sua

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