21 de janeiro de 2022
A fuga de cérebros (brain drain) é um fenômeno que sempre beneficia os países mais ricos, de economia mais avançada, onde oportunidades e expectativas de realização profissional são maiores

A fuga de cérebros (brain drain) é um fenômeno que sempre beneficia os países mais ricos, de economia mais avançada, onde oportunidades e expectativas de realização profissional são maiores. A drenagem de massa cerebral traz consideráveis prejuízos para as nações menos desenvolvidas. Em Guiana, que faz fronteira com os estados de Roraima e Pará, por exemplo, de cada dez pessoas que terminam a faculdade, nove deixam o país. Situação semelhante foi constatada em Granada e na Jamaica (8,5 em cada dez), no Haiti (8,4) e em pequenos países africanos e asiáticos, é o que informa o estudo “Fluxo de Capacidade: Uma Reconsideração da Mobilidade dos Trabalhadores Capacitados e o Desenvolvimento”, que faz parte de uma série de pesquisas que subsidiaram o RDH (Relatório de Desenvolvimento Humano) de 2009, intitulado “Ultrapassar Barreiras: Mobilidade e Desenvolvimento Humano”.
O estudo concluiu que as nações menores e mais pobres são as que mais sofrem com a fuga de talentos. “Sabendo que esses países também concentram os piores índices educacionais e o menor número de trabalhadores com nível superior, esse tipo de mão-de-obra está deixando precisamente os lugares onde ela é mais escassa”, afirma o texto. No total, 81 países têm pelo menos 15% de seus cidadãos formados vivendo fora, e em 34 dessas nações a proporção supera 33%. O estudo foi feito com dados de 2000 referentes a 173 países-membros da ONU.
A lógica verificada mundialmente se repete no interior de países de grande extensão, como o Brasil. Cálculos feitos pelo pesquisador com base em dados do Censo de 2000 mostram uma tendência de a população brasileira com nível superior deixar estados pequenos e pobres, como Acre e Piauí, para centros populosos e ricos, como São Paulo e Rio de Janeiro.
Uma das principais razões para esse movimento é o abismo salarial que separa países desenvolvidos e o restante. “Um desenvolvedor de software na Índia pode triplicar seus ganhos reais ao mudar para os Estados Unidos; um médico da Costa do Marfim pode multiplicar seu salário por seis se for trabalhar na França”, diz o texto. Por ganho real, entenda-se o salário ajustado pela paridade do poder de compra, que elimina a diferença de custo de vida nos países.

Outros fatores

A desigualdade salarial, entretanto, não é o único fator que contribui para que as pessoas com mais instrução deixem países pobres. Conflitos armados, falhas nas instituições, corrupção, condições de trabalho desfavoráveis, falta de oportunidades de crescimento profissional e repressão política também são fatores que influenciam a fuga de talentos. Para mostrar como a questão vai além do salário, o estudo deteve-se sobre o período de maior fuga de cérebros de algumas nações. Na Etiópia, por exemplo, o aumento da saída de formados coincidiu com a ascensão de uma junta militar chamada Derg (de 1974 a 1991), que antecedeu violenta guerra civil. De forma semelhante, a fuga de cérebros cresceu na Libéria durante a ditadura de Samuel Doe (1980 a 1990) e o regime sanguinário de Charles Taylor (1997 a 2003). Uganda também registrou maior crescimento durante a instabilidade do governo na década de 80 e o Zimbábue a partir da crise econômica no mandato de Robert Mugabe (início da década de 90).

Barreiras

O estudo conclui que se formou consenso de que a fuga de pessoas com nível superior tem um papel prejudicial, particularmente na saúde. Agências da ONU como a UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) fizeram alertas nesse sentido, e um dirigente da Associação Médica Britânica chegou a classificar a emigração de profissionais da área de saúde como “estupro dos países mais pobres”. Um especialista chega a sugerir que aqueles que recrutam profissionais de saúde desses países deveriam ser julgados por crimes contra a humanidade. Esse tipo de pensamento fez com que os britânicos durante muitos anos não divulgassem vagas de trabalho para países em desenvolvimento e que a UNCTAD recomendasse que políticas fossem criadas para reduzir esse fluxo. Entretanto, a agência da ONU é contrária ao controle de profissionais mais capacitados de países pobres para não “fugirem”. Mesmo que não houvesse fluxo migratório, as nações em desenvolvimento ainda sofreriam com a falta de profissionais de saúde, segundo estudos da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). Essa e outras razões explicam o porquê de um maior número de médicos e enfermeiras que emigram de um país africano não estar diretamente relacionado com menores índices de saúde daquela nação. Outra das razões, segundo o texto, é que não há estudos que provem — e nada garante — que, ficando no país, os especialistas vão se dedicar à população menos favorecida e mais carente. No Quênia, apenas 8,3% da população vive na capital Nairóbi, mas 65,8% dos médicos estão concentrados lá. Em Moçambique, apenas 8% da população mora na capital Maputo, que abriga 51% dos médicos do país.

Propostas

É possível adotar algumas práticas para combater as causas da fuga de cérebros. Entre elas, ampliar incentivos ou prêmios para melhorar a qualidade dos serviços e fazê-los chegar a regiões rurais. Há pesquisas que mostram que gratificações de menos de 1% do salário já são suficientes para fazer com que médicos comecem a se mudar para localidades rurais. Da mesma forma, pequenas gratificações por qualidade dos serviços melhorariam a situação da saúde ao mesmo tempo em que diminuiriam a opção por sair do país. Outra ação tomada por alguns países, que pode funcionar, diz o estudo, é proporcionar bolsas de estudo e empréstimos para aqueles que querem estudar em centros universitários fora do país, com a contrapartida de que, após a conclusão da faculdade, essas pessoas possam pagar ao governo voltem a trabalhar no país de origem. Desburocratizar o exercício de algumas profissões e incentivar a criação de centros de excelência são medidas que também podem ajudar.

Na ZFM

Na ZFM, a existência do PIM e dos empregos criados tem funcionado como espécie de âncora para os talentos locais se fixarem em Manaus. Entretanto, para completar o processo de identificação e fixação de talentos e evitar a fuga de cérebros para outros estados, é urgente que o governo melhore o sistema educacional e amplie a rede de pesquisas científicas no Amazonas.

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