6 de maio de 2021

Para os aficionados pela minissérie televisiva House of Cards, Frank Underwood, interpretado pelo ator Kevin Spacey, é um personagem que consegue despertar amor e ódio no telespectador.

O personagem é um típico congressista ávido pelo poder e que faz e fará de tudo para mantê-lo e expandi-lo. Representante de uma cidadela chamada Gaffney, no estado da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, formou-se na Escola de Direito de Harvard. Eleito para a Câmara dos Representantes (o equivalente a Câmara dos Deputados no Brasil), pelo Partido Democrata, Underwood teve uma ascensão meteórica como líder do partido na casa legislativa.

Dada a sua habilidade negociadora, Underwood logo se torna um forte candidato para o posto de Secretario de Estado (o equivalente ao Ministério da Casa Civil no Brasil), mas o presidente da República alija-o do processo em favor de outros interesses estratégicos para a formação de seu gabinete de ministros. Não conformado, Underwood faz de tudo para conseguir não só uma secretaria, mas a própria presidência da República de seu país.

É em torno desse roteiro que a minissérie ganha vivacidade: a luta voraz pelo poder é a tônica da produção britânica.

Mas o que mais impressiona o telespectador é o elevado nível de realismo envolto na trama. Frank Underwood é um político movido pela ambição, pelo auto-interesse, pelo egoísmo; o que conta é a sua sobrevivência política a qualquer custo.

A grande originalidade de House of Cards é, indiscutivelmente, mostrar a política tal como ela é. Sem rodeios!

Se alguém pensa que Frank Underwood é um fenômeno tipicamente brasileiro ou norte-americano, com os seus políticos sedentos pelo poder, a série consegue mostrar que não é bem assim. Este arquétipo é universal e nos ajuda a enteder o funcionamento do cálculo estratégico e a psicologia na vida política dos países democráticos.

O filósofo espanhol José Ortega y Gasset, em uma riquíssima interpretação do pensamento político, assim assevera: “eu sou eu e as minhas circunstâncias, e se não salvo a ela, não salvo a mim”. O jogo político é muito pesado e neste mundo poucos conseguem sair incólumes, tendo em vista a necessidade de se fazer coalizões, negociações, acordos e, em muitos casos, trair.

A ética do político é uma ética diferenciada, muito distante da ética do homem comum. Não nos esqueçamos das lições de Max Weber, a ética da responsabilidade é uma ética que opera em uma linha tênue entre as paixões e a racionalidade; entre os sentimentos passionais, afetivos e lúdicos até o uso estrito da razão, do custo e benefício, onde os fins justificam os meios.

O cidadão de Genebra Jean-Jacques Rousseau elogiava Maquiavel por um único motivo: pensando instruir os príncipes, na verdade Maquiavel estava instruindo o povo. Mostra ao povo como de fato funcionava o poder político.

Entender o personagem Frank Underwood é entender por tabela a cabeça dos maiores políticos brasileiro: de Getúlio Vargas a Eduardo Cunha, de Carlos Lacerda a Jader Barbalho, de José Sarney a Amazonino Mendes para lembrarmos apenas desses.

Selecionei algumas frases de Frank Underwood que ilustram muito bem a sua visão de mundo:

Na relação entre poder e riqueza: “Dinheiro é mansão no bairro errado, que começa a desmoronar após dez anos. Poder é o velho edifício de pedra, que se mantém de pé por séculos. Não respeito quem não sabe distinguir os dois”.

Sentimentos de dor, de perda, de sofrimento: “Há dois tipos de dor: a dor que te torna mais forte e a dor inútil, a que se reduz a sofrimento, não tenho paciência pra inutilidades”

O poder é afrodisíaco: “Um grande homem já disse: tudo é sobre sexo, exceto o sexo. Sexo é sobre poder”.

Amigo e inimigo: “Amigos se transformam nos piores inimigos”.

Seja o caçador, nunca a presa: ”Para aqueles de nós escalando até o topo da cadeia alimentar, não pode haver misericórdia. Só há uma regra. Cace ou seja caçado”.

A divinização do homem: “Não há nenhum conforto, nem acima nem abaixo, apenas nós… pequenos, solitários, lutando, brigando uns com os outros. Eu rezo para mim mesmo e por mim mesmo”.

A vontade de potência: “Poder é muito parecido com o mercado imobiliário. Tudo se resume a localização, localização, localização. Quando mais próximo estiver da fonte, mais valiosa é sua propriedade”.

Não nos iludamos, leitores e eleitores! Assim são e sempre foram os políticos, por esse motivo foram criados os mecanismos institucionais de controle dos poderes. Um poder controla o outro, uma ambição controla a outra (Montesquieu, Madison, Jay, Tocqueville e tutti quanti): as instituições políticas dos regimes democráticos tentam controlar a voracidade dos políticos pelo poder. Apenas tentam!

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