Dados do FAO (Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) demonstram que, mantidas as atuais tendências de pobreza e distribuição de renda, os objetivos da ONU de reduzir à metade o número de pessoas que passam fome não serão alcançados em 2015, como prevêem as Metas do Milênio, mas somente em 2150.
Políticas públicas voltadas ao crescimento sustentado da economia, a multiplicação de empregos e ações para acelerar a inclusão social constituem estratégias urgentes e articuladas para o combate à fome e à miséria. No entanto, é necessário um olhar mais atento a uma questão crucial: não é possível atenuar a pobreza e a concentração de renda sem democratizar o conhecimento. Somente o acesso à informação, à cultura e ao saber pode oferecer melhores oportunidades de ascensão socioeconômica a quem está próximo ou abaixo da linha da miséria.
Assim, é preocupante avaliar os números constantes de estudo conjunto do Instituto de Estatísticas da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância): 115 milhões de crianças em idade de educação primária estão fora da escola, em todo o mundo. A pesquisa, intitulada Children Out of School: Measuring Exclusion from Primary Education (Crianças Fora da Escola: medindo a Exclusão da Educação Primária), inclui dados de 80 países, diagnosticando questões como as disparidades de oportunidades educacionais, de renda e gênero. O estudo demonstra, por exemplo, que o percentual de crianças pobres fora da escola (38%) é mais de três vezes maior do que esse mesmo indicador em classes com boas condições financeiras (12%).
A premência do acesso ao conhecimento realça o significado da tradicional Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Como ocorre desde a sua criação, há 23 anos, trata-se de uma feira muito importante para o estímulo ao hábito de leitura. Milhares de pessoas que não têm o hábito de frequentar livrarias acabam tomando gosto pelo universo das letras ao visitar o evento, um dos maiores do gênero em todo o mundo. Por outro lado, números divulgados durante a Bienal, de que o índice de leitura dos brasileiros é de 1,8 livro por habitante/ano, contra 5 ou 6 nos EUA e Europa, evidenciam que o nosso país inclui-se entre os que têm negligenciado o acesso à educação a extensas camadas da população.
Não cabe apenas à iniciativa privada investimentos e esforços vultosos como a organização de um evento do porte das bienais de São Paulo e do Rio de Janeiro e das feiras de livros realizadas em outras capitais.
O Brasil precisa de políticas públicas eficazes para incluir o ensino e o conhecimento entre os principais vetores da redução da miséria. É verdade que, durante os últimos dez anos, melhorou substancialmente o índice de matrículas nas escolas. Praticamente, há vagas para todas as crianças em idade escolar no ensino público. Entretanto, a qualidade ainda se encontra muito aquém da necessidade da nação de ingressar na chamada sociedade do conhecimento.
As editoras brasileiras têm feito imenso empenho em prol da publicação de conteúdos de qualidade. A indústria nacional da comunicação gráfica, por sua vez, investiu muito em tecnologia, que, no caso dos livros, traduziu-se na extrema qualidade visual, aliada a uma grande variedade de sofisticados acabamentos, sendo notável a melhora das edições expostas na Bienal e nas livrarias.
As entidades de classe da cadeia produtiva do livro também têm empreendido grande esforço no sentido da multiplicação de bibliotecas públicas, ampliação do PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) e distintas campanhas no âmbito do Terceiro Setor.

Fabio Arruda Mortara é empresário gráfico e presidente-executivo da ABRTG (Associação Brasileira de Tecnologia Gráfica).

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