Follow-Up EMPRESARIAL – Impontualidade, a cultura do atraso

Pela ansiedade e frustração que produz, e a sensação de que se está desperdiçando algo muito valioso e inestimável –o tempo–, a angústia da espera, para a maioria das pessoas, é um sofrimento atroz. Esperar é sinônimo de sofrer. Estima-se que um norte-americano médio gaste cinco anos de sua vida parado em filas e seis meses à espera que os sinais de trânsito se abram. Se esse estudo fosse feito no Brasil, as conclusões seriam ainda mais desanimadoras.

A burocracia, a ineficiência de alguns serviços e o trânsito infernal fazem com que os brasileiros percam grande parte de suas vidas em atividades improdutivas do que, por exemplo, os norte-americanos. Uma vez que a jornada de trabalho é maior no Brasil, o resultado é que sobra aos brasileiros menos tempo para lazer e entretenimento. A cena que se vê em aeroportos congestionados por causa do atraso dos voos retrata de forma fiel a perda de tempo livre a que nos submetem. O não cumprimento de horários pelos aviões, comparativamente aos países desenvolvidos, é inacreditável. A média de atraso nos aeroportos brasileiros, que já era alta, chegou a 14% em outubro de 2009.

A população lida com esse fato das duas únicas maneiras possíveis: ou incorpora o atraso e a lentidão à sua vida, ou perde a paciência e se exaspera. “A primeira postura é a que predomina no Brasil”, diz o psicólogo norte-americano Robert Levine, autor do livro “Uma Geografia do Tempo”, inspirado na sua experiência de professor visitante em Niterói. No fim da década de 90, atormentado pelos “chás de cadeira” que sofreu no Brasil, Levine resolveu fazer um levantamento em grandes cidades de 31 países para descobrir a forma como outras culturas lidam com o tempo.

A conclusão foi a que se poderia esperar: os brasileiros figuram entre os povos mais atrasados do mundo do ponto de vista do tempo, embora o atraso sistemático possa se correlacionar muito bem com subdesenvolvimento. Foram analisadas a velocidade com que as pessoas percorrem determinada distância a pé no centro das cidades, o número de relógios corretamente ajustados e a eficiência dos correios.

Os brasileiros colocaram-se muito mal nos dois primeiros itens. Como era de se esperar, os suíços ocupam o primeiro lugar na pontualidade mundial. O “país dos relógios” tem o povo mais pontual do planeta. Já as oito últimas posições são ocupadas por países pobres. O estudo de Levine associa a administração do tempo aos traços culturais de um país. “Nos Estados Unidos, por exemplo, a ideia de que tempo é dinheiro tem alto valor cultural. Os brasileiros, em comparação, dão mais importância às relações sociais e são mais dispostos a perdoar atrasos”, escreveu o psicólogo. Uma série de entrevistas com cariocas, para exemplificar, revelou que a maioria considera aceitável que um convidado chegue mais de duas horas depois do combinado a uma festa de aniversário.

Pode-se argumentar que os brasileiros são obrigados a ser mais flexíveis com os horários porque a infraestrutura de transportes não ajuda. Como ser pontual se o trânsito é caótico e não há transporte público confiável? É comum que se gaste um tempo excessivo na fila de um posto de atendimento de uma operadora de celular para resolver um problema. Pôr a culpa apenas na burocracia e nos atrasos causados pelos traços culturais do subdesenvolvimento é compreensível, mas até certo ponto. O que acontece é que as companhias aéreas, as empresas de telefonia celular e o sistema de tráfego são comandados e operados por indivíduos que em geral também não são pontuais.

É impossível saber o que veio primeiro: se a cultura do atraso ou a infraestrutura que provoca atrasos. Conclui-se que o Brasil está preso em um círculo vicioso. A relação flexível com o tempo prejudica a qualidade dos serviços do dia a dia, o que, por sua vez, confisca tempo da população, generalizando e ampliando o desprezo pela pontualidade. O descompasso entre a maioria que se conforma com os atrasos e a minoria que se esforça em planejar melhor o seu tempo é uma grande fonte de stress entre os brasileiros.

Pesquisa feita pela Isma-Brasil (International Stress Management Association) com uma mostra de mil executivos revelou que 62% deles consideram a dificuldade em administrar seu tempo o principal fator de stress. “Como a síndrome de ‘burnout’, o grau extremo de stress, é mais comum entre os brasileiros do que entre os ingleses ou norte-americanos, povos com uma relação mais rígida com o tempo, isso indica que nossa condescendência com a impontualidade não nos torna mais relaxados”, argumenta a psicóloga Ana Rossi, presidente da Isma-Brasil.

Especialmente entre ocupantes de altos cargos públicos, a prática da impontualidade no Brasil é trivial e corriqueira. Hábito comum em sociedades atrasadas, mais primitivas, algumas pessoas não são pontuais para exibir poder, isto é, pretensa superioridade. O fato é que falta de pontualidade, quando não depende de fatores externos, é sinônimo de falta de educação.   

Um presidente generoso

O Brasil tem um presidente de índole generosa. A vida desse nordestino admirável, que rompeu todas as barreiras sociais impostas aos menos favorecidos e chegou à presidência da República, está pontuada de atos que refletem sua humanidade. Na semana passada deu mais uma prova dessa característica. No dia 27 de janeiro, o presidente Lula, pela segunda vez, enviou carta ao governo da Indonésia em que apela ao presidente daquele país, Susilo Bambang Yudhoyono, para evitar a execução do brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira – de família de origem amazonense (Archer Pinto) –, instrutor de voo condenado à morte em 2004 por tráfico de drogas. Marco foi preso quando tentava entrar na Indonésia com cocaína escondidos em sua asa delta. Segundo notícia veiculada na Folha de São Paulo, o presidente Lula, em seu pedido, argumenta que a morte do brasileiro poderia levar “a uma reação na opinião pública brasileira que teria, possivelmente, efeitos no nosso relacionamento, que tanto queremos estreitar”.  Na Indonésia, condenados à morte têm direito a apenas dois pedidos de clemência. A Indonésia já havia negado um pedido feito pelo Brasil em 2006. O segundo pedido segue sem resposta. Na Justiça indonésia, não caberia mais recurso à condenação. É impressionante o grau de frieza que algumas nações revelam em relação à vida humana, o que se choca com nossa cultura pacifista. Fazemos votos de que o presidente Lula, hoje um nome que se projetou no mundo, consiga quebrar a decisão tomada pelo governo da Indonésia.

Esta coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras e é elaborada sob a coordenação do economista, Ronaldo Bomfim.
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