2 de março de 2021

‘Foi precipitado retomar aulas cedo’ diz Ana Cristina Rodrigues

A presidente do Sinteam (Sindicato dos Professores em Educação do Estado do Amazonas), Ana Cristina Rodrigues, defende a retomada das aulas presenciais na rede pública de ensino só quando professores e alunos forem vacinados contra o novo coronavírus, uma forma de preservar a vida de pelo menos 36 mil servidores da categoria e 500 mil estudantes em Manaus e nos municípios do interior.

“Já lutamos por carreira, pela valorização da profissão, por aumento de salários e agora lutamos pela vida com mais dignidade”, ressalta Ana Cristina.

Por conta da pandemia, no ano passado as atividades foram retomadas parcialmente pelo sistema híbrido –parte em teleaulas e outras dentro das escolas, mas os prejuízos em termos de aprendizagem foram enormes, segundo a sindicalista.

Ela avalia que a prefeitura e o governo do Amazonas foram precipitados em retomar o ano letivo num momento em que o Estado enfrenta a sua pior crise sanitária por conta da Covid-19, agravada agora com a segunda onda de contágio na região.

“Perdemos colegas de trabalho, familiares. Alunos também perderam seus entes queridos”, lamenta ela. Ana diz que o Amazonas não possui uma infraestrutura tecnológica para operar adequadamente as aulas online. E, mesmo assim, insistiu-se na adoção de um sistema que se mostrou inoperante o tempo todo.  

O ensino é precário, deficiente. E nem todo estudante tem celular, computador ou tablet para acompanhar as atividades de casa. E muitos só não foram reprovados porque tiveram a ajuda de pais e amigos durante o aprendizado.

“A rede pública de ensino do Amazonas foi a única do país a antecipar a volta às aulas num momento tão adverso como o que enfrentamos atualmente. O resultado de todo esse esforço, executado sem a menor condição para operacionalização, foi muito pouco em termos de aprendizagem aos alunos, contribuindo para o agravamento da epidemia”, afirma ela.

De acordo com Ana Cristina, é necessário a elaboração de um plano pedagógico que envolva professores, a prefeitura e o Estado para corrigir as distorções acumuladas durante o ano passado.

“Só assim, poderemos evitar a catástrofe do que ocorreu com o calendário pedagógico da rede pública em 2020. Não queremos repetir esses erros que impactaram na vida de todos os profissionais. Lutamos diariamente para proporcionar um ensino de melhor qualidade aos estudantes”, salienta a presidente do Sinteam.

Ana Cristina falou com exclusividade ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – Os professores defendem a volta às aulas só com a vacinação contra o coronavírus. Existe realmente essa reivindicação da categoria, seria um privilégio….?  

Ana Cristina Rodrigues – É exatamente isso. Pedimos um cronograma de vacinação tanto para os trabalhadores como para os alunos.

Somos uma categoria que envolve pelo menos 36 mil professores e mais de 500 mil estudantes da rede pública no Amazonas, um número significativo.

Defendemos que também seja elaborado um calendário de vacinação para os servidores da educação e também alunos.

Assim, vamos estar garantindo a saúde de   todos. Já lutamos por carreira, pela valorização da profissão, aumento de salários e lutamos agora por uma vida com mais dignidade.

E, se essa reivindicação for acatada pelo governo e a prefeitura, é um exemplo a ser seguido no resto do país.

JC – A rede privada defende a volta às aulas por considerar a educação essencial e apontar prejuízo grande na aprendizagem dos estudantes. Como a sra. avalia a ação do representante desse segmento ?

Ana Cristina Rodrigues – Não representamos as escolas particulares, não é nossa alçada. Não temos nenhuma ingerência sobre o segmento.

Mas de uma forma geral, é preciso que toda a rede de ensino, pública e privada, defina estratégias pedagógicas para suprir as necessidades.

Os prejuízos foram enormes em 2020. Temos que trabalhar para corrigir essas defasagens em termos de aprendizado.

Temos o sindicato dos professores e o dos donos de escolas. Estamos fazendo contato com o Conselho Estadual de Educação para corrigir esses problemas.

Os estudantes são o elo mais fraco, temos que ter mais cuidados com eles.

Queremos tratar com a prefeitura e o governo para elaborar uma grade curricular que não venha sobrecarregar os trabalhadores.

Mas é preciso que haja um planejamento muito bem elaborado para não haver sobrecarrega.

JC – Os alunos estão de férias, já se preparando para o próximo ano letivo. Em 2020, disseram que nenhum estudante seria reprovado. Pode fazer um balanço das atividades pelo sistema online e presencial do ano passado?

Ana Cristina Rodrigues – Parabenizo meus colegas em sala de aula e os trabalhadores em educação de uma forma geral.

Fomos pegos de surpresa nessa situação tão atípica, algo que o Brasil não havia vivido, mas infelizmente o mundo inteiro vive.

Os trabalhadores do Amazonas foram os primeiros a voltar às salas de aula de uma forma híbrida.

A rede estadual não disponibilizou insumos e nem equipamentos necessários para a operacionalização adequadamente das teleaulas. Tudo foi praticamente muito precário.

Houve alunos que reprovaram, mas foi um índice muito baixo.

A grande maioria dos estudantes foi aprovada. Eles tiveram que se ‘rebolar’  para cumprir as atividades, contando com a ajuda de familiares e amigos. Muitos sequer tinham um celular, computador ou tablet para estudar.

Não tínhamos internet. Enfrentamos muitas dificuldades.

Governo e prefeitura deveriam investir mais em tecnologia. O trabalho em home office não funcionou, foi muito precário.

O Amazonas voltou muito cedo para as aulas presenciais, não era o momento de voltar.

Talvez o que estamos vivendo hoje, como uma segunda onda de contágio, seja por causa disso.

A questão curricular ficou muito a desejar porque não tínhamos a infraestrutura necessária.

JC -A sra. diz que foi precipitada a retomada das aulas presenciais em 2020. A infraestrutura tecnológica não foi suficiente para operar adequadamente as teleaulas.  Agora, existe algum tipo de estudo que mensure todo esse prejuízo em termos de aprendizagem….?

Ana Cristina Rodrigues – Estamos tentando junto às secretarias Municipal e do Estado fazer esse levantamento. O MEC ainda não forneceu dados sobre isso. Ainda não podemos mensurar essa questão sobre os prejuízos.

Mas sabemos que ocorreu, com certeza. É preciso a elaboração de uma grade curricular para corrigir esses problemas.

Mas agora, em 2021, pode-se corrigir essas distorções porque já sabemos como tratá-las. Os impactos da pandemia nas atividades não são algo novo.

A maior estratégia é fazermos juntos esse planejamento em relação à grade curricular, definir novas ações, para suprir essa defasagem.

JC – Vivenciamos hoje um momento de novas ferramentas tecnológicas. Os professores estavam preparados para essa inovação, que estratégias foram elaboradas para acompanhar esses novos sistemas?

 Ana Cristina Rodrigues– Foi um momento complicado, tivemos que nos reinventar, nos adaptar às novas ferramentas e desenvolver nossos trabalhos.

E não vai ser diferente em 2021. Mas sabemos que ainda vai demorar muito para aprendermos tudo.

É preciso investir nas tecnologias de educação, numa internet melhor.

Em termos de educação, nada é gasto, tudo é investimento.

Investir na qualidade das aulas, na atividade laboral dos professores.

Fazer um investimento de forma correta.

JC – Existe alguma diferença entre as pautas da educação do município e do Estado, é possível unificar esses trabalhos…?

Ana Cristina Rodrigues – No governo do Estado, os salários dos professores estão congelados até o final de 2021. Em 2020, não recebemos nossa data-base, não tivemos nosso enquadramento.

E tudo que implica em aumento de salário ou folha de pagamento está vetado por lei.

No município, a prefeitura vinha cumprindo a reposição salarial em relação à inflação dos últimos 12 meses.

Em relação ao Estado, está um pouco diferente, embora a rede estadual e municipal tenham pautas sempre semelhantes.

Mas estamos discutindo com a categoria de uma forma em geral.

Hoje muitos chegam com discursos tentando separar os trabalhadores, mas nós somos um grupo só.

É preciso unir mais a categoria, que precisa descobrir sua força na unidade. Quando descobrimos, vamos ter mais direitos e garantir nossas conquistas.

JC – Quais suas expectativas em relação a este ano, que se esperava fosse de recuperação, mas a situação se mostra ainda pior do que em 2020? Já começamos com mais contágios na pandemia….

Ana Cristina Rodrigues – Vejo a situação com muita tristeza. Estamos iniciando 2021 nos certificando de que tudo aquilo que dissemos em 2020, desde agosto até dezembro, está acontecendo novamente.

Tudo que a ciência disse está acontecendo.

Infelizmente, o Amazonas se antecipou para o retorno das atividades da educação e isso contribuiu muito para o que estamos vivendo hoje.

Todos os dias estamos perdendo nossos amigos, nossos familiares.

Perdemos dois funcionários da Seduc, mas infelizmente a secretaria não lançou nenhuma nota sobre eles.

Perdemos nossos amigos, familiares, que nos causam muita dor.

Pior de tudo é que temos certeza que isso ainda não é o ápice. Ainda vem muita coisa pior.

Esperamos que a prefeitura e o Estado possam dar resposta, em termos de ações, que promovam o respeito à vida não só dos trabalhadores como também dos nossos alunos.

Sabemos que não será um ano fácil, como em 2020, mas vai ser um ano de muita luta.

Queremos que a prefeitura e o governo do Estado repensem essa questão do trabalho híbrido.

Somos seres humanos, também merecemos o devido respeito.

Tirando as lições de 2020. Não é fácil pra ninguém, tenho certeza.

E dizer para os trabalhadores que o Sinteam continuará nessa luta se não houver o  devido respeito à vida dos trabalhadores em educação no Amazonas.

Não ficaremos de braços cruzados num momento em que é preciso lutar pela vida.

Já lutamos por carreira, pela valorização da profissão, por salários e agora lutamos pela vida com mais dignidade.

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