Finalidade dos dados bibliográficos

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O conhecimento científico se faz com o conhecimento de estudos científicos prévios. Mas isso só pode ser compreendido se se considerar a ciência como um empreendimento planetário, em que indivíduos isolados e em grupos, institucionalizados ou não, se colocam o desafio de explicar determinado aspecto da realidade. Quando determino entrar na área de estudo da formação de professores, por exemplo, tenho que estar consciente de que já existem inúmeros pesquisadores labutando nesse campo e que, portanto, já produziram muitos conhecimentos sobre diferentes aspectos desse fenômeno. Há provavelmente pesquisadores perto de mim, os chamados pesquisadores locais, os regionais, nacionais e internacionais. Todos eles, contudo, apesar de se dedicarem ao estudo do fenômeno em seus espaços geográficos, estão todos imbuídos da responsabilidade de gerar uma explicação universal sobre todo o fenômeno na multiplicidade de suas particularidades. Não existe, consequentemente, uma ciência da área de Manaus ou do estado do Amazonas relativa à formação de professores. A formação de professores, enquanto fenômeno de interesse da comunidade científica, é universal. Portanto, suas explicações também devem valer para todo tempo e lugar.

A finalidade de se fazer uma revisão da literatura é fácil de entender: conhecer o que a ciência já sabe sobre aquilo que quero conhecer. Se sou iniciante na área, é necessário que o ponto de partida sejam os manuais propedêuticos. É aqui nesse estágio inicial que os livros têm sua serventia irretocável porque eles sintetizam, naturalmente que com os vieses dos seus autores, o que uma parte da ciência e da filosofia dizem sobre o fenômeno. Acontece, porém, que os livros são sempre imagens do passado. Alguns retratam o passado próximo, enquanto outros são fotografias do passado remoto. E é fácil disso ser entendido: leva pelo menos dois anos para o autor elaborar o projeto do texto e entregar o livro impresso para o público. Some-se a isso o fato de que os textos sobre os quais se baseou para a sua publicação serem também imagens do passado. E como a ciência progride a passos largos todos os dias, recomenda-se deixar os livros de lado e focar os produtos recentes.

Os artigos científicos são o que há de mais recente sobre os conhecimentos científicos disponíveis. Entenda-se como artigo científico todo texto que apresenta, obrigatoriamente, um capítulo ou seção onde é detalhado como cada resultado ali contido foi gerado. O papel da metodologia é justamente esse: dizer como os resultados foram gerados, produzidos, alcançados. Esse item é obrigatório porque se alguém desconfiar das minhas descobertas podem solicitar a minha base de dados e, ao seguir rigorosamente o detalhamento contido na metodologia exposta na minha publicação, chegar a resultados semelhantes ao meu (nunca serão iguais, mas muito, muito parecidos). É exatamente isso! Tenho que fornecer à comunidade científica os meus dados e minha metodologia tem que ser suficientemente clara e precisa que permita o que chamamos de replicação dos resultados. É por isso que os conhecimentos científicos são considerados confiáveis.

Quando iniciamos um estudo, portanto, queremos saber o que há de mais atual sobre o nosso fenômeno. A finalidade é demarcar, delimitar as fronteiras do conhecimento científico até aquele momento, configurando aquilo que chamamos de estado da arte. Essa demarcação é tão precisa que é possível se fazer uma representação do fenômeno naquilo que já é conhecido. Essa representação deixa transparecer as lacunas, que são aspectos que ainda permanecem em aberto, à espera de cientistas que se proponham a gerar conhecimentos para preenchê-las. Pode acontecer, também, que o revisor da literatura perceba que determinadas explicações são muito frágeis (e grande parte delas efetivamente são) e se proponha a fortalecê-las, o que é feito primeiro com a destruição delas para, em seguida, ser apresentada a proposta mais robusta de explicação. Outros, mais capazes ainda, fazem expandir as fronteiras explicativas.

O que queremos mostrar é que a revisão da literatura é obrigatória para que não descubramos a roda inúmeras vezes. Ao conhecer as fronteiras do conhecimento, sabemos de onde poderemos iniciar o nosso estudo e demarcar a nossa contribuição. Quando sabemos que há uma lacuna, podemos nos propor a preenchê-la. O mesmo acontece quando detectamos fragilidades explicativas. Grosso modo, é dessas três formas que a ciência progride. Uma quarta forma é através da criação de novos métodos investigativos, que falaremos disso mais tarde.

No caso do método científico-tecnológico, a revisão da literatura é, analogamente, à coleta de insumos em um grande armazém, chamado base de dados, que serão modelados para a construção de um protótipo. Esses insumos precisam ser de qualidade, precisam ser produzidos com a aplicação rigorosa do método científico, para que não tenhamos problemas com o produto a ser gerado. Produtos de qualidade se fazem com insumos, recursos e inteligências de qualidade. Muitas vezes é possível a geração do protótipo apenas com a revisão da literatura, mas noutras vezes não é, principalmente devido à insuficiência, à fragilidade dos conhecimentos disponíveis. Noutras vezes é necessário até mesmo a geração do conhecimento.

Sem a coleta dos dados bibliográficos a ciência progrediria muito lentamente. Se Einstein tivesse que gerar do zero os conhecimentos sobre a luz como onda e como partícula, separadamente, provavelmente não teria ido além da constatação de que esse fenômeno é tanto onda quanto partícula. Como os estudos de Maxwell sobre o eletromagnetismo e de Planck sobre os pacotes de energia eram confiáveis, Einstein pôde revolucionar o mundo a partir deles e ganhar o prêmio Nobel pelo efeito fotoelétrico. Coletar dados bibliográficos é subir nos ombros de gigantes para que se possa ver mais longe.

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