Feriados, feriadinhos e feriadões

Muitas vezes ouvi algum saudosista dizer: “tenho saudades dos tempos da ditadura.” Embora não concordando uma vírgula com essa afirmação, resolvi garimpar nas entrelinhas e saber o que poderia despertar saudades dos anos de chumbo

Muitas vezes ouvi algum saudosista dizer: “tenho saudades dos tempos da ditadura.” Embora não concordando uma vírgula com essa afirmação, resolvi garimpar nas entrelinhas e saber o que poderia despertar saudades dos anos de chumbo.
Ainda em 1964, Humberto de Alencar Castello Branco, o primeiro e o mais democrata dos governantes militares, decretou que os feriados nacionais seriam em número de quatro, a saber: Dia 1º. de janeiro, dia 1º. de maio, dia 7 de setembro e dia 25 de dezembro. O dia 15 de novembro só seria feriado em ano eleitoral. Eleição não era o passatempo preferido dos militares. E os municípios teriam direito, até o dia 30 de outubro a estabelecer seis feriados religiosos (esse é o termo), para o ano seguinte incluída a Sexta-feira Santa. Ditadura era assim: dava direito a determinar seis feriados, mas já tirava um deles, deixando vaga apenas para cinco.
Os municípios podiam então considerar como “religiosa” a sua data de fundação entre outros. A maioria escolhia os dias de feriado conforme sua tradição e os transformavam em lei, o que obrigava os empregadores a darem folga aos seus funcionários ou a pagá-los com os acréscimos legais em caso de trabalharem. Contudo, o feriado de carnaval, o mais respeitado por bancos e instituições oficiais, não constava e nem consta de nenhum calendário de feriados “oficiais”. Não há necessidade de lei para tornar feriado uma tradição que é “religiosamente” obedecida.
O decreto do ditador tinha muito sentido, porque antes de 1964 havia tantos feriados que o país corria o risco de parar. Assim como hoje. O volume de dias em vermelho diminuiu na folhinha na época do decreto. Voltou a crescer e está chegando muito próximo do que era antes dele.
Num país que a cada dia tem menos católicos, observar um feriado como o de Corpus Christi é quase uma afronta. Há setecentos anos, quando o papa Urbano VI instituiu o feriado para mostrar aos não fiéis que na hóstia consagrada havia um Jesus vivo e não um símbolo, o povo acompanhava a procissão e depois voltava para seus afazeres. Mesmo porque não havia legislação que regulasse as relações entre empregados e empregadores. Acontece que, passados sete séculos, a cizânia entre os que crêem na hóstia consagrada e os que não crêem continua como dantes. O feriado e a demonstração toda não surtiram e provavelmente não surtirão efeito algum. Outro feriado recente e de âmbito municipal, é o Dia da Consciência Negra. Um dia para ser lembrado e discutido, mas sem razão para ser feriado. Para não receber o nome, já usado por alguns, de “feriado do racismo”.
A Ditadura Militar, cuja implantação aconteceu no dia 1º. de abril, mas foi antecipada para 31 de março, por motivos facilmente compreensíveis, trouxe muitas dores de cabeça ao estado de direito, atropelou as liberdades individuais, atrasou o Brasil em muitos aspectos, mas exigia que se trabalhasse.
O trabalho ainda é a fonte de renda da grande maioria dos brasileiros. Por isso deveríamos pensar mais em trabalho e menos em folga. Ou então instituir o verdadeiro feriado, o maior de todos, para ilustrar esse sentimento que toma conta dos brasileiros: o dia primeiro de abril, Dia da Mentira. Esse sim teria fé pública seria respeitado por todos que acreditam na “seriedade” do nosso país.

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