Extrativismo regional pode ser saída para a crise

Diante do cenário de crise financeira que quebrou gigantes da economia globalizada como o Japão e os Estados Unidos, os empreendedores estão sendo desafiados a investir em projetos regionais. O secretário de Estado da Produção Rural, Eron Bezerra, aproveitou a reunião do Codam, na semana passada, para provocar os empresários a investirem no setor primário do Amazonas, que se constitui em potencial mesmo em tempo de crise, considerado uma fonte enorme de oportunidades que, segundo o secretário, o empresariado não tem experimentado.
Eron Bezerra garantiu que o governo tem interesse em atrair agroindústrias empreendedoras com capacidade para investir, inclusive oferecendo assistência técnica e assistência na elaboração de projetos necessários para financiamentos. “Existe um departamento de engenharia na Sepror (Secretaria de Estado da Produção Rural) que pode colaborar na estrutura dos projetos”, garantiu, apontando como oportunidades de investimentos produção de calcário, fécula de mandioca e industrialização do bacalhau, a partir do pirarucu como matéria-prima.
Na opinião do produtor rural, Joaquim Viana, que atua também como pecuarista, não basta o governo do Estado ter interesse em desenvolver o setor rural, se a atual legislação ambiental do governo federal emperra a maioria dos projetos apresentados. Ele contou que os tomadores de crédito do setor estão de mãos atadas, porque para tudo é preciso apresentar licença ambiental, para provar quer não vai depredar o meio ambiente.
O próprio Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), afirmou Viana, está ‘parado’ porque a legislação mudou e os técnicos do órgão estão esperando as novas determinações para, só a partir daí, liberar projetos. “A própria estrutura do Ipaam (Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas) e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) não conseguem atender à demanda de processos e, quando conseguem, não liberam as licenças por conta das exigências”, disse.
Segundo Joaquim Viana, por falta de conhecimento da região, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, coloca todos os Estados brasileiros no mesmo patamar, ou seja, nivela o Amazonas, que pouco desmata, com o Pará, Rondônia e Mato Grosso, considerados grandes desmatadores. “Há mais de 20 anos atuo com pecuária no Estado e não tinha enfrentado uma legislação tão difícil. Porque trata os desiguais como iguais”, justificou.
Na fileira de dificuldades apontadas pelo produtor e criador que faz parte da Associação dos Pecuaristas do Careiro-Castanho estão os financiamentos, que também esbarram na legislação porque têm que receber o aval dos órgãos regulamentadores. “Os bancos oficiais como o Banco do Brasil e Banco da Amazônia têm dinheiro sobrando, porém os produtores não conseguem emprestar por conta da burocracia”, contou.

Novos empreendimentos

Neste ano, segundo Eron Bezerra, a Sepror está realizando três grandes empreendimentos que vão gerar milhares de postos de trabalho. Um deles será a primeira indústria de salga do Brasil, que vai ser construída em Fonte Boa e outra em Maraã, para industrializar o pirarucu e transformá-lo em bacalhau. Ele disse que no próximo fim do ano a população vai ter a oportunidade comer bacalhau produzido no Amazonas, que inclusive será exportado. “Será feito um procedimento industrial tal qual se usa na carne de sol”, informou, ressaltando que, na planta de Fonte Boa, serão gerados 120 empregos diretos e mais 5.000 para alimentar o sistema. “Serão processadas 10 toneladas de bacalhau por dia”, assinalou.

Planta industrial pode produzir 50 toneladas de mandioca

Em Manaquiri está sendo montada uma planta industrial para produzir 50 toneladas fécula de mandioca por dia. Ele disse que o Distrito Industrial consome anualmente 84 mil toneladas desse produto que vem do Paraná. O secretário disse que todos esses empreendimentos estão sendo bancados pelo Estado, mas poderiam ser implementados pela iniciativa privada, inclusive com financiamentos da Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia) e com incentivos ­fiscais do Estado. “Esse é o desafio que quero colocar para vocês”, conclamou.

Falta de calcário

Outra dificuldade enfrentada pelos agricultores para produzir no Amazonas é a falta de calcário. Como o Estado tem solos áridos que precisam ser corrigidos, Eron disse que quando é preciso produzir na terra firme, tem que corrigir o PH do solo para que a planta não fique intoxicada e isso é feito com calcário. Ele disse que uma tonelada de calcário oriunda do Ceará custa R$ 30, no Paraná custa R$ 15, porém em Manaus, o Comercial Rizadinha vende por R$ 380. “Com essa disparidade de preço como os produtores amazonenses vão poder ter padrão de competição”, disse.
O secretário informou que o governo do Estado tem o programa Pró-calcário que faz subsídios aos investidores. Ele informou que um produtor entregou uma carta na Sepror se comprometendo a entregar o calcário aos produtores no valor de R$ 200 a tonelada. “Nós fixamos o nosso limite máximo de subsídio a R$ 200”, disse, lembrando que o Amazonas pode ser um grande produtor de calcário, porque tem minas desse produto.
Eron Bezerra desafiou os empreendedores locais a apresentarem na próxima reunião do Codam (Conselho de Desenvolvimento do Amazonas) projetos de empreendimentos para montar uma usina de calcário no Amazonas. “Pode ser em Maués, onde tem uma grande mina de calcário, ou em Apuí”, apontou, ressaltando que os produtores terão condições de produzir calcário e vender por no máximo R$ 60, a tonelada, ganhando um bom dinheiro.
O secretário defendeu que governo tem agido, mas é preciso ação empresarial porque o poder público não pode fazer tudo. Além disso, ele avaliou que o Estado não é um bom gerente para o varejo, porque tem que cuidar das políticas básicas. “Queremos passar para a iniciativa privada tudo o que esta sendo feito, porque sem essa parceria fica difícil”, admitiu.

Oportunidades diversas

O secretário de Estado do Planejamento, Denis Minev, também admitiu que existe uma série de negócios que podem ser desenvolvidos no setor primário. Como a ZFM (Zona Franca de Manaus) foi a grande vedete da economia, ele disse que as forças empreendedoras do Estado nunca tiveram muito fortemente voltadas para este setor, onde há um volume de oportunidades que não se reduz com a crise.
Segundo Minev, vender televisores com a crise ficou um pouco mais difícil, por conta dos grandes competidores, mas produzir peixes, por exemplo, não se esgotou, pois ainda falta muito para ocupar o abastecimento do pescado do interior, que não atende à demanda da capital, levando o Estado a importar peixe, assim como farinha. “São segmentos com maior potencial de crescimento assim como a piscicultura, o calcário, manejo florestal, entre outros. Se alguém for investir no setor agora, essas áreas são as de maior promessa”, apontou.
No entanto, Denis Minev admitiu que uma série de nós, inclusive o ambiental, não permitiram que o setor primário se desenvolvesse. “A Amazônia é complicada em qualquer atividade econômica que faça grande utilização da terra, precisa ter uma atenção maior que teve no passado, que gerou um efeito destrutivo porque se criou leis complicadas demais, tanto na questão fundiária, como na ambiental”, concluiu o dirigente.

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