Em artigo publicado pela revista The Economist e republicado no jornal Estado de S. Paulo na última segunda-feira, dia 30 de agosto, o cientista político norte-americano Francis Fukuyama traça uma interessante análise sobre o estado atual dos Estados Unidos na política internacional e aponta algumas hipóteses sobre o futuro da superpotência que merecem ser objeto de uma sincera meditação.

No artigo O Fim da Hegemonia dos Estados Unidos, estabelece um exame causal acerca da relação doméstica e global. (aliás, conceito interdomestic – a baixa distinção entre as fronteiras domésticas ou internas vis-à-vis internacionais dos Estados – se tornou, nas últimas décadas, um marco nos estudos de Relações Internacionais). Nas suas palavras, “as fontes do enfraquecimento e declínio americano são mais internas do que internacionais”. Ele resume a ideia nos seguintes termos: “o país continuará uma grande potência por anos, mas sua influência dependerá mais da sua capacidade de resolver problemas internos do que da sua política externa”.

Fukuyama consegue identificar na dimensão doméstica a fraqueza da América. Ao contrário da queda de outros impérios ao longo da história, os EUA parecem fadados ao declínio por não conseguirem seguir em frente como sociedade, como nação. Ainda nas palavras de Fukuyama, “o desafio maior para a posição global dos Estados Unidos é doméstico: a sociedade americana está profundamente polarizada e é difícil haver algum consenso em praticamente tudo. Essa polarização teve início com questões políticas convencionais, como o aborto, mas se transformou numa luta amarga sobre identidade cultural”. Em termos práticos, podemos entender que a radical divisão interna, operada nos mais diferentes níveis, pune os ativos internacionais do país, sobretudo o processo decisório, querendo dizer que “a polarização afeta diretamente a política externa”.

Os conflitos e divisões internas fazem com que a política internacional do país fique paralisada, inerte, débil – incapaz de tomar decisões (principalmente as decisões mais difíceis) em momentos de crise e de mudanças profundas. Afinal, o que faz uma grande nação grande é, em essência, a força de seu povo.

Diferente do Brasil, o sistema político norte-americano é majoritário. Por definição, modelos majoritários assumem a seguinte expressão: o vencedor leva tudo. A América é democrata ou republicana na sua tonalidade partidária e ideológica, o que faz com que decisões domésticas e internacionais sejam balizadas pelos dois partidos e seus respectivos líderes. Apesar de tudo, alguns temas se sobrepõem ao caráter majoritário da democracia norte-america e a China é um deles. Segundo Fukuyama, “há um consenso mais aparente no tocante à China: tanto republicanos como democratas concordam que a China é uma ameaça aos valores democráticos”. O consenso, contudo, se encerra aqui. Em geral, republicanos e democratas entram em rota de colisão quando o assunto é como enfrentar o dragão chinês.

A fúria doméstica e o dissenso externo, combinados, produzem uma acentuada apatia e debilidade estratégica. As imagens da retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão, com os talibãs às portas de Cabul, evidenciaram, uma vez mais, a falta de capacidade militar, lógica e operacional da maior máquina de guerra da história.

O império está na sua encruzilhada e o seu declínio relativo parece, até agora, um fato consumado. O século americano parece ter chegado ao seu fim não com uma estonteante derrota militar numa guerra mundial, mas com fissuras na sua armadura interna (sociedade) e na sua arquitetura de defesa internacional. Insulados internacionalmente, os EUA perderam a capacidade de liderar, de definir as regras do jogo nos seus termos. A ascensão chinesa e a multipolarização da ordem internacional são fatores decisivos da configuração da nova ordem mundial.

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