Estragos da covid-19 na economia devem demorar para serem superados

As regras de flexibilização da quarentena anunciadas em várias cidades brasileiras trouxeram certo alento para alguns setores que podem retomar gradualmente suas atividades – como shoppings e escritórios comerciais, por exemplo. 

Porém, após mais de 70 dias de isolamento social, a reativação da atividade econômica é cercada por incertezas. Principalmente para os pequenos negócios. 

A análise de empresários participantes da reunião on-line do Comitê de Avaliação de Conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) sinaliza um consumo muito retraído quando as portas puderem ser abertas, e a quebradeira entre as MPEs deve se intensificar. 

Alguns números mostram qual é a situação atual desse segmento de empresas. Pesquisa do Sebrae divulgada no início de abril apontava que 89% das micro e pequenas empresas tiveram redução média de 69,3% no faturamento em uma semana, com a adoção das medidas restritivas. 

Outro levantamento, também realizado pelo Sebrae no mesmo período, mostrou que, financeiramente, Microempreendedores Individuais (MEIs) tinham só oito dias de caixa para saldar seus compromissos.  

Com mais 860 mil vagas de emprego formal fechadas só em abril, conforme dados recém-divulgados pelo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), o medo do desemprego já está fazendo com que o consumidor coloque o pé no freio para novas compras, dificultando ainda mais a retomada. 

O varejo de shoppings é um dos exemplos mais característicos: hoje há 107 empreendimentos funcionando no país em locais onde houve flexibilização há pelo menos 20 dias, disse um especialista em varejo presente à reunião (historicamente, os integrantes deste comitê da ACSP pedem que seus nomes sejam preservados).

Nos já reabertos, apesar da ligeira melhora nas vendas de artigos pessoais, como bijuterias e roupas e também presentes, muitos consumidores, com medo de contaminação e com a renda menor, têm ido menos aos shoppings. Com isso, a queda no movimento já é de 70% em relação a igual período ano passado.  

O que muitos estão enxergando na reabertura, segundo o especialista, é que várias lojas pequenas vão voltar às atividades praticamente com caixa zero, mas com a expectativa de gerar receitas para cobrir despesas.

"Se alguns empreendedores flexibilizaram o pagamento de alugueis na quarentena, por exemplo, na reabertura certamente eles voltarão a ser cobrados", alerta. "Muitas pequenas empresas vão reabrir e não vão durar dois meses, e pelo menos 20% vão ter que fechar pois não terão condições de se sustentar." 

CENÁRIO DE INCERTEZAS

Apesar de estar aberto e ser considerado essencial, no varejo da construção, apenas as lojas 'organizadas', como os  home centers, responsáveis por 60% do faturamento do setor, têm tido relativo sucesso 'nessa guerra', segundo um empresário da área presente à reunião.

Mas as pequenas, não: além da falta de crédito e de estoque, muitas se encontram em dificuldades financeiras – o que deve gerar muitos fechamentos nos próximos meses, principalmente na capital paulista.   

"A não ser por algum atendimento quase caseiro, quem está fazendo obras ou reformas nesse momento? Mas como elas dependem exclusivamente da venda de material, e apesar de não terem vendas grandes, muitas lojas fora da capital têm sobrevivido, e acreditam aguentar pelo menos três, quatro meses nesse sistema."

A questão mais preocupante, no momento, é a forma como foram tomadas as medidas de isolamento social, que podem levar à possível regressão dos indicadores pós-reabertura. "O que foi feito 'apavorou' a população, e terá impacto negativo no varejo por um bom tempo", disse um empresário do setor presente à reunião. 

Ele afirma que  o problema, especificamente em São Paulo, são os 'dois Brasis' – com Morumbi e favelas, por exemplo. E citou dados das últimas semanas que mostram que o isolamento é inócuo em locais mais pobres.

"A curva de contágio subiu 34%, depois 60% e 66% nessas áreas, pois esses modelos sofisticados criados pela equipe do governo veem São Paulo como uma unidade. Mas não é bem assim", afirma. "E na hora que tudo reabrir, infelizmente pode haver repique das mortes por não termos isolado a verdadeira população de risco." 

Ele também criticou a demora em implantar o isolamento, que começou bem depois do Carnaval, levando São Paulo ao mesmo cenário da Espanha. "Esperamos um mês para tomar medidas necessárias e, quando foram implantadas, o número de mortes aumentou", disse. "O que fizemos da economia ninguém conseguirá dimensionar: o receio é que essa reabertura parcial acabe sendo revertida, e a gente dê um passo atrás."

NA AGRICULTURA E NO E-COMMERCE, TUDO OK

Mas nem todos os setores têm sofrido os impactos negativos da pandemia. Com o melhor resultado para o mês desde 2013, o agronegócio brasileiro exportou US$ 10 bilhões no último mês de abril. 

De acordo com um empresário do ramo presente à reunião de Conjuntura, a agricultura de alimentos caminha bem, apesar da queda de 20% no mercado interno. "Mas estão mantidas as grandes negociações com a China, e teremos  algo em torno de 30% só nas exportações de carne bovina para o país este ano", disse.  

Apesar do temor da covid-19, que fechou cerca de seis fábricas da JBS nos EUA, reduzindo em 21% o abate de bovinos no país, aqui no Brasil a indústria se adaptou aos protocolos sanitários, e a "situação está controlada."

Já a soja, em termos de volume, bateu todos os recordes, segundo o empresário, com o país asiático responsável por 73,4% das aquisições do grão no 1º quadrimestre, somando US$ 31,4 bilhões. A alta de 5,9% nas exportações aumentou a quantidade embarcada em 11,1%, causando "filas de navios" no porto de Santos. 

"O cenário é muito positivo: a alta do dólar tem nos ajudado imensamente: nunca vendemos tanto no mercado futuro, e já comercializamos perto de 30% a 40% da safra de 2020 e 2021", afirmou.

Na outra ponta, o e-commerce também trouxe boas notícias: um especialista do setor presente à reunião disse que, em dez semanas, do final de fevereiro à primeira semana de maio, a alta no número de pedidos foi de 66% ante igual período de 2019. Já o faturamento cresceu 54%. Os dados são da Ebit/Nielsen.

Hoje, o setor se divide em dois cenários: o dos e-commerces com 'lojas próprias', que cresceram 42%, e marketplaces que vendem produtos de terceiros, como B2W, Magalu e Mercado Livre, com alta de 88%. 

"O fechamento de lojas e shoppings acelerou as compras do e-commerce. Acompanho o setor há 20 anos e nunca vi crescimento tão expressivo. A não ser no início, quando as bases de comparação eram menores."

No período, cresceu também o faturamento das categorias como alimentos e bebidas (144%), saúde (135%), cama mesa e banho (109%) e brinquedos (105%), puxados pela necessidade de ficar em casa. 

O especialista passou outras informações: só em abril, 10 milhões de pessoas compraram no e-commerce brasileiro. Na semana de 5 a 11 de maio, as vendas on-line tiveram o maior patamar de crescimento este ano, com alta de 15% sobre a semana anterior. "Nos 15 dias antes do Dia das Mães, o faturamento subiu 68%." 

Para um e-commerce, que crescia, em média 15% a 18% por ano, o especialista foi perguntado se os "números estratosféricos" de crescimento do período de pandemia devem ser mantidos quando o varejo puder reabrir.

"Acredito que, considerando sua aceleração no primeiro semestre, que será superior a 50%, e a retração do bolo total do varejo este ano, o setor deve crescer em torno de 10% em 2020", concluiu. 

Fonte: Redação

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